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andréa del fuego


clóvis

 

 

 

Elimar e Elis são irmãos e velhotes. Ele prometeu que a levantaria se o tombo fosse feio, de cumprido e longo. Pois o tombo foi de largura, em vez de cair lá de cima, ela escorregou de lado numa gelatina. Parque Clóvis. Dois brinquedos pelo preço de um. Depois do escorrega, sem arranhão, Elis decidiu pela roda gigante. Dali o dinheiro só se trocaria por algodão-doce ou churros. Elis foi pra barraca escolher um regalo de açúcar, Elimar pra fila do banheiro.


– O meu com doce-de-leite – ela pediu churros.


Com a massa fálica e frita, foi de encontro ao banco vago, um dos poucos. Hora do lanche no Parque Clóvis. Quente, o leite dourado caudaloso, tinha que correr a língua pra não alcançar os dedos a calda viscosa. Ficou quente nas bochechas, deu vergonha. Ia lamber aquele troço regurgitando doce-de-leite. O outro confeito só não tem açúcar polvilhado, de resto, até o tamanho. Na frente das crianças, na frente dos moleques. Cachorro-quente era melhor, a salsicha escondida pelo pão, ninguém via aquilo entrando na boca. O churro é explícito. Se botar a boca com jeito é pior, vai parecer experiência.


Elimar estava no banheiro desde a compra do sujeito-doce. Não saía mais lá de dentro. Pra resolver, foi enfiando o churro na boca. Mastigou a primeira parte até engolir num só espasmo muscular. Mais uma mordida e o churro terminava, respirou e fim. O corpo não entendeu a pressa e mandou de volta, a garganta cuspiu a massa, o doce-de-leite escorreu pela boca.


– O que foi? – veio o guarda.


– Engasguei.


– A senhora não vai embora? O ônibus da sua excursão tá saindo.


Elimar saiu do banheiro batendo as mãos nas laterais da calça, os polegares em tom escuro debaixo dos bolsos. A excursão tinha ido embora, o parque vazio; sim, tirando a turma do bairro Baeta, quem se enfiaria debaixo de garoa num Clóvis? Com a turma ido embora, sobrou ela sentada com outro churro na mão.
 

– Por que não foi me chamar no banheiro?
 

– É pra você – e deu o churro pro irmão.
 

Elimar olhou pro churro, olhou bem.
 

– Cadê o recheio?
 

– Melhor sem.


 

ANDRÉA DEL FUEGO é autora de Minto enquanto posso e Nego tudo. Integra as antologias Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, Antologia Bêbada e +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. Dirigiu os curtas Morro da Garça, O Beijo e Ela. Assinou a coluna Centrífuga, no portal Bol e colabora com sites e revistas. Escreve diariamente no blog www.delfuego.zip.net.

 


 

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