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idalina azevedo da silva


os portais de Jerusalém

 

 

 

I

Vem com a brisa
Ao monte a carícia
Mão de brandura
Afagos acumula
Pronta para a vista.

A paisagem
Encoberta pelo véu
Transparente esconde
As casas brancas
As ladeiras
No caminho pontilhado
De verde dourado
Na bruma da tardinha
No escurecer
Onde as lamparinas
Na luz do olhar
Acendem as estrelas

Prata em quebradinhos
Gotas cadentes das oliveiras
Rangem cortinas
Ao cenário enluarado

Todavia lá embaixo
Os olhos decorados
No pincel mágico da verdade
Debruçados na surpresa
Encantarolados
Cuidadosamente
Descobrem
Jerus-além.


II

Tocai a trombeta
À vista de Sião
O coração segue
O ritmo dos passos
Adivinha no planalto
Asfaltado de pedras.

Tocai a trombeta
À vista de Sião
Peregrino da distância
À procura de teu rastro
Do teu olhar
Das tuas lágrimas

Tocai a trombeta
E levantai a face
Para que se vislumbre
Claramente nos olhos
A firmeza da promessa
Na amorosa identidade.


III

Jerusalém na paz da tarde
Oferece a morada no presépio
A casa aconchego
Nesta terra amarela
Macia de pedras
Por direito também minha.

Jerusalém na paz da tarde
Escura mas também iluminada
Pela prece das estrelas
Espalhadas por mão certa
O vinho dividido nas taças de madeira
Igual hoje e naquele dia.

Jerusalém lavrada
Nesta areia cintilante
Chave do quarto dourado
Guarda o véu bordado de teu berço
Que a mãe querida
Na saudade chuleia.


IV

Jerusalém estes montes
Cobertos de grama rala
Alinhados para a manjedoura
Gravatás de todas os tons.

E aqui foi cadafalso

Ah Jerusalém
Tecida com fios de linho
Criada para ser o ninho
Do amor mais abrangente
Anônimas pelo vento espalhadas
Aromas de traição.

E por isso em meus passos
Alcançados pela vista
Eu visito a terra mágica
Entoando bem baixinho
Velhas e novas cantigas
Desagravos na escuta
No coração escondidas.
 


V

Jerusalém

A vista testemunha
As vestes do banquete
De mil cores coloridas
Fabricadas com tantas tintas.

Vêm de longe
Eles virão
Ao chamado da trombeta
Tocada na hora escrita.
 


VI

A aragem benfazeja
Equilibra a paisagem
Da Galilléia vem os ares
Que na brisa murmurejam.

Trago no peito as notícias
O fio móvel do início
Pois vim de lá
E também aqui habito
Qualquer morada é infinito.


VII

Os pés caminharam
Pelo lago de Genesaré
Contornado pelos montes
Desenhados nos espelhos
Refletindo o mundo inteiro.

A quietude do pacífico
Esconde o sangue
Da terra do conflito
Traz o nome

Ah quanta saudade
Adonai Elohim Que É
Da lareira à noite acesa
Do olhar enternecido
Sobre nossas cabeças.


VIII

Quisera percorrer a rota
Que se instala entre os montes
e os meus olhos.

Quisera chegar ao forte
Pelo caminho mais certeiro
Nas assas dos camioneiros
Que espalham as novidades.

Quisera não querer nada
Somente para sentir teus braços
Nos abraços que me abracem.


IX

Os montes são os mesmos
Em todos os lugares
A mesma massa de limites
Como aqui e lá
Transportam o pensamento
Do mar para as cavernas
Como nas asas dos pássaros.

E as florestas
Que sombreiam
Casas pintadas de branco
Onde se abriga
O viajante.

De longe elas são
Iguais pinturas salientes
Mas de perto
Mostram os detalhes
Que diferem.

Ah! Jerusalém!
Estes teus montes
Por onde as sandálias gastas
Andaram do pescador
Antes e depois nas águas
E deixaram todas as marcas.
 


X

O Resgate

Jerusalém
As casas de barro
Na paisagem perto e distante
Onde habita o teu hálito
Frio e quente

Onde
As toalhas brancas
Acenam ao sopro da brisa
Bailarina

Onde
As folhas das palmeiras
Balançam e anunciam
A equivalência

Onde
O verde das oliveiras
Adoçam as tâmaras douradas
E as bananeiras
Protegem da ventania seus cachos

Onde
O parentesco nasce
Já bem no começo
E permanece

Onde
O embrião abre a porta
Como o botão da rosa
E acolhe o sopro
Que desperta
Em tantas pétalas.

Ah
Que aqui vivo
Onde se mostra o morro
Com as casas de barro
No desenho parecido
Cobertas do bordado branco
E com o sol tanto brilham.

Onde
No tempo e espaço
Pois em um único aparecer
Também se escutam os passos
Agora e aqui como lá e outrora.

Na cadeira de balanço
No compasso da memória
A veste de menina
Desliza coberta sobre a relva
Renovada de cascalho
Presa ao sino de aço
Que meu coração
Acorda

E toca
No riso da badalada
A alegria de instante
Do entardecer amoroso
Que promete sono e gozo
No leito daquela fonte.
 


XI

Jerusalém
As vestes molhadas
E as sandálias rotas
Das subidas de teus montes
Das descidas de tuas várzeas.

Os calos nos pés
São os marcos
Da compaixão.

Jerusalém
O cansaço da caminhada
A poeira no vestido
O alforje transbordante

São a lembrança
Da consolação

Que desce
do céu
Pela manha e à tarde
Sossega o balanço da árvore
Doura o campo de pedra.

Assim descanso e acordo
Num colchão de estrelas moles
Cozido de cor brilhante


XII

Entrada em Jerusalém

Os teus portões
Monumentos
Do monte
A descida
Entre os arbustos
E pedregulhos
As fendas
(As feridas)
São os caminhos

Teus portões Jerusalém
No dia santo
Da visita do rei

O rei de ouro
Que se apresenta
Em roupas de pobre
Em sandálias de couro

E os ramos da oliveira
E as verdes folhas da palmeira
Saudando por todos os lados
A vinda triunfal
Do herdeiro de Davi
Entre lá e aqui

Jerusalém querida
És Sião eternamente
Predileta
Por onde andou
O meu Senhor

Te vi
Onde correu seu sangue
E se praticou a maior
Das injustiças

Jerusalém
Terra da penitência
Vezes e vezes bendita
Grandiosa com seus templos
E seus jardins
Pois ele passou
Lá e aqui.

Jerusalém
Nunca esquecida
Habitas
No peito contrito

Que contigo chora
Na chuva que lava
A cal das brancas casas
Para de novo o sol dourá-las.

Jerusalém
Este mar
Que te viu caminhar.

 

IDALINA AZEVEDO DA SILVA é autora dos livros O Semeador e Outras Canções de Aviso e Minhas Estórias - Mini Estórias (Prêmio Secretaria de Educação do Estado da Bahia, em 1969). Pertenceu ao movimento literário baiano na década de 60 e 70, participando da antologia Arupemba, além de colaborar com revistas e jornais de Salvador e do Rio de Janeiro. Como professora de língua e literatura alemã na UFRJ, pesquisou amplamente as obras de Friedrich Hölderlin e Franz Kafka. A série de poemas Os Portais de Jerusalém é publicada pela primeira vez pela Revista Confraria.


 

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