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manuel antônio de castro


traduzir Heidegger - o originário da obra de arte

 

 

 

Em 2002 eu e a professora Idalina Azevedo da Silva resolvemos traduzir o ensaio de Heidegger Der Ursprung des Kunstwerkes. Em português já circulava desde 1992 a tradução de Maria da Conceição Costa, editada pelas Edições 70, de Portugal. Por que então uma nova tradução?


Pôr defeitos numa tradução é muito fácil, muito mais difícil é realizar a tradução. Teorias sobre tradução são antigas e abundantes. Porém, diz o ditado, faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Na realidade, cada tradução deve trazer no traduzir a sua própria teoria. Porque cada tradução é uma tradução única. Por um motivo muito simples. Cada obra é uma obra. Considerações genéricas sobre como traduzir pouco ou nada adiantam.


As dificuldades que o texto de Heidegger apresenta não são diferentes das dos grandes pensadores ou poetas, ou seja, de qualquer grande obra (de que até pode ser desconhecido o autor). Por isso, o nome do autor nada quer dizer. O que conta é a obra.


O tradutor e a obra se defrontam. Mas esse defrontar-se é o mesmo do criador diante da criação. A obra e só a obra conta. É isso o que Heidegger diz em diversas passagens. E nos explicita e assinala essa dificuldade e postura no último parágrafo do seu ensaio:

§ 208 – Como é natural, permanece uma inevitável dificuldade para o leitor que, de fora, adentra este ensaio. De imediato e durante muito tempo não concebe nem interpreta as questões a partir do silencioso domínio de onde brota o que é para ser pensado. Porém, para o próprio autor permanece a dificuldade de, em cada uma das diferentes passagens e paragens do caminho, a cada vez, falar justamente na linguagem propícia.

Assim termina o ensaio. Mas aí estão traçadas as diretrizes gerais de quem quer se aventurar não só a ler como, muito mais, a traduzir o ensaio. Como “falar justamente na linguagem propícia”? Isto é, como traduzir na linguagem propícia? Isso Heidegger o diz aí mesmo: É necessário interpretar as questões. Aqui está o núcleo de toda tradução. Ela implica sempre e sempre uma interpretação. Porém, não se trata simplesmente da interpretação do texto, mas, sim, das questões. Questão não é conceito. Estes são usuais e é só escolher o melhor ou mais aproximado ou adequado. As questões não têm definições. Elas precisam ser absorvidas, metabolizadas, incorporadas e transfiguradas em linguagem propícia, isto é, elas precisam ser pensadas. Como? “... a partir do silencioso domínio de onde brota o que é para ser pensado”.

Não sei se o leitor percebeu que o pano de fundo em que se move toda interpretação, toda tradução e toda a nossa vida consiste no método. É o que Heidegger aí, apropriadamente, denomina caminho. Caminho de sentido é a linguagem propícia.

O método:

§4 - O que a arte é deve-se deixar depreender da obra. Somente podemos experienciar o que a obra é a partir da essência da arte. Qualquer um nota facilmente que nos movemos em círculo. A opinião corrente exige que este círculo seja evitado, pois é uma violação da lógica. Pensa-se poder deduzir o que a arte é através de uma observação comparativa das obras de arte existentes. Mas como podemos estar certos de que para uma tal observação nós tenhamos como base efetivamente obras de arte, se nós ainda não sabemos o que é a arte? Porém, assim como a essência da arte não se deixa depreender através de um levantamento de características das obras existentes, também não se deixa depreender a essência da arte através da dedução de conceitos superiores, pois também esta dedução já tem em vista oferecer como tal aquilo que nós de antemão consideramos como uma obra de arte. Contudo, o levantar características a partir de obras existentes e o deduzir a partir de princípios são, neste caso, do mesmo modo impossíveis e onde isto é feito é um auto-engano.


§5 - Assim precisamos percorrer efetivamente o círculo. Não se trata neste caso de uma saída, nem é uma falha. A posição vigorosa é trilhar este caminho e permanecer nele a festa do pensar, supondo-se que o pensar seja um ofício. Não somente o passo principal da obra para a arte, bem como o passo da arte para a obra é um círculo, mas também todo passo isolado que tentamos circula neste círculo.

