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fernando bonassi


goleiro cego

 

 

 

Sim. O goleiro cego sou eu. Deveria haver confusão entre os termos substantivos e adjetivos dessa afirmação, mas nem tudo foi reduzido à gramática estruturalista dos formadores de opinião. Muitas coisas acontecem que são indescritíveis, ainda que inquestionáveis... Há aqui, por certo, um fato jornalístico, mas há também um erro, uma ilusão, uma jogada de efeito, uma concentração. O fato que a todos escapa, não é novo. A imprensa sempre esteve à caça de talentos esquecidos e eventos esquisitos como eu, ainda que não exista novidade em minha habilidade. Não sou bom. Nem demais. Não se trata de uma consideração, uma crítica, um comentário. Não me submeto à avaliação. Não sou melhor do que nenhum desses que se estragam em busca de salários e famílias. É no gramado que revelo minha grandeza. Ali se liberta a natureza desse empreendimento onírico. Sou um atleta mítico, ainda que apareça extático, entre o mágico, o exótico e o esotérico mais patético. Assim é o que a muitos se parece; quanto a mim, continuo sem enxergar nada. Há os que se benzem, se ajoelham e rezam. Eu não acredito em Deuses mais do que aqueles que imploram por eles num momento difícil, numa falta, numa penalidade máxima. No mínimo, tenho que estar em minha posição, protegido pela moldura das traves. É ali que pinto e bordo minha obra. Pego tudo. Sem floreios, executo minha arte formalista. Sou perfeito no realismo de minha tarefa. Por sermos o que somos realmente, não deveríamos nos dar explicações. Acontece que não se trata de "dever", mas de esclarecer o incômodo agônico e extasiado daqueles que me observam em ação. Porque sim, eu ajo; ainda que não tome as iniciativas, como cabe aos goleiros responsáveis, já que toda minha ação consiste em esperar manifestar-se o fenômeno de minha dedicação. À diferença da maioria destreinada, posso dizer abertamente que tenho praticamente a certeza do que teoricamente se passa, mesmo sem olhar o que quer que seja. Ter sido castigado com a escuridão seria o preço a pagar pelo dom desse meu conhecimento. Pois é disso que se trata. Estamos falando de eficiência e não de seu contrário. Por outro lado, não posso ser confundido com esses tontos que correm atrás dos gonzos mais do que esferas costuradas em olimpíadas de aleijados paralíticos e cafés com leite. Eu tenho estilo. É tudo escuro até onde eu sinto este sentido. É em tudo o nada, mas há uma tomada de energia que emana dessas bolas que circulam pelos ares. Sinto a decisão do chute, o vento que o tiro traz à frente do tormento de minha pegada. Fico impregnado de atenção, por mais distraído que esteja. É uma espada cravada nas minhas unhas martirizadas. O impacto dessa agressão, no entanto deve ser absorvido sem alarde. Em caso difícil, deverá ser remetido a escanteio, onde o rodeio dos zagueiros há de tontear os atacantes mais vorazes. Todos querem marcar seus tentos. Muitos até que tentam, naufragando em plena área de defesa, chutando enviesado contra as próprias metas estabelecidas em sorteio. Quanto à minha constituição, convém ter a atenção de que sou o goleiro cego, não mudo, ou surdo. Ouço-lhes os ruídos de preparação. Posso, na contramão, montar uma barreira. Tornar-me intransponível às custas de meus companheiros perfilados. Do perigo que se avizinha, conheço o cheiro como se sempre tivesse vivido em promiscuidade ao seu lado. Também pressinto a intenção desses centroavantes esfomeados. Sei que eles querem que eu engula um frango. Dou uma boiada para retirar-lhes a voragem que a vertigem da vitória lhes daria. Posso não ver de onde algo parte, mas tenho certeza de onde vai chegar. Serão derrotados. É apenas aguardar. Conheço seus objetivos. Isso os deixa irritados. Quando se percebem neutralizados pela força da minha constância, debatem-se inutilmente contra essa inevitabilidade, tomando-a por uma espécie de vaidade insolente. Não tenho culpa. Nem desculpa. Descrentes da evidência disso tudo, parecem ter mais interesse nos meus olhos que não podem ver do que naquilo que posso observar de outro modo. De qualquer maneira, eu me pergunto: ser assustador é o que faz um monstro? Sou o que se pode chamar disso sim, pelo que não vejo estampado nos rostos desses coitados, cuja diversão é saber de antemão que vamos empatar ou vencer, que nunca iremos perder e que o sabor do fracasso jamais será absolvido em nossas gargantas... Apenas pego tudo. Não há nada a fazer. Há neste juízo qualquer coisa de escandaloso. Que todos queiram vencer e seja impossível, isso é tolerável. Que uns possam o tempo todo é repreensível, por mais que mereçam ou se esqueçam que a disputa faz parte do jogo. Eu jogo, mas não arrisco. Nem posso. Estou preso à esse estímulo de pegar e não o de tirar a vez de ninguém! Quantas vezes precisei afirmar?! É inútil, impessoal e inexorável. Primeiro era apenas "um caso curioso", mas meu talento excepcional fez com que uns e outros quisessem me estudar. Fui estudado e analisado em tudo o que parecia me reprovar. Incompreensível cientificamente, transformei-me num herói irrepreensível historicamente. O passado e o presente se confundem no meu futuro glorioso. Oferecem-se recompensas escandalosas pra quem for capaz de me superar. "Isso não pode durar!", dizem. Podem estar cansados de suas humanidades. Pode ser inveja. Os mais sabidos duvidam de mim. Como um filósofo maldito, também duvido de toda sabedoria que não ria de si própria. Meus fãs são homens sérios. Deleitariam-se presenciando a minha queda.

 

 

 

FERNANDO BONASSI é roteirista, dramaturgo, cineasta e escritor de diversas obras, entre elas Um Céu de Estrelas; O Amor é Uma Dor Feliz; Declaração Universal do Moleque Invocado e O Menino que se Trancou na Geladeira. É co-roteirista de filmes como Os Matadores; Através da Janela; Castelo Ra Tim Bum; Carandiru e Cazuza. No teatro, destacam-se as montagens de Preso entre Ferragens (dirigida por Eliana Fonseca); Apocalipse 1,11 (em colaboração com o Teatro da Vertigem); "Três Cigarros e a Última Lasanha" (com Renato Borghi e direção de Débora Dubois)  e a encenação do fragmento "Estilhaços de São Paulo", no espetáculo "Megalopolis" do Theater der Klaenge (Sttutgart, Alemanha). No exterior, além de diversos prêmios, possui obras literárias adaptadas para o cinema e textos em antologias na França, Estados Unidos e Alemanha. O romance Subúrbio teve os direitos comprados pelo Deutsches Schauspielhaus de Hamburgo. A adaptação teatral estreou no dia 04 de abril de 1998. Desde 1997 é colunista do jornal Folha de São Paulo. No momento encontra-se escrevendo a minissérie "Carandiru- Outras Histórias", para a direção de Hector Babenco, em co-produção com a Rede Globo de Televisão.

 


 

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