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boaventura de sousa santos


viagem a centro da pele



 

 

Ao Espelho no Hostal del Bosque Izquierdo

 

Estou relativamente sólido
entre duas velas
neste hostal errado onde moro devagar
às cinco horas da manhã
quando a cama se enche de condições
e os enigmas, tal como o arroz, só fazem bem
aos intestinos.
Este vidro é uma engrenagem agitada
pelo tremor dos anos e das vísceras:
o álcool concentra-se na urgência de ser útil
enquanto os astros elásticos
explodem em desastres de papel.

A virtuosidade ociosa das mãos
sobre um sexo morto
provoca humildades inimagináveis
que não vêm de dentro nem de fora.

Só as sementes estão no lugar
acondicionadas num museu de espaços.

As águas pensam.
Quando pensam muito
chamam-se espelhos.

 


Jantar numa Sala Deserta


E um retrato obscuro ou incompleto:
não amanhece nem há sombras,
dois corvos, talvez dois corpos
oscilam a meia altura
entre uma cama ofegante ou irrespirável
e um vaso de sumo violento
ou apenas desconfiado do sucedido

a composição dos fragmentos
parece mover-se por descuido
e aproxima-se de um rasgo fundo
onde está uma mãe
à espera
por engano

o desassossego
concentrado onde não deve:
a doce fibra do ventre
entretém-se à beira do gozo
com palavras milenárias
para guardar o sangue dentro.

Os ventos
levam sempre as instruções do corpo
até onde não há vento
 



Um Cigarro no Bradley's


Sempre que acendo um fósforo
com o micro-rigor que recomendas
queimo-me
e a todas as cautelas em redor

reduz-se a razão
às razões que temos,
concentra-se o futuro
nas proximidades,
repetem-se erros fanáticos
até parecerem diplomas
de descuidos bem estudados

entretanto os séculos
acumulam-se e o corpo
mesmo deitado
tropeça

só o fim começa
 



Os Pássaros de Fordwich


Escrevo-te ao microscópio
e pergunto-me se é comum
não ser parecido com o nome.

Sei que é portátil
e de arrumação instantânea
como os botões e as chaves
mas também sei
que nos tamanhos mais perfeitos
não cabem coisas simples
como a tesão inesperada da tarde
ou a língua avulsa do sexo
que me deixa à rédea solta
até poder estar de volta.

Se me perderes
chama ao acaso pelos pássaros de Fordwich
pelo cormorant, crested grebe, canada
goose, moor hen, coot, swan,
cygnet
talvez acertes,
se não em mim,
em quem estiver perto e me conheça.

O nome é uma imitação
que alastra e dura.



Superfícies Apetecidas


Os aromas não chegam a incendiar.

Os lugares são breves
e não se entregam até ao fm:
entretanto escurece
e o dia seguinte já não é aqui.

Estão proibidas as palavras numerosas,
mas ninguém está preparado
para verdades abruptas.

Debruço-me o mais que posso:
não vejo mais que os pés,
carne dupla
que nem sequer exagera
e caminha para mim como um parente afastado
que terei esquecido anos a fio
entre a louça da cozinha.

Vou e venho no mesmo bar
inconsistente como as conclusões
que ficam para depois:
terei desobedecido a algum anúncio?


 