Empreender a tradução do ensaio significa simplesmente deixar-se tomar pelas questões “a partir do silencioso domínio de onde brota o que é para ser pensado”. E a primeira de todas é o método. E isto vale para você leitor. Se não se calar em você mesmo o falatório dos conceitos habituais e se dispuser para a escuta do silencioso domínio, o ensaio e a tradução nada dirão. O obsequioso silêncio de escuta é a disposição prévia para a caminhada de leitura do ensaio, para a escuta da voz das questões.

As questões. Eis um dos maiores desafios para os tradutores. Imagine o leitor uma árvore (pode ser a da vida) com abundantes raízes. Elas estão todas interconectadas. Desse rizoma – as obras de Heidegger - foi escolhido o ensaio Der Ursprung des Kunstwerkes para ser traduzido. Tentar isolá-lo do rizoma é desconectá-lo de toda a rede vital. Mantê-lo na rede da vida é tentar preservar em primeiro lugar a conexão das questões, muitas vezes desenvolvidas largamente em outras obras. A presente tradução tem sempre em vista essa interconexão, por isso parte sempre das questões para propor uma tradução. Conseguimos? Difícil de saber, pois isso sempre implicou escolhas interpretativas. Mas arriscamos conscientemente. A título de exemplo damos o dificílimo parágrafo 170. Heidegger pensa a arte como um todo, ou seja, qualquer manifestação artística. E as questões aí se centralizam em quatro palavras: Dichtung, Poesie, Sprache, Sagen. Dichtung tanto significa poema como poesia, mas Poesie também significa poesia. Sprache diz linguagem, língua, fala, mas Sagen também significa dizer. Como distinguir na tradução? Então fizemos algumas opções: Dichtung: poiesis; Poesie: poesia; Sprache: linguagem; Sagen: dizer desvelante. São sem dúvida opções que tiveram por finalidade levar o leitor a perceber a questão que estava em questão e uma busca da linguagem propícia. Estes esclarecimentos são insuficientes, claro, mas servem para dar uma idéia ao leitor das dificuldades e ao mesmo tempo se tornam um convite para que cada um reinvente sendo criativo. Eis o texto de Heidegger:

§170 – A própria linguagem é poiesis em sentido essencial. Porém, porque então a linguagem é aquele acontecimento no qual o ente como ente se abre pela primeira vez para o ser humano, a poesia - a poiesis em seu sentido mais estrito – é, em vista disso, a mais originária poiesis em sentido essencial. Por isso, a linguagem não é poiesis porque a linguagem é a poesia originária. Porém, a poesia apropria-se acontecendo na linguagem, porque esta guarda a essência originária da poiesis. Pelo contrário, a arquitetura e a escultura acontecem já sempre e já somente no aberto do dizer desvelante e do nomear. Elas são regidas e conduzidas pelo aberto. Por isso, elas ficam sendo caminhos e modos próprios de como a verdade se dispõe e instala na obra. Elas são sempre um dos modos próprios do dizer desvelante, dentro da clareira do ente, que já desapercebidamente aconteceu na linguagem.

Uma das primeiras dificuldades que encontramos está no título. Ele diz em alemão: Der Ursprung... Todas as traduções que consultamos se limitaram a abrir o dicionário e traduzir a palavra alemã pelo que ali está consignado: A origem. Porém, talvez os leitores que se aproximam da obra de Heidegger não atentem para um fato muito simples: ele não é apenas um grande pensador, um dos maiores na linha dos grandes pensadores. Nessa linhagem há uma dimensão que os distingue e que raramente é acentuada e levada em conta. Eles não reinventam o real só como pensamento. Eles só fazem isso porque o reinventam como linguagem. Nesse aspecto, creio que o mais trágico aconteceu com Platão. O Platão filósofo metafísico tradicional é o produto da tradução literal e rasteira e se constitui na mais profunda injustiça ao Platão pensador e poeta. Existe o grego antes e depois de Platão. No português é o caso de Guimarães Rosa. O mesmo pode acontecer com Heidegger. Precavido, empreendeu uma das mais profundas reflexões a partir da e sobre a linguagem (mas a maioria passa sobre isso, o que significa ignorar o cerne do pensador-poeta). Para apreender o sentido de Ursprung não se pode simplesmente lançar mão do dicionário. O que fazer? Apreender o sentido dentro do próprio ensaio e no todo das suas obras. Na realidade, os grandes autores em suas obras reinventando a língua reinventam os dicionários. Eis o motivo porque são inimigos mortais dos gramáticos, como o diz expressamente Guimarães Rosa. Muitas das reações e acusações a Heidegger provêm desse fato e dessa crassa ignorância. Por isso traduzimos Ursprung por Originário. Eis o texto do próprio Heidegger:

