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thereza christina motta


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Séfiros

 


As portas nos roubam segredos.
Estátuas nos guardam sob o olhar milenar.

Os quadros retêm imagens
dos lugares onde passo os dias.
Panos recobrem a aridez dos tijolos,
almofadas roliças e travesseiros brancos,
          flores bordadas em relevo
– geometria impossível
de visões que se sucedem.

As casas pousam sobre a montanha,
à beira de um caminho
          de curvas repetidas.
Um jarro apoia-se na parede
          – uma janela à direita,
uma porta à esquerda.

Torres acima dos tetos
persistem num longo murmúrio
                                        sem arestas.
 

 


Mikonos

 


Ao longe,
as montanhas gastas
          sobre o mar
vermelho da tarde.

Andavas a passos rápidos
para que não te visse?
 



Lindos
 


A cidade se mantém
          em seu ar perfeito
                    onde céu e horizonte
caem com o azul de outra tarde.
O braço recorta o lago.
As casas se avolumam no estreito,
          abrindo outro mar sobre a terra.


 

Atenas

 

Tantas estátuas perderam
                    cabeças e braços.
Ficarão imagens mutiladas
                    daquilo que fomos?
 


 

Hydra
 


As janelas abertas sobre o pátio
          iluminam o jardim
que habitas com teus pensamentos.
Passeias pela varanda
– teu abrigo, mesmo na chuva.

Não há água que, ao cair,
não nos lembre de outros lugares,
                    onde também chovia.
 

 


Khális
 


Há um sofrimento prematuro
nas pálpebras,
          nos olhos semicerrados,
no líquido que escorre sem ruído,
          nas mãos,
          no dorso claro.
As horas são talhadas a frio,
à espera da morte:
outro ouvido que escute o canto.
(Sobre as coisas postas não há sossego.)

Ainda que teça com dedos frágeis,
          o tempo se estende sem retorno
– traços apagados de um outro desenho.
 



Mármara
 

Para Carlos Prudente
 


Entre dois estreitos,
um passado e outro futuro,
                    mar que oculta outro mar adentro,
buscando a outra margem
                    do mesmo oceano intransponível.
Cidades distantes abandonadas,
                    Tiro, Éfeso, Corinto,
passam sob o mesmo arco
                    improvável.
Cordas retêm o navio que oscila,
escotilhas abertas,
velas enfunadas,
o mastro a cortar o céu
: tua partida ainda é um mistério.
 


 

Thíra
 


O oceano te contorna – ilha protegida.
Tuas mãos transformam tudo em movimento
(asas de um vôo ainda não iniciado).
Assim como os poemas
– cordas verticais –
para subirmos e descermos
o abismo.
 

 


Káros
 


A cidade sobre o monte
descortina outra terra
                    onde dorme
após séculos de espera.
Teus navios zarparam
e tudo que procuras
há muito se fez ao mar.
 

 

THEREZA CHRISTINA ROCQUE DA MOTTA é poeta, advogada, editora e tradutora. Publicou Areal (1995), Sabbath (1998), Alba (2001), Chiaroscuro – Poems in the dark (2002), Lilacs/Lilases, em edição bilíngüe (2003) e o pôster-poema Décima lua (1983), entre outros. Traduziu textos de Anne Morrow Lindbergh, John Keats, W.B. Yeats, Lord Byron e Charles Dickens. Organiza, no Rio de Janeiro, o evento Ponte de Versos, junto com Ricardo Ruiz e Gilson Maurity, desde setembro de 2000. Os poemas acima fazem parte de seu próximo livro: Odysseus & O livro de Pandora.


 

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