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mariana waldeck


o dia contido no dia
 

 

 

 

posse
 


Cai a noite, absconsa, crispando-se em colo nu. E como cobra grande vai quebrando ossos, serenamente, até que uma aurora fria corre sem euforia no banquete iniciado de quando não se é amado. Antes a face calha ao perceber que pessoas deixam vãos e não vísceras.
O útimo estalo é plena entrega de quem está cansado de esperar migalhas.
 


 


Conjuntivite no 1005
 

 

A garça percorre
O apagado do tempo
Pinçando
Da escama
O olhar
Aurora absorta

 

 

 

A vela e a viga
 


Vai...


Deságua o insentido das feridas
 

                                            (maramar mal dito)
...
 

Quebra diques desencontros
 

                                            (maredor adentro)
...
 

Espuma algas angústias
                                            (memóriamaremoto)

 

...Vem
absorvo sal
infiltro-me a ti, pedras
tento expelir o si remexido
botes e brisa
e afogo-me nas perdas
bate Coronal à revelia do coral
tudo tão miúdo ao querer
acolher caracol
embolar desencantos
em cantos de rede
sem quinas
opondo grãos
                      a lua
(amiga que não finda)
 




Desccoberta
 


Era no tombar da tarde que o domingo sentava-se à mesa e anunciava o silêncio a todas as paredes da casa.
O filtro transbordando. A pia. O chão.
O quadro compondo a forma do barro desmembrado da criação.
E inesperadamente, a sexta-feira atravessa o domingo. O dia contido no dia.
O tempo perdido no cinza. E a via, da palavra ao entulho dos sonhos.
“O epitáfio” guardado nas sete noites daquela noite. A teoria tornara cena.
E da onde vinham os choros? Do texto?
As jaquetas iguais deixavam se levar pelas escadas. Não havia ornamentos. Nem história. Nem transe. Nada. E ainda assim tudo jazia.
O choro partia de um observador que carregava um epitáfio no peito.
Um amor teria morrido. Não de lá de dentro da tumba, pois que esqueceram de enterrar.
O amor daqui.
Da onde? Do texto, do tempo, da casa?
A repetição repetia a tarefa melancólica da tarde, tornando arte à infiltração do domingo.
Por trás o coelho de “Alice” fica querendo correr com esta história, a rainha quer cortar o texto e Alice escreve para não crescer.
O chapeleiro diz: Desboanoite. E até nunca mais.




Separação

 


– “Um dia eu vou”
O presente era a repetição de um futuro que se conjugava no pretérito.

O tempo se concretizava em engano.
A mãe na quina do sofá, mãos jogadas na coxa, a roupa sem importar.
Sonhar era triste como a cigarra caída.
Os filhos saltaram no cinzeiro para ver a morte, limpando as cinzas das asas.
A mãe continuada. Calada. Os desejos no canto da sala tão forte que criava raízes nas filhas.

Sentir o confuso mal estar da sala aproximava a mãe, mas o passado delimitava as distâncias como um inquisidor.
 




Improvisação


 

O assento sob mim
Desmonta-se
Os outros sentam
E aplaudem


O assento desmonta-se sobre mim
Os outros sentam e aplaudem.

O assento sob os outros
Desmonta-se
O assunto muda
Eu sento
Me escangalho

Acordo, sento
E o assento mais uma vez...

Não há ninguém para me rir.
 


 

 

*
 


Deslizava as incertezas da raiz
O jasmim recluso na memória dedilhava as esparsas boas lembranças
Mas o que transpirava, ruínas em fios de borracha. Quentes, sobrepostos.
Os cabelos se perdiam em tufos procurando trufas a cada entrada do taco.
Calva e corcunda busca. O corpo projetava-se só sucessivo pontilhando as combinações no espaço. Casa, corpo estranho, habitável. A dúvida compassava bem lenta, num tempo desprovido de exatidão: um tempo sem rédeas. “Perdi o sentido, perdi?”
 

 

MARIANA WALDECK faz graduação em Letras na UFRJ. Desde 2001 participa do Fórum de Poesia, no Campus da Praia Vermelha. No encontro “Literatura e Filosofia”, realizado em 2004, seus poemas foram tema de debate na palestra “poesia nova”, apresentados pelo professor Antônio Jardim. Seus poemas já foram interpretados e encenados no CEP 20.000, na Feira do Livro, no Cais do Porto e na República dos Poetas. Esta é sua primeira publicação.


 

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