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gerardo mello mourão


Kavafis

 

 

 

Os poetas e críticos que melhor leram Kavafis - como Galatéa Kazantzakis, Gregório Xenópulos e Tolos Agras - anotam quase em cada poema os ecos de outros poemas. É a iluminação de um poema por outro. A creação poética toma corpo em planos sucessivos. Na obra densa, pacientemente amadurecida, a leitura de cada poema se ilumina, aqui e ali, pela lembrança de um título, de um parêntese, de uma pontuação, de uma disposição linear, de qualquer expressão já formulada em outro poema. Há uma prestigiosa memória interna na própria obra gráfica, como um semáforo na via da obra poética. Todos os poemas de um vero poeta como Kavafis estão estreitamente concatenados entre si, um é complemento do outro, cada um separado e todos juntos em sua obra.

Mesmo numa poesia como a de Kavafis, acontecida em diversos ciclos – o destino, a fatalidade, a exaltação do hedonismo, o esplendor e a decadência do mundo helenístico - há uma trama de referências cruzadas, à volta de outros poemas, do autor ou de textos antigos, o reaparecimento de personagens e de fatos da história grega e dos epitáfios de Alexandria. Há um sistema arterial no corpus canônico em que se circulam todos os poemas. A este propósito, o poeta Yorgos Seferis dizia: - "minha impressão pessoal é de que, a partir de um determinado momento, a obra kavafiana deve ser lida e considerada não como uma série de poemas separados, mas como um único poema em curso - um work in progress, como diria Joyce, que só termina com a morte". Essa unidade na obra de um poeta é sua graça. Gratia sua. Sua
CariV. La grâce.

Notar ainda a intratextualidade e a intertextualidade tão próprias da poesia e tão presentes na escritura poética de Kavafis. Isto é: - a remissão a textos do próprio autor e a remissão a textos de outros autores. Miguel Castillo Didier, curador erudito e tradutor admirável da obra de Kavafis - de quem são tomadas quase todas as referências deste texto - invoca Dimitris Dimirulis, para quem "a intertextualidade do discurso kavafiano é evidente, imediata e categórica", pois apresenta abundantes "referências a textos, menções de nomes, lugares, datas, acontecimentos, citações de títulos e fragmentos de livros, epitáfios, inscrições, moedas, tradições orais", etc.

Seferis reporta, a propósito de Kavafis, a poesia de Eliot, na qual a presença de outros poetas não significa a presença de corpos estranhos no texto e na atmosfera do poeta.

Kavafis tem a sorte de ser um "babelófono". Vive na Babel idiomática de Alexandria, o que lhe permite o luxo kaleidoscópico da intertextualidade das línguas, para a ressurreição dos tempos: - traz as citações no idioma original - o grego homérico, clássico, a koiné helenística, o bizantino arcaico, o grego demótico e o grego dialetal. Passa de uma para outra dessas expressões os textos que transcreve, alcançando patamares meta-gráficos, com meta-logos que reinventam a aurora da língua e de repente também velam o rosto das palavras com um véu mais ou menos áfano, numa diafanéia, quase a-fanéia, em que a palavra, de volta a uma zona uterina, chega ainda non-nata, a(d)-nunciada ou e(x)-nunciada como um presságio de si mesma. Assistimos a hora do alumbramiento da palavra. Alumbramiento - a bela palavra espanhola para "parto". Também em português quando a mulher vai parir, se diz que vai dar a luz a uma criança - ou dar à luz (a la luz) uma criança. Verifico que Kavafis chegou a escrever em duas línguas o mesmo poema. A primeira versão de Os cavalos de Aquiles está em katharévusa, chama-se As exéquias de Sarpedón. Inesquecível o pranto dos cavalos que choram, derramam lágrimas, um rio de lágrimas desde Homero a Kavafis, diante de Pátroclo morto. Pela alteração das línguas-linguagens de Kavafis, não secam as lágrimas dos cavalos de Homero; continuam a jorrar.

A sugestão de Rilke de que era preciso viajar, viajar, conhecer cidades e cidades e cidades para escrever um único verso, pode substituir-se por uma outra, talvez mais fecunda: é preciso ler, dezenas, centenas de livros, livros e livros. O poeta tem que ser um peregrino de textos, com seus caminhos de pedras ou de relvas. De que outro modo poderia Kavafis enfanter de nouveau o adolescente Cesarión, filho de Cleópatra e de César, assassinado aos dezessete anos, sobre o qual não há mais que duas ou três linhas, creio que em Plutarco, na Vida de Antônio? Cesarión nasceu de novo e agora vive para sempre nos versos de Kavafis.

A vocação do poeta é uma vocação aristocrática. Ele é um eleito. Um habitante da elite dos tempos e dos espaços. Como tal, ele caminha nos caminhos do amor, da arte e da política, no sentido original da vida na polis da Grécia. Cada um entra na ágora como se entrasse na sua própria casa. É vítima e protagonista de sua própria aventura.

Lembro-me de que, a propósito de Kavafis, Auden advertia que os poetas não devem atribuir-se a si mesmos grande importância pública e desprezam as homenagens rumorosas. Guardo uma frase de Edi, dita há mais de 30 anos, em Viña del Mar, e da qual não me esqueci mais: "eu não busco a publicidade, busco a glória".

É preciso lembrar-se sempre de que "no princípio era o verbo". Para os outros, as coisas funcionam como no Faust: - no principio era a ação. Os homens de ação precisam da presença de outros para a ajuda à sua impotência criadora. O poeta cria o poema em solidão. É claro que ele espera e deseja que seu poema seja ouvido por outros. Isto não impede que ele deva escrever em solidão, sem pensar nos outros, nem em si próprio. Ele sabe que às vezes os outros só chegam depois de sua morte. Não importa. Isto não quer dizer que o poeta não viva num tempo histórico, numa sociedade histórica. Se essa sociedade não o ouve como devia, tanto pior para ela. Seu testemunho independe dela. Outros tempos e outras pessoas um dia o recolherão.

Mas o poeta sabe que há um pequeno círculo em torno de sua vida presente, de pessoas que ouvem, guardam e veneram sua obra. Aí começa a sua glória: - a glória de saber que só as pessoas eleitas podem estar ao seu lado. E estarão para sempre, per saecula saeculorum. Os falsos escritores, os que perseguem certo tipo de publicidade vã, dizem que a glória que vem tarde já vem fria. Enganam-se: o que se esfria é o fogo fátuo da gloríola efêmera dos fogos de artifício. A glória que custa a chegar, custa a longa viagem de uma estrela, que quando chega ao firmamento, chega para sempre, arde para sempre.

 

GERARDO MELLO MOURÃO é uma figura quase lendária na literatura brasileira. Amigo íntimo de Guignard, de Michel Deguy e de Pablo Neruda, foi quase prêmio Nobel em 79 e é um dos mais respeitados escritores brasileiros no exterior. Seus livros mais famosos são A Invenção do Mar, o Valete de Espadas e a trilogia Os Peãs. Foi este último que levou Ezra Pound a dizer: "em toda minha obra, o que tentei foi escrever a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem o conseguiu foi o poeta de O país dos Mourões". Hoje, com 90 anos, escreve este texto inédito sobre Konstantino Kavafis, a partir de uma correspondência sua publicada em A Invenção do Mar. Para o número de aniversário, a revista Confraria prepara um especial sobre Gerardo, com direito a correspondências e manuscritos inéditos cedidos pelo autor.


 

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