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a via excêntrica | ronaldo ferrito


interlúdio



 

Devemos interromper aqui a Via excêntrica, claro que não definitivamente nem talvez efetivamente, mas pelo que devemos chamar de interlúdio. Isto é, um intervalo especialíssimo que nos faculte partir de algo acontecido durante aqueles momentos de reflexão nos quais não estamos escrevendo, respirando o efeito imediato da produção artística, mas também não deixamos de pensar imersos no envolvimento poético das questões que a obra a ser escrita imperiosamente nos força a viver. Refletia, pois, nessas desoras da escrita, sobre a crítica na sua acepção de uma teoria. Importava pensar por que me era intuitivamente inviável uma teoria como modo de pensamento artístico, ou mesmo de obra literária.

 

Pensava logo no que se ouviu dizer de um filósofo acerca da teoria, que “cada ponto de vista não passa da vista de um ponto”. A frase encerraria, acrescida da obviedade de seu quiasmo, uma crítica irônica sobre uma limitação. Poderíamos em parte concordar com isso facilmente, todavia seria demasiado redutor resolver assim todo o problemático malogro da teoria. A assertiva, mergulhada na sua aparente descoberta, tenciona retirar da teoria a possibilidade de uma abrangência total, uma abrangência da totalidade. Mas, pensada nesses termos, ela não se torna uma notícia nem mesmo para o crítico rigorosamente epistêmico, porque já o sabe há muito de sua própria experiência. A frase perde seu efeito contundente para ser absorvida orgulhosamente pelos teóricos mais aplicados e cautos em suas pesquisas. Nenhum teórico atualmente se diz investigar ou “ver” a totalidade de um objeto, senão de fato apenas um seu ponto. Vemos aqui uma equação entre o descuidado filósofo e os teóricos da crítica, pois ambos referendam a mesma frase estando em lados opostos. 

 

Por um interesse meramente artístico, entremos nós, agora, (que não somos nem teóricos nem filósofos) na procelosa questão. Podemos pensar, de imediato, que para nós o que mais incomoda nessa frase não é o que ela tem de pedantismo ao se achar uma lição de novidade, mas sim que ela permanece a delegar ao mérito da teoria o sucesso de um ponto. Comecemos refletindo acerca do ponto de vista, que se pode significar como perspectiva. Uma perspectiva sempre nos supõe o alcance daquilo que vê a partir de onde se vê. Ela se fecha ou se abre em sua alçada pelo movimento do lugar de onde é lançada, de onde fixa sua origem. Portanto, não podemos a partir de uma perspectiva ver o mesmo que vimos a partir de outra, ainda que fitemos um único ou mesmo ponto em uma totalidade. O ponto supostamente visto está condenado ao ponto de onde se vê. Consecutivamente, o ponto que vemos sob uma única perspectiva também não pode nos assegurar sequer que alcançamos ver um ponto de fato, porque implicaria saber antes se o ponto visto é de fato o ponto de uma totalidade. Alcançá-lo implicaria ter uma visão total. E isso a teoria sabe não possuir. Pois, se não sabe da totalidade a que pertence um ponto, também não pode saber da totalidade de um ponto. O que nos levaria num raciocínio em abismo a negar, outrossim, a possibilidade de certamente se estar vendo um ponto na totalidade de um ponto, e assim até a sua infinitésima parte. O ponto em si mesmo não é visto inteiramente, deixando em oculto seus limites. Isso justamente por ser a teoria apenas uma perspectiva lançada no horizonte - não sendo a perspectiva capaz de dominar o horizonte, é o horizonte que permite que ela se posicione e portanto permite haver também todas as perspectivas, todas as teorias.

 

Se nem mesmo a teoria é determinável enquanto a vista de um ponto, mas somente como um ponto de vista, algo ainda tem de haver e permitir que de algum modo ela surja como tal e também que se possa saber de um ponto. Esse algo parece ser a visão, que permite o ver e o ser visto e estabelece uma relação primeva entre ambos. Antes mesmo de haver o ponto de vista e a vista de um ponto existe, então, a visão. A visão seria, pois, a dinâmica através da qual podemos estar em experiência com a totalidade, já que não a determinamos em nenhum ponto e em nenhuma perspectiva. A teoria, portanto, a princípio, é o abandono dessa experiência de totalidade indefinida, de um não-lugar, para tentar demarcar em um único ponto a sua verdade.