§180 – A arte deixa a verdade eclodir. Enquanto desvelo interpretante que funda, a arte faz eclodir a verdade do ente na obra. A palavra originário significa fazer eclodir algo, trazer algo do ser num salto fundador, a partir da proveniência essencial.


§181 – O originário da obra de arte, e isto significa ao mesmo tempo, dos criadores e dos intérpretes desvelantes, e isto diz do Entre-ser histórico de um povo, é a arte. Isto é assim porque a arte em sua essência é um originário: um modo insigne de como a verdade é sendo, quer dizer, acontece historicamente.


§182 – Perguntamos pela essência da arte. Por que perguntamos assim? Perguntamos assim para poder mais apropriadamente questionar se a arte, em nosso Entre-ser histórico, é ou não é originária, se, e em que condições, ela pode e precisa ser.


§183 – Uma tal reflexão não pode forçar a arte e seu devir. Porém, este saber reflexivo é a preparação prévia e por isso imprescindível para o devir da arte. Somente tal saber prepara o lugar (a) à obra, o caminho aos criadores, a postura aos intérpretes desvelantes.


Transcrevemos este último parágrafo da tradução porque aí fica implícita a ligação entre o que a palavra Ursprung (originário) evoca e três das grandes questões em que se estrutura o ensaio: a obra, os criadores, os leitores. Falar de todas as grandes questões aqui é impossível.


O método de Heidegger é o circular, porque a vida é circular (vida/morte, morte/vida, mediada pela linha circular do entre). Por isso o que diz no último parágrafo (§208) é a explicitação do que enuncia no primeiro (§1). Compare:

§1 - Originário significa aqui aquilo de onde e através do que uma coisa é o que ela é e como ela é. A isto o que algo é, como ele é, chamamos sua essência. O originário de algo é a proveniência de sua essência. A pergunta pelo originário da obra de arte pergunta pela proveniência de sua essência. A obra surge através e a partir da atividade do artista, segundo a opinião corrente. Porém, de onde e através do que o artista é o que é? Através da obra, pois dizer-se que uma obra faz o mestre significa que somente a obra deixa o artista aparecer como um mestre da arte. O artista é o originário da obra. A obra é o originário do artista. Nenhum é sem o outro. Do mesmo modo também nenhum dos dois sustenta sozinho o outro. Artista e obra são em-si e em sua mútua referência através de um terceiro, que é o primeiro, ou seja, através daquilo a partir de onde artista e obra de arte têm seu nome, através da arte.

§208 – Permanece uma inevitável dificuldade para o leitor que, de fora, adentra este ensaio, como é natural, de imediato e durante muito tempo, não concebe nem interpreta as questões a partir do silencioso domínio de onde brota o que é para ser pensado. Porém, para o próprio autor, permanece a dificuldade de, em cada uma das diferentes paragens e passagens do caminho, a cada vez, falar justamente na linguagem propícia.


A primeira palavra do ensaio de Heidegger: O originário... é retomada no último parágrafo ao denominar o Originário “...o silencioso domínio de onde brota o que é para ser pensado” (a essência a que se refere no §1). Ao mesmo tempo devemos acentuar que Heidegger, a partir do originário, situa os artistas e os leitores desvelantes na mesma origem da obra.


São muitas as questões que o ensaio e a sua tradução colocam. Apenas estamos dando algumas indicações. Cabe ao leitor no desvelo do silêncio desarmar-se dos conceitos e dispor-se a fazer a caminhada de procura e encontro da linguagem propícia.


