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augusto de guimaraens


os tigres cravaram as garras no horizonte

 

 

 

cidade

Não existem as cidades,
são nossas viagens que criam roteiros-mapas de superfície luminosa.
As cidades não existem,
só os encontros são reais,
as prolongadas conversas capazes de transformar qualquer lugar em praia deserta ao anoitecer. (Cláudio Willer)



folha branca,
caminho por acordar,
ando de carrossel e vomito nuvem doce.

os aeroportos não cabem na minha tela,
galáxias diárias,
os holofotes lambem as sombras.

cansado de correr pelas maquetes da vida,
carrego meu apartamento nas costas,
a escada se esfacelou nas minhas mãos.

as pontes são minhas,
coelhos azuis,
passei como raio.

tentei penetrar na pele lodosa da cidade, mas tudo que vi foi um monstro adormecido e sorrisos maravilhosos. a criança é verde musgo. por onde passei as mulheres me ofereciam castelos sangrentos tive aqui as arquiteturas mais delicadas dos meus caminhos. passei por todas as paisagens vertiginosas do coelho generoso, insônias turísticas.


por essas ruas como morri.

quando fico assim logo pinto outra cidade,
cuspo alguns relógios que me engasgavam,
só assim sou feliz.
 


alquimia 


noites remendadas no teu cinema mudo,
o mar desmaiado,
as avenidas também são vítimas,
o Lilás é só para iludir.

longe de todos os castelos, cervejas e gasolinas, a densidade média seca a cabeça com um liquidificador: e para que dicionários em um mundo sem sentido?

um poema é sempre o último poema.

as novas ilhas do eletrônico selvagem.
(a lâmina é suave, tem que transbordar, deve transbordar)

devorar palavras como quem devora as ruas.

palavra beco palavra adesivo palavra vidro palavra cura no escuro do trânsito
palavra transe

hoje tuas flores vão morrer de tanto sol,
pensa chuva porque hoje não tem chuva,
pensa chuva porque tuas tranças chovem,
pensa nuvem, pensa chuva porque tua máscara é sol.

Pós-espelhos,
tua sombra desabada,
jogos de esque(cimento),
relâmpagos abortados no dicionário do teu olhar.
Tudo é anterior.

a gente perde a chave de casa, nossos sorrisos parecem farsa,
e é quando nossos sonhos são reais.
e a alquimia, bem...............
a alquimia é tudo que explode a partir daí.


gasolina

 
Sempre desconfiei que a verdadeira profundidade estaria na superfície das coisas.
Walt Whitman bem nos ensinou que seja de treva ou de luz, todo momento é um milagre.

Cavar o céu com as unhas e dormir nas sombras dos prédios,
nas varizes dos edifícios,
na argila dos basculantes,
na metade das janelas,
na solidão dos tetos.

A montagem não explica a imagem,
Os poetas não explicam os sussurros,
Os sussurros não explicam o acaso.

A poesia talvez seja cinema em estado bruto?
A metáfora não seria o desaparecimento e a tela mallarmáica colocaria seu foco na anti-multidão.
O cinema transpassa para a tela as demandas do imaginário poético.
E eu não me engano neste incêndio.
And I’m only happy when it rains.


os ingênuos

mesmo através do turvo e estilhaçado espelho das feras,
mesmo através dos mapas litúrgicos,
mesmo através das igrejas teleguiadas que me peseguem,
qual será o novo desastre?

todo índice é símbolo, tudo é artifício, tudo é caverna.

em todo esse tempo o meu cinema era você.

um dilúvio de cartões postais,
me manda uma mensagem de batom para naufrágio,
sete segundos de radiação, ´
só os ingênuos não viram
esse colírio de óleo diesel,
puro aborto luminoso,
a rainha de sabá já chegou.

uma mulher acaba de parir um peixe
rompendo a escuridão de todos os túneis do metrô.
 

 

 

AUGUSTO DE GUIMARAENS CAVALCANTI poeta, é autor do livro Poemas para se ler ao meio-dia (2006). Cede à confraria esses quatro poemas que farão parte de próximo livro, cujo título temporário é Os tigres cravaram as garras no horizonte.
 


 

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confraria do vento

 

 

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