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ferréz


o plano

 

 


O esquema tá mil grau, meia noite pego o ônibus, mó viagem de rolê prá voltar, o trampo nem cansa muito, o que mais condena o trabalhador é o transporte coletivo. Muita gente no banzão, muitas de maquiagem pesada, mas muitas também com os cadernos no braço, mulher de periferia é guerreira, quero ver achar igual em outro lugar.


O plano vai bem, dois manos de cadeira de rodas no final do Capelinha, um outro de muleta, um cego entra logo depois, essa porra é ou não é uma guerra?


Os pés descalços, sujos como a mente da elite, o plano vai bem, todos resignados, cada um, uma seqüela, chamados desgraçados, nunca tem no bolço o dobro de cinco, nunca passaram na rua da Confluência da Forquilha, e se passaram, pararam, entraram nos apartamentos, fritaram rosbife, prepararam lindos pratos e em casa nem o ovo é esperado, cuidam da segurança dos outros e em casa nem isso sonham Ter.


Não me admira que o plano funcione, os pensamentos são vadios, afinal essa é a soma de tudo, quem? O rei do ponto? Esse tá sossegado só contando o dinheiro, informação? Não! O povo é leigo, não entende, então não complica, o assunto na favela só Casa dos Az`tistas, discutir na favela só se o Corinthians é campeão ou não, nada contra sabe, mas futebol não é arte, futebol é bola e homens correndo. Prá mim num pega nada, desculpa quem gosta disso mas é simples, é a regra da vida em simples lances, eu quero mais, quero regras complicadas, quero traços que tragam uma época que talvez não vivi, mas sinto, quero palavras que gerem vida, desculpa aí meu, mas eu não gosto disso aí, prá mim nunca vogô nada, nunca entendi, nunca participei, só sei que muitos que gostei morreram por isso, mas nunca entendi porque morrer por isso.


O meu povo é assim, vive de paixão, o ideal revolucionário também é pura paixão, muitos amam Lucimares, muitos amam Marias, Josefas, Dorotéias, e na transubstanciação da dor um tiro mata um empresário no posto, o plano funciona.


E quer saber?


NINGUÉM É INOCENTE EM SÃO PAULO.


Somos culpados.


Culpados.


Culpados também.


O mundo em guerra e a revista Época põe o Bam Bam do Big Brother na capa, mas que porra de país é esse?


Ah! É verdade o plano funciona.


Tô no buzão ainda e um maluco me encara, vai se foder, você é meu espelho, não vou quebrar meu reflexo, mas a maioria quebra, faz o que o sistema quer.


Quem gera preconceito é só quem tem poder, um sem o outro não existe, o ônibus balança que só a porra, tenho até desgosto de continuar a escrever, mas comigo o plano não funciona.


Finalmente o ponto, a porta abre bruscamente, desço, todo mundo no pau, o motorista mal espera descer e sai em disparada, ando até em casa, já tá serenando, pizzaria aberta: - Chega aí Ferréz!


Vô não irmão, tenho que resolver algumas coisas, chego em casa, deixo a bolça pego o livro do Dr. Lair Ribeiro, tenho vontade de rasgar, mas vou deixar lá na biblioteca, deve servir prá alguém sei lá, vai saber, tem louco prá tudo né não? Pego o Memórias de um Sobrevivente do Luiz Alberto Mendes, isso é livro de verdade, começo a folhear, decido ir prá casa do André, vou cerrar um café por lá mesmo, um outro, o meu antigo parceiro pipocou, me decepcionou, se entregou por pouca coisa, que se foda então, fica perto de fraco dá fraqueza, subo a rua, chamo, ele aparece e diz que tá indo prá casa do Duda, decidimos ir, chegamos lá, a Dona Gêni já começa a fazer o café, a gente senta no confortável sofá da sala, a Mel vem brincando, que cachorrinha da hora, a Fabiane liga a tv e o plano começa funcionar de novo.

 

 

FERRÉZ é colaborador da revista Caros Amigos e autor de três livros, Fortaleza da Desilusão (1997), Capão Pecado (2000) e Manual Prático do Ódio (2003). É também criador do projeto Literatura Marginal e fundador da 1DASUL. O filme baseado em Manual Prático do Ódio, está em fase de pós-produção.

 


 

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