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roberto alvim


diário de guerra
 

 

 

Antunes Filho é o maior diretor de teatro brasileiro e um dos maiores do mundo. Tem todas as condições possíveis para realizar confortavelmente seu trabalho: uma sede em São Paulo num dos mais bem equipados teatros do Sesc e verbas dignas da União Européia. Preocupado com a formação, criou o CPT (Centro de Pesquisa Teatral), onde mantém um curso para atores disputadíssimo – todo ano se inscrevem cerca de 600 pessoas para apenas 20 vagas. Dirige com seu grupo aproximadamente 1 espetáculo por ano, embora algumas vezes se permita ficar fechado pesquisando, ou viajando com seu repertório por festivais internacionais. Antunes já nos deu obras brilhantes: sua versão de Macunaíma, que se inscreve como um dos maiores espetáculos já realizados no Brasil; seu Vereda da Salvação, chocante e avassalador; um Romeu e Julieta belíssimo, um Macbeth catártico; todas as suas montagens de textos de Nelson Rodrigues, que serviram para ampliar radicalmente nossa compreensão da obra do dramaturgo... Também contribui com suas idéias acerca da arte do ator: criou um método de interpretação que consiste em uma série de complexos exercícios corporais e vocais, que vêm acompanhados de um estudo profundo sobre o Zen e a Física Quântica e Jung, visando criar no homem/ator uma nova perspectiva em relação à vida e à arte. Esse método, que ele proclama ser a síntese para as proposições de Stanislavski e de Brecht (“Ser e Não Ser, eis a solução”), resulta no que ele chama de Nova Teatralidade: uma forma de atuação em que o ator, livre de qualquer ansiedade ou tensão, com uma voz claríssima e uma dicção perfeita dignas das grandes damas do teatro inglês, com um corpo que produz signos o tempo todo e que está com um perfeito equilíbrio de yin e yang em sua qualidade de movimento, é um veículo de cosmogonias, passando ao largo de qualquer clichê ou estereótipo e proporcionando ao espectador uma visão ampla e uma compreensão mítica da vida humana. Esse ator não está preocupado em se emocionar, o que ele quer é a expressão da emoção. Trata-se, portanto, de um desenho, e não de possessão por parte da entidade personagem. Temos aí o Paradoxo do Comediante de Diderot (quem se emociona é a platéia, não o ator), misturado com uma visão espiritual da existência – o mito de Shiva, a deusa que cria e destrói mundos o tempo todo, numa dança que é o próprio movimento do universo em transformação perpétua. Para Antunes, a arte do ator é uma dança de Shiva: criação e destruição de imagens, de emoções, de arquétipos, de mundos, num movimento constante, leve e desapegado de ansiedades ou sofrimentos. Deu pra entender?
 


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Antunes Filho faleceu sexta-feira, dia 9 de setembro, no Teatro Sesc Ginástico, na noite de estréia de sua última criação, Antígona de Sófocles. Apresentou-nos um espetáculo absolutamente morto, com atuações sofríveis, nas quais os atores mais pareciam estar sendo dublados pelos mesmos profissionais que trabalham nos filmes americanos exibidos na Sessão da Tarde. Clichês, estereótipos, tudo que o diretor diz detestar; os dois coros (dos velhos e das bacantes) eram previsíveis em sua movimentação, sem criatividade ou graça, uma caricatura dos grandes coros que Antunes regeu em Macunaíma. Toda a peça, aliás, parece uma caricatura do trabalho de Antunes: comida velha e requentada. Artificial demais, o desenho vocal/corporal se tornou uma armadura de gesso ao redor dos tensos atores; o palco se tornou um museu recheado do mais rasteiro senso comum, e em momento nenhum a peça chegou à platéia, que assistia a tudo sem ser tocada. Trata-se, essa Antígona, de informação velha, que Antunes já nos deu antes e já nos deu muito melhor: o coro já foi melhor, o trabalho de voz já foi melhor, a sinfonia de gritos já foi melhor... A marca do diretor se impõe ostensivamente o tempo todo, e isso surpreende no caso de Antunes, que sempre se disse pronto para comer novas frutas da árvore do conhecimento, que sempre se orgulhou de matar o passado para deixar vir o novo. A musicalidade da peça (a orquestração de sons e silêncios que Antunes faz) tem todo o ranço de um teatro que morre junto com sua figura mais emblemática: o Teatro do século XX.
 


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Pois se no caixão está o corpo de Antunes, com algodão no nariz e tudo, o enterro não é só dele mas sim daquilo que ele representa mais do que ninguém aqui no Brasil: O TEATRO DO SÉCULO XX. Morrem também Gerald Thomas, a idéia de método de interpretação propagada por Grotowski, os grandes diretores italianos do pós-guerra, a vanguarda pós-moderna européia e americana dos anos 80-90, etc, etc... Mortos, todos, mas assombrando como espectros onipresentes; esclerosados, todos, já deram o que tinham que dar e agora só repetem o que já disseram antes – e repetem pior, cansados que estão. É imperioso que nos livremos dessa montanha de panos velhos que nos sufocam e nos impedem de pensar e criar a partir de novas perspectivas, condizentes com nosso tempo e nossa sensibilidade. Porque cada geração tem que descobrir o seu próprio jeito de fazer as coisas. Ou descobrimos o nosso jeito (como esses caras descobriram em suas épocas) ou não valemos nada. Simples assim.
 


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Ameacei fazer uma missa de sétimo dia para Antunes e o Teatro do Século XX na porta do Teatro Sesc Ginástico, mas fui demovido da idéia por amigos. O que me levou a uma reflexão sobre a combatividade hoje. Todos esses caras que admiramos eram extremamente combativos em suas épocas – dentro e fora do palco. Antunes reunia gente pra ir ao teatro com a intenção deliberada de vaiar determinados espetáculos que pra ele representavam um atraso para a cena brasileira. Fora as declarações bombásticas na mídia. Hoje, se eu faço uma manifestação como essa, perderia meu emprego de professor na CAL, perderia a chance de patrocínio no Sesc, e perderia também os amigos. Porque ninguém quer ficar próximo de um encrenqueiro. Quando se levantava uma bandeira de protesto nos anos 70 as pessoas se juntavam para protestar juntas; hoje, quando se levanta uma bandeira de protesto as pessoas se afastam de você. Típico do nosso tempo; a não ser que o inimigo seja muito óbvio (como o Severino Cavalcanti, por exemplo), ninguém quer se envolver. Além do mais, não haveria ódio nenhum na minha cerimônia fúnebre: seria apenas uma brincadeira pacífica, uma forma de levantar a discussão. Mas pelo visto perdemos nossa irresponsabilidade e irreverência, junto com nossa coragem.
 

 

 

Roberto Alvim, 30 anos, é dramaturgo, diretor, ator e professor de História do Teatro na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras). Autor de 11 peças, seus últimos trabalhos no Rio foram: PELECARNESANGUEOSSOS, Todas as Paisagens Possíveis, Qualquer Espécie de Salvação, Às Vezes É Preciso Usar um Punhal para Atravessar o Caminho, Vagina Dentata e Mundo Pânico. Atualmente exerce a função de Diretor Artístico do Teatro Ziembinski.

 


 

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