Mas não poderia dar estas indicações sem chamar a atenção para uma questão central e que percorre todo o ensaio: Não propõe o ensaio de Heidegger mais uma estética como qualquer outra ou será ele o único autor que é o dono da verdade? Esta pergunta escutada com mais freqüência do que o desejável já mostra o quanto é difícil para cada um deixar-se tomar pelas questões. Abrir-se para o taumadzein que, na palavra grega, se apossa dos que se abrem e são abertos para o originário. No ensaio, o próprio Heidegger responde a essas possíveis interpelações:

§187 – As reflexões precedentes dizem respeito ao enigma da arte, ao enigma que a própria arte é. A pretensão de resolver tal enigma está distante de nós. Nossa tarefa consiste em ver o enigma.

E por que ele não é o dono da verdade? Simplesmente porque ao lado da linguagem e como linguagem a verdade é a questão central da obra de Heidegger. Ela é, por isso mesmo, o núcleo da obra de arte. Citamos:

§65 – A obra de arte abre inauguralmente à sua maneira o ser do ente. Na obra acontece esta abertura inaugural, ou seja, o desvelar, ou seja, a verdade do ente. Na obra de arte a verdade do ente se pôs em obra. A arte é o pôr-se-em-obra da verdade. O que é a verdade, propriamente, de modo que ela aconteça de tempos em tempos como arte? (a) O que é este pôr-se-em-obra?


§129 – A partir da consideração da delimitação essencial da obra a que se chegou, de acordo com a qual o acontecimento da verdade na obra está em obra, podemos caracterizar o criar como o deixar emergir em um pro-duto. O tornar-se obra da obra é um modo do tornar-se e do acontecer da verdade, em cuja essência está tudo. Mas o que é a verdade para que tenha que acontecer do mesmo modo como em um algo criado? Até que ponto a verdade tem um impulso para a obra, no fundo da sua essência? Isso se deixa compreender a partir da essência da verdade esclarecida até aqui?


§130 – A verdade é não-verdade até ao ponto em que lhe pertence o âmbito da origem do ainda-não-(do não)revelado, no sentido do velamento. No des-velamento como verdade vige, ao mesmo tempo, o outro “não” de um duplo velar. A verdade vige como tal na oposição de clareira e do duplo velamento. A verdade é a disputa originária na qual sempre se conquista de um modo o aberto ao qual tudo acede e está dentro, e a partir do qual tudo se retém, o que como ente se mostra e se retrai. Sempre que, e seja como que esta disputa ecloda e aconteça, os disputantes, clareira e velamento, através dela, caminham separados. Assim se conquista o aberto do espaço da disputa. A abertura deste aberto, isto é, a verdade, só pode ser o que ela é, ou seja, esta abertura, quando e enquanto ela própria se organiza em seu aberto. Por isso tem que sempre neste aberto estar um ente, em que a abertura ganha o seu estar e a sua constância. No que a abertura ocupa o aberto, ela o mantém aberto e sustenta. Pôr e ocupar são aqui pensados, em geral, a partir do sentido grego da thesis, que pensa um instalar no desvelado.

Se a verdade é a não-verdade, como Heidegger pode se achar o único dono da verdade? Se a obra de arte é a verdade se manifestando e ele diz:


§187 – As reflexões precedentes dizem respeito ao enigma da arte, ao enigma que a própria arte é. A pretensão de resolver tal enigma está distante de nós. Nossa tarefa consiste em ver o enigma.


Não precede a toda pretensão racional e conceitual (verdade única) uma profunda humildade diante do enigma? Tentar fazer esta tradução foi tentar também e em primeiro lugar nos abrirmos para a visão do enigma. E é este o convite que fazemos aos leitores. Como? Lendo o ensaio e a tradução que propusemos como o caminho a ser percorrido e conquistado sempre na busca da linguagem propícia.



MANUEL ANTÔNIO DE CASTRO, pela segunda vez na revista Confraria, é filósofo, professor de Teoria Literária e titular de Poética da UFRJ. Autor dos livros O Acontecer poético, Tempos de metamorfose e da coletânea A Construção poética do real, que conta com ensaios de Emmanuel Carneiro Leão, Marco Lucchesi e Ronalds de Melo e Souza. A tradução de Der Ursprung des Kunstwerkes, em fase de conclusão, será publicada em breve. Quase todos os seus textos estão disponíveis na página  www.travessiapoetica.com

 


 

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