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gerardo mello mourão


o nome de Deus



 

&-1

        Nux, nucis – Nox, noctis – Nix, nivis – e às vezes
na castanha do ser já pode a noite
mais que pode o dia - e às vezes
no quebrar das barras
já pode o dia
mais que a noite pode – e então
do caroço da noite salta a aurora
tal qual da noz da aurora salta a noite
e do cacho de tâmaras da treva
sobre pestanas sobrancelhas
chapéus de escuras abas estremecem
à carícia da neve –

vem da neve o crepúsculo e o crepúsculo
balbucia
a anunciação da aurora
e a aurora é o crepúsculo e o crepúsculo
é a aurora.

Tua beleza
diagonal e oblíqua
corta de súbito o diâmetro
dos espaços atônitos

primeiro às vezes a presença núncia
de teu aroma: - certo perfume
a verdes e a madeiras marceneiras.

Talvez rumores
de galáxias virgens
onde teus pés pisassem
esmagando açucenas alfazemas aloendros e outras
melodias de flores - puras flores

ou rastros de alcatrão de tuas sandálias molhadas
em abismos
de grotões elementares
onde rescendes
a crustáceos primordiais e alcaparras-de-cheiro:
rondam por aí teus signos
clamores de mamíferos em ribanceiras - solfejos
dessas flautas de plumas de teus pássaros
azuis e verdes e encarnados
e arapongas de prata ao calendário das horas
e ao longe o canto da baleia no mar
e contraponto: - sinos dobram – por quem dobram? –
na colina do tempo.

 


Agora é noite:
por suas alcovas, camarinhas, corredores
cantamos o miolo da noite
                                tropeçamos
nos féretros da luz
e no ventre das trevas:

e nas deusas sem ventre: quem
saberia de um deus?
                                Pois,
perdera-se o deus da véspera
o derradeiro:

e na mudez da luz
na escuridão do som
                                cresce
                                reina
o silêncio
e do silêncio
                                suspeitas
                                vozes
onde donde alaonde
nunca antes se formara voz
- na garganta dos infantes –
                                uma
                                virgem
viaja a um gesto um ventre
na garganta dos infantes
e salta à boca do silêncio
e estremecem uns seios:

partem-se as rochas
raízes rompem o chão
dançam as folhas em suas copas
mas sepulcros não se abrem e na boca
dos infantes
o grito cresce em vão:

no céu-da-boca um súbito sabor
sugestão de sumos e de polpas
desse mel longínquo agriamargo mel
de sal e mel das videiras do vale:

- eras tu naquele tempo.



&-2
 


(Naquele tempo
um adolescente contemplou o canavial
na Baixa da Canabrava)

                    A
                          pollonis
e o vento o leva às grutas, aos banhados
           à cordilheira aos promontórios
           ao alto das serras
de cinamomos, sicômoros e oliveiras
e palmeiras de outrora e ao verde
do mar de canas verdes
e ali profeta me ensaiei
profeta pastoreio apolos afrodites
indo e voltando
ao talo da madressilva e da cidreira – e ao canto
do galo-de-campina
do rouxinol da estrela d’alva
           und wieder und wieder
           again again
flautas pastores sopravam teus nomes
teus apelidos familiares
Olímpikos Delphikos Caçadora
desmaiados hoje no teu templo antigo
entre mar e montanha e céu da Jônia
entre capelas memoráveis e túmulos eróticos
nesses assombrados cemitérios nupciais
da saudade etrusca.

           Artemis
           Afrodite
           Poseidon
Zeus
           Apfel
           Apol
           Apollon
e o eco, Narciso
se quebra nas quebradas

nem cresce a violeta mais no mármore
das ruínas onde foi sua morada

da agonia de Orfeu talvez restasse
a estrela
           um vento da montanha
um canto
           rastro de estrofe no firmamento
teu nome,
           Orfeu, Orfeu - e a flauta
ocupa a madrugada – mancham-se e
desmancham-se aos olhos as constelações
e o azul e o lírio ocupam o ar
e a rosa
           e Orfeu
ocupa a flauta da agonia
e a flauta
           ocupa o rosto
do infante feito ao sopro
do primeiro nome
em sua árvore de meras flamas crepitantes.
 



&-3
 


Da touceira de canas súbito fulgura
touceira de estrelas e a seu relâmpago
cai fulminado – seus olhos cegam-se dourados
pelos pendões de cana e as pupilas
viram erguer-se no canavial
o rosto d’Ele

por ali irromperam, parece
crinas de prata de teus cavalos relinchantes
ao tropel dos anjos estribeiros

mas à sua passagem só nos resta a morte
e que mais poderemos responder
depois de tua presença absoluta?