Se Eu Fosse Mulher


Se eu fosse mulher,
teria uma história pessoal para contar.
Se eu fosse mulher,
diria as amenidades do costume
de modo impessoal e com os dentes cerrados
para não ofender as autoridades.
Se eu fosse mulher,
diria obrigada, obrigada
e seria obrigada a dizê-lo até estar grata.
Se eu fosse mulher,
sentiria a revolta do corpo
que chega sempre tarde de mais
por culpa d'outrem.
Se eu fosse mulher,
entraria em casa como quem sai de si
e sairia de casa como quem sai de si.
Se eu fosse mulher,
trocaria mil carícias
por uma e um discurso
sobre o preço justo.
Se eu fosse mulher,
estava sempre à entrada e à saída dos poderes
nunca dentro, sempre fora,
e sem mostrar vontade de entrar ou de ir embora.
Se eu fosse mulher,
teria filhos e os filhos dos meus filhos
e talvez ainda fosse culpada pelos filhos dos outros.
Se eu fosse mulher,
estaria aqui e ali, agora e sempre,
amanhã e depois, em cima e em baixo,
sem nunca poder estar por estar,
ou estar talvez
ou não estar nunca.
Se eu fosse mulher,
não me podia esquecer dos aniversários
nem das coisas simples como pílulas e preservativos
ou como menstruar-me fora dos fins de semana.
Se eu fosse mulher,
a população toda do mundo dependeria de mim,
mas como se fosse eu a depender dela.
Se eu fosse mulher,
leria as cartas
e seguiria à risca os sentimentos
sem poder dar nada a entender.
Se eu fosse mulher,
daria ao mundo todos os orgasmos
sem deixar nenhum para mim.
Se eu fosse mulher
teria à minha disposição um catálogo de doenças
e só se fosse puta ou louca
me serviria para além dele.
Se eu fosse mulher,
preparava a comida a pensar em explosivos.
Se eu fosse mulher,
teria de me deitar devagar,
não fosse o sono acordar.
Se eu fosse mulher,
sentiria as mãos onde não queria
e quereria as mãos onde as não tinha.
Se eu fosse mulher,
teria de fazer do trabalho alegria e da alegria trabalho e do trabalho trabalho e da alegria tristeza.
Se eu fosse mulher,
teria de me sentir em ruínas
para alguém se não sentir em ruínas.
Se eu fosse mulher,
teria de esperar que alguém me dissesse
e esperar o momento para lhe dizer que não me dissesse.
Se eu fosse mulher,
teria de cair nos braços com mil cuidados
para cair no lugar e no momento certos
e sobretudo para não magoar.
Se eu fosse mulher,
desejaria repetidamente Bom Natal, Feliz Ano Novo, feliz aniversário a toda a gente
e defender-me-ia em silêncio
de quem me desejasse tudo
de repente.
Se eu fosse mulher,
teria de dar prazer às claras
para ter prazer às escondidas.
Se eu fosse mulher,
o mundo esmagar-me-ia com gratidão.
Se eu fosse mulher,
teria de tomar conta de quem toma conta
até cair de bruços
nos meus braços.
Se eu fosse mulher,
cantaria o futuro no supermercado
e usaria o tempo entre o jantar e o arrumar da cozinha para escrever um grande poema.
Se eu fosse mulher,
o meu computador estaria decorado de recados domésticos,
tais como, sal, arroz, fraldas, aniversário, dentista,
escola, pediatra, lâmpadas, sobremesa, luz, telefone.
Se eu fosse mulher,
daria a Deus o que é de Deus
e a César o que é de César
e seria egoísta se reclamasse
de não ficar nada para mim.
Se eu fosse mulher,
ao menos viveria mais tempo
estatisticamente.
Se eu fosse mulher,
seria demasiado honesta, por não ser puta,
e demasiado puta, por não ser honesta.
Se eu fosse mulher,
não haveria melindres que me melindrassem
e apertaria o coração violentamente
até ele se abrir a toda a impertinência.
Se eu fosse mulher,
investigariam o meu corpo cientificamente
e eu leria os resultados nos jornais
sem me deixar ofender por tanta eloquência.
Se eu fosse mulher,
seria mortal
apesar de viver mais tempo
que os imortais da família.
Se eu fosse mulher,
iria passear preocupada com o passeio
despreocupado das crianças e do marido
e com a preocupação dos que passeiam preocupados
ou nem sequer passeiam
para não se preocuparem.
Se eu fosse mulher,
teria de ter ânimo para me vestir e despir
segundo a moda e o emprego,
e manter a calma
apesar do medo
na alma.
Se eu fosse mulher,
teria de servir Deus, Pátria e Família
e ficar à espera dos deveres
sem poder dizer que o Diabo escolha.
Se eu fosse mulher,
quereriam que eu fosse mulher
e eu seria,
mas só na condição de o homem
ser apenas homem
tanto de noite como de dia.
 

 

 

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison. É um dos principais pensadores das questões sociais contemporâneas em língua portuguesa. Sociólogo, autor, entre outros, da coleção Reinventar a emancipação social: para novos manifestos, em sete volumes, da editora Civilização Brasileira. Mais conhecido como pensador, é autor de Escrita INKZ, livro que o lançou como poeta no Brasil. Os poemas acima, inéditos, fazem parte de um próximo livro, a ser lançado pela editora Aeroplano.


Leia também, nesta edição, seu conto Mister Book em Nova York.

 


 

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