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miguel piñero


os olhos cegos odeiam o passar do tempo

 

 

 

MIGUEL PIÑERO nasceu em Gurabo, Porto Rico, em 1946, foi dramaturgo, ator, poeta e co-fundador do Nuyorican Poets Cafe, - lugar onde, até hoje, realizam-se saraus, com apresentações teatrais, jazz latino, hip-hop e leituras de contos, evento sem fins lucrativos destinado somente ao propósito da arte. Imigrado com a família para Nova Iorque no início dos anos 50, quando tinha 4 anos, teve de viver com a miséria, Como muitos porto-riquenhos daquela época. Seu pai abandonou a família em 1954 e sua mãe foi forçada a mudar-se para um porão. Aos 11 anos começou a roubar e, detido, foi enviado para o Centro de Detenção Juvenil no Bronx. Lá, conheceu uma gangue chamada “The Dragons”. Dos 13 aos 14 anos, viveu nas ruas. Antes de completar 20 anos já era um viciado em drogas e um criminoso temido.

 
Em 1972, aos 25 anos, foi encarcerado em Sing Sing, Nova Iorque, uma prisão para criminosos de segundo grau. Ali escreveu sua peça Olhos Curtos (
Short Eyes) durante o curso de redação da cadeia. Short Eyes, é uma peça que conta a vida e as relações de amor e morte dos prisioneiros numa cadeia estadual, a peça é um modelo, por exemplo, do seriado americano OZ. Em 1974, a peça foi apresentada no Riverside Church em Manhattan. O empresário e diretor teatral Joseph Papp viu a peça e ficou tão impressionado que a patrocinou para ser apresentada na Broadway. Short eyes recebeu seis Tony Awards, e ganhou o prêmio dos Círculos de Críticos de Nova Iorque e um Obie Award como a “melhor peça do ano”. A peça foi um sucesso na Europa e lançou o nome de Miguel à fama literária. Short Eyes finalmente foi publicada pela editora Hill & Yang.


Uma vez fora da prisão, continuou escrevendo e fez participações em alguns filmes. Em 1970, funda o Nuyorican (New York–Puerto Rican) Poets Cafe com um grupo de artistas, entre eles Miguel Algarian que se tornou um dos seus melhores amigos.


Em 1977, Short Eyes é convertida num filme dramático dirigido por Robert M. Jr.. No filme, Miguel fez o papel de “Go-Go”, um presidiário. Apesar do sucesso, continuou vivendo uma vida dupla. Foi ao mesmo tempo um escritor talentoso que denunciou uma disfunção social e um viciado. Envolveu-se ainda numa relação amorosa com o dramaturgo Reinaldo Rovod.


Miguel escreveu “Miami Vice” (T.V.- 1984), e editou “Nuyorican Poetry: Na Antology of Puerto Rican Words and Feelings” com Miguel Algarin, além de outras peças de teatro e roteiros de cinema.


Miguel Piñero morreu no dia 16 de Junho de 1988 na cidade de Nova Iorque de cirrose. As cinzas do seu corpo foram lançadas na Lower East Side de Manhattan.

 

 

Procurando a causa

Ele estava morto, jamais viveu, ele morreu, morreu procurando a causa porque dizia nunca ter visto a causa. Mas, ele ouviu a causa, ouviu o choro de fome de crianças do gueto, ouviu as advertências de Malcolm, ouviu os tratores construindo novas rotas para novas prisões. Morreu, procurando a causa, procurando UMA causa. Já estava morto, jamais viveu – nos bairros nobres, no centro, nos cruzamentos – seu corpo se encontrava por toda a cidade

procurando a causa crendo que a causa era $75 dólares por sapatos de caimán, crendo que a causa era vender pó branco para crianças negras, crendo que a causa estava numa rosa cigana ou no Whisky ou cantando no parque depois de fumar maconha.

Morreu, procurando a causa, a causa morria procurando ele, a causa morria procurando ele. Queria uma tv a cores e um terno de seda. Queria que a causa viesse como os Mets e arrasasse o campeonato mundial, ele queria, ele queria, ele queria, ele queria querer mais.

Mas ele jamais deu, jamais deu, jamais deu, jamais deu seu amor a seus filhos, jamais deu seu coração para seu povo e jamais deu sua alma para seu povo. Jamais deu sua alma para seu povo porque estava ocupado procurando a causa. Ocupado, ocupado, aperfeiçoando sua voz para cantar o hino nacional como Spiro T. Agnew, ocupado aperfeiçoando sua gíria para que não fossem notados seus defeitos, ocupado aperfeiçoando seu discurso "Viva la policia".

A causa estava em sua fala e a causa estava em sua pele e a causa estava em seu sangue, mas, ele morreu, morreu procurando a causa, Procurando Uma Causa.
Morreu surdo, mudo e cego e morreu e jamais encontrou sua causa porque nunca, vejam, nunca nunca compreendeu que ELE era A CAUSA.