 

Retornando a questão inicial, sobre a crítica e a obra, é a própria visão que age sobre nós e nos permite criar uma obra – e essa é o objeto que todos os tipos de teorias tentam ver em suas perspectivas. Como a obra não se apresta a ser uma perspectiva – já que é a totalidade –, ela parece ser antes o horizonte que a todas permite existir, mas que ao mesmo tempo não se deixa possuir por nenhuma. Podemos pensar a partir disso que a crítica teórica não poderia ser artística, pois não poderia experimentar livremente a totalidade que isso implicaria, e exatamente porque essa só existe enquanto não é reduzida.

 

Conto pois o acontecimento pelo qual me forcei tal reflexão:

     

Pesquisando recentemente alguns escritos antigos para a Via excêntrica, que já se encontra com um ritmo bem mais célere em meus arquivos que o desta coluna – por culpa minha mesmo, devo confessar –, foi-me confiado pela Providência (afirmo sem exageros) um ensinamento anônimo do século xix escrito por um poeta que teria buscado pela vida inteira manter-se, até mesmo quando dormia, em vivência poética; ou seja, queria viver uma experiência poética contínua e perpétua. Sobressaltado com essas palavras sem lastro, pensei numa esquizofrenia radical para esse homem. No entanto, ele ousava narrar ao modo alquímico como havia “conseguido” o feito. Pior um pouco, afirmava que o estado primeiro do poeta é a própria poesia e só posteriormente que ele deixa de viver o estado poético. O que significaria, deduzo, que sua busca seria apenas um retorno à natureza anterior do homem-poeta, quando ele ainda era só poeta (imerso em uma visão sem perspectivas). Li mais: que nesse estado de poesia, toda produção seria um portento poético bem como só se poderia pensar nesse estado de preternatureza  poeticamente. E continuava alvejando ferozmente os críticos:

 

Muitas coisas já foram escritas (e nos foram dadas a conhecer) de modo antecipado acerca disso que buscamos e costumamos chamar de poesia. “escritas de modo antecipado”, porque inúmeras dessas obras recentemente escritas pela maioria dos pregadores contemporâneos preconizam coisas que só poderiam ter sido por eles testemunhadas através da poesia – mas não o foram. E o mesmo ocorre com seus leitores. Podem falar e falam dos atributos da poesia, ou mesmo de como se preparar para ela, de seus frutos, ou meios de observá-la, mas tudo sempre a partir do intelecto lógico e da conclusão de uma razão natural. Falam por um pensamento escolar de coisas que só podem ser experienciadas e aprendidas em sua ação. Por isso, nunca dizem ou são capazes de dizer o que é essa ação, ou mesmo como agir. Ou que buscas ela nos força a aceitar e de como podemos lhe ser gratos. Não falam disso, porque tais explicações são mais difíceis de serem dadas, e exigem mais sua experiência concreta, que todas as suas explicações. Pois, esses críticos consideram inadvertidamente preparações, atributos e meios como elementos responsáveis pela poesia; trocam assim os frutos pela origem. Como se todas essas coisas a que se referem não surgissem da própria ação que as cria e é criada na poesia.

 

Essa tradução de Eduardo Galhardo já nos revela muito mais da experiência artística do que poderíamos dizer pela racionalidade.

 

Não tendo mais nada a dizer sobre o assunto, aviso apenas que no próximo número retomaremos a questão da pedra.

 

 

RONALDO FERRITO é poeta, ensaísta e um dos editores da Confraria. Participou de algumas antologias de contos e poemas, como a Asas e Vôos (Guemanisse, 2006) e publica com freqüência em revistas eletrônicas. A via excêntrica era o título de seu livro inédito de poesia (atualmente Hagiopoética), mas agora tornou-se o título do livro de ensaios que começa a ser preparado aqui.

 


 

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