Na adolescência daquele tempo o adolescente
contemplou o canavial
na Baixa da Canabrava
e de repente os olhos foram dourados
pelos pendões de cana – e de repente
ergueu-se do canavial às pupilas assombradas
e as pupilas se abriram – e viram
no meio do canavial - o rosto
de um deus erguer-se de repente e de repente
apagaram-se os olhos
           de repente mortos
com sua adolescência

com uma laranja na mão
ao meio-dia do alpendre
           morreu
e a laranja rolou
no silêncio de barro dos tijolos do alpendre.

Amarelava a boca entre as velas de cera
entre os prantos das primas
bogaris, perpétuas e as excelências
da lástima do canto
entre castiçais
                      morto
ecos da música claustral
dessa Lamentação por Linos
           a porta inferi
           erue domine animam ejus
.

Resta a porta do céu:
:e de repente o morto
estremeceu no esquife:
das touceiras de cana verde
ergueu-se o rosto de
                                            Deus
e o morto
desmorreu de repente

e nunca mais se soube
se morto ou vivo
nas pálpebras guardava
o assombro de seus olhos:
quem vê Deus morre
quem vê Deus desmorre:
                      nada mais restaria para ver.

E esta é a história - contam as velhas -
da morte e ressurreição
de um Mourão, dito Montano,
filho do major Borete Mourão
no país da Canabrava onde
viu os anjos ouviu os hinos
fitou na vida e na morte
o rosto de Deus:
e ao fulgor desse rosto
partiu da vida e
voltou da morte
e nesse rosto
ressoavam e silenciavam
todas as letras de seu nome.
 



&-4
 


E há os que moram, Jonathan’
in firmamento coeli
e há os que moram neste vale de lágrimas
e há os que moram
                      no relâmpago da pupila
quando
the skies fall into an ocean of gardens
e este foi o país onde Montano
Mourão pendia
de asas e flautas de querubins
abismo de rosas onde o rosto
florescera e abrira
uma vez e outra vez o seu fulgor
entre céu e terra quando
a vida se fez morte e a morte
se fez vida
                      quando
anjos e lírios e raparigas – algumas –
começaram a cantar:

e esta é a história da morte e ressurreição
de Montano Mourão na Canabrava
de Mellos e Mourões e outros viventes.

 


&-5
 


E um dia
o sopro pairava sobre as águas

e um dia
desapareceu o espírito no novelo das águas
e em seu lugar
da garganta dos ventos
do pulmão do pélago o soluço
das águas dos espaços
das espumas do mar às espumas do céu
e o clamor ergueu-se dos abismos arriba
na anunciação sem resposta ao navegante sem rumo:
          
Pan megaV tetnhke - o derradeiro
           Deus agora é morto
.

E a mortalha e as trevas recolheram
no terror do silêncio à sepultura
do coração dos homens também mortos
em sudários de prantos
o Nome sem memória

junti\o ao nome defunto
jazia
sobre o leito das águas podres
a memória defunta do Poeta – jazia
nas ausências
da salsugem, do sal, das ondas e do ar
em esquife de estrelas, longe,
cujus pendebat mundus – jazia
defunta
           a memória da Musa

 

(...)
 

 

GERARDO MELLO MOURÃO, homenageado nesta edição pelos seus quase 90 anos, é uma figura lendária na literatura brasileira atual. Amigo íntimo de Guignard, de Michel Deguy e de Pablo Neruda, foi quase prêmio Nobel em 79 e é um dos mais respeitados escritores brasileiros no exterior. Seus livros mais conhecidos são A Invenção do Mar, o Valete de Espadas e a trilogia Os Peãs. Este último levou Ezra Pound a comentar: "em toda minha obra, o que tentei foi escrever a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem o conseguiu foi o poeta de O país dos Mourões". Os poemas acima são os primeiros cinco cantos de um manuscrito inacabado que o autor cedeu à revista Confraria, e que não pretende terminar, pois, segundo ele próprio, havia percebido que quando o concluísse, chegaria a hora de sua morte.

Leia também nesta edição uma nota introdutória de Alexei Bueno sobre a obra de Gerardo Mello Mourão, o conto A Ponte e, no Phantascopia, os fragmentos de A Invenção do mar e de O País dos Mourões.


 

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