 

O Livro de Gênesis conforme São Miguelito

Antes do começo
Deus criou Deus
No começo
Deus criou os guetos & favelas
e Deus viu que era bom.
Então Deus disse,
“Que haja mais guetos & favelas”
e houve mais guetos & favelas.
Mas para Deus lhe pareceu rude
assim
para decorá-lo
Deus criou a pintura de chumbo e logo
Deus criou os rios de lixo & imundície
para correr com plena graça pelos guetos.
No terceiro dia
porque no segundo Deus estava fora da cidade.
No terceiro dia
Deus escarrou
& Jonas veio descendo por ele
e na sua plena sabedoria
percebeu que estava doente
e que precisava de um conserto
logo Deus
criou os quintais dos guetos
& os becos das favelas
em heroina & cocaína
e
com sua divina sabedoria
Deus criou a hepatite
que gerou o espasmo
que gerou a malária
que gerou a degradação
que gerou o
GENOCIDIO
e Deus percebeu que era bom
de fato Deus notou que poderia estar melhor
mas ele quis deixar como estava.
No quarto dia
Deus passeava pelo Harlem num táxi cigano
quando criou o povo
e criou os seres em proporção étnica
mas viu que estavam sós & com fome
e do seu ilustre reto
ele criou um companheiro para o povo
e ele o chamou
capitalismo
que gerou o racismo
que gerou a exploração
que gerou o mal chauvinismo
que gerou o machismo
que gerou o imperialismo
que gerou o colonialismo
que gerou Wall Street
que gerou as guerras ao estrangeiro
e Deus sabia
e Deus viu
e Deus sentiu que estava muito bom
e Deus disse
VAYAAAAAAA
No quinto dia
o povo ajoelhou-se
o povo rogou
o povo implorou
e se manifestou numa petição
para o editor
para saber por quê? POR QUÊ? POR QUÊ? qué pasa babyyyyy?????
e Deus disse
“Meus camaradas
permitam-me dizer-lhes uma coisa perfeitamente clara
de acordo com este provérbio:
SEM.............COMENTÁRIOS!”
mas no sexto dia Deus disse para o povo
ele disse ...” POVO!
os guetos & as favelas
& todas as outras grandes coisas que criei
dominarão
e logo
ele ordenou os guetos & favelas
e todas as outras grandes coisas que ele criou
para se multiplicarem
e eles se multiplicaram
No sétimo dia Deus estava cansado
portanto ele voltou cansado
cobrando as horas extras a serem pagas
incluindo as férias
Mas antes de subir no 747
para bronzear-se nas praias de Porto Rico
Ele notou que seu principal homem, Satanás
plantava árvores da consciência
ao redor dos guetos do Éden
então Deus convocou uma nova conferência
no estado do céu
em cadeia nacional de costa a costa
e Deus disse ao povo
ACALMAI-OS
e o povo permaneceu calmo
e o povo continuou calmo
e o povo estava calmo
e o povo ficou calmo
e Deus disse
Vaya...
 

 

Matar, Matar, Matar

Despedido semana passada cara estava louco. Eu não quero dizer nervoso
Ou puto eu estava louco. Eu quis agarrar o chefe
E o encarregado pelos seus pescoços vermelhos e matar, matar, matar.

Então eu pulei no elevador e esbarrei com meu
Assistente social que me disse que ele estava me tirando
Da lista porque eu estava trabalhando, e que vocês pessoas
acham que podem escapar  impune de tudo. Eu queria
acabar com ele pela sua gravata de U$ 50,00, e matar, matar, matar.

Então eu “cruzei a grama” com outros e o homem
Me deu um ticket e disse que aquilo era para servir de exemplo
Para os outros 60. Eu olhei para o distintivo dele e quis matar, matar, matar.
Mas eu olhei para a arma dele também

Então eu perdi o expresso e peguei o local, e fui pra casa de mansinho passando por Mikey o verdureiro. Tony o Cara da loja de bebidas, o numberman , e Louie o agiota,
E todos os outros eternos coletores de contas os quais eu apenas quis
Matar, matar, matar.

Eu esbarrei com o Rev. Willy, o reverendo que me disse
Que a caixa dos pobres era para colocarmos dinheiro e não para tirar
Como eu fiz no domingo, então falando como se eu fosse um homem rico
Agindo como se eu fosse um homem pobre. Eu encontrei Mr. Goldman, o cara do serviço social que disse que eu não estava subdesenvolvido o suficiente, ou culturalmente privado o bastante para ser colocado nos projetos, e alem disso eu estava trabalhando, e
Eu não era carente. Eu queria pegá-lo e suas
intermináveis pastas legais e matar, matar, matar.


Então eu enfiei a chave na porta e pisei na
merda de Blackie o cachorro, e limpei na fralda do Júnior
E a fralda já estava cheia de merda. Então enquanto
Relaxava disse a Gloria toda a merda pela qual havia passado
E ela disse que eu estava falando merda, eu disse que não estava falando merda, ela disse que eu não era merda, eu disse que eu não queria ouvir merda nenhuma, ela disse que eu ainda não era
merda...

Então a peguei pela porra do pescoço e atirei o rabo dela
Pela mesa da cozinha e ela saiu voando pela mesinha da sala e
Sobre o resto da mobília ainda não paga e pousando sobre a cama muito usada
E eu pulei no ar com um grito de guerra de um guerreiro Apache
e eu matei, matei, matei...
Todos os meus problemas.
 

 

Sonhos vendidos em bares

sonhei ser um poeta
&
escrevia canções de marinheiro
palavras fortes & poderosas colidindo
nas muralhas de aço & concreto
erguidas em mentes fracas
&
adormecidas
substituindo um hobby de juntar papel doce
para engravidar jovens de pensamentos estéreis

eu sonhei que era poeta
as palavras brilham douradas e
começam uma nova febre de ouro
nos bares onde nossos poemas e canções são cantados
mas
a luz do sol entra pelas venezianas
e os olhos cegos odeiam o passar do tempo

relógios suando
jurando escravos
da última moeda
uma assombrosa viagem de uma moeda

o suor insulta
o orgulho do poeta
palavras param no vermelho
e avançam no verde

sonhos de poeta
que terminam numa fábrica
um em um milhão despercebidos
compram sonhos vendidos em bares...
 

 

 

ANDERSON FONSECA ensaísta e poeta, vem traduzindo os poemas de Miguel Piñero há um ano, a revista Confraria é a primeira a publicar todos os poemas traduzidos até o momento em português. e-mail: luizdovalefon@hotmail.com

 


 

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confraria do vento

 

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