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josé ortega y gasset


aula VII - os dados do universo

 

 

Importa-nos muito, dizia eu, distinguir entre estas três classes de coisas: as que acaso existem no Universo, conheçamo-las ou não; as que erroneamente cremos que existem mas, na verdade, não existem; e por fim, aquelas das quais podemos estar seguros que existem. Essas últimas são as que estão no Universo e estão em nosso conhecimento. Todavia, nesta última classe, precisamos estabelecer ainda uma nova divisão – que noutro dia me poupei dizer. A segurança que podemos ter da existência de um objeto no Universo é de dois tipos: umas vezes afirmamos que o objeto existe fundando-nos numa racionalidade, numa prova, numa firme e justificada inferência; assim, onde vemos fumaça inferimos que há fogo, ainda que não vejamos o fogo; quando vemos no tronco de uma árvore figuras lineares, de certa forma inferimos que há, que houve por ali ou um homem ou, ao menos, o misterioso inseto que em sua marcha sobre a árvore deixa inscritas figuras parecidas com as letras de imprensa e por isso é chamado de bastrichus typographus. Essa segurança por inferência, por prova e mediante racionalizações chega a afirmar a existência de um objeto, mas partindo de outra segurança prévia que é a da existência de outro objeto. Assim, afirmar a existência do fogo supõe que tenhamos visto fumaça. Portanto, para afirmar por inferência ou prova a existência de certos objetos, há que se partir de uma segurança mais radical e primária da existência de outros. Um tipo de segurança que não necessita de provas nem inferência. Existem então coisas cuja existência podemos e necessitamos provar – mas isso supõe também que existam coisas cuja existência não podemos nem necessitamos provar, porque se provam por si mesmas. Só se pode provar aquilo de que, com sentido, se pode duvidar – porém o que não tolera a dúvida nem necessita nem permite a prova.

Essas coisas cuja existência é indubitável, que rechaçam toda dúvida possível, que a aniquilam e lhe tiram o sentido, essas coisas à prova de bomba crítica são os dados do Universo. Repito, pois: tais dados não são os únicos que existem no Universo, nem sequer os únicos que seguramente existem, senão que são os únicos que indubitavelmente existem, cuja existência se funda numa segurança especialíssima, numa segurança de aspecto indubitável, diríamos, na arqui-segurança.

Esses dados do Universo vamos agora buscar.

Recordo ter lido isto, faz anos, num poeta contemporâneo e compatriota nosso, Juan Ramón Jiménez:

O jardim tem uma fonte
E a fonte uma quimera
E a quimera um amante
Que se morre de tristeza.


De onde resulta que no mundo onde há jardins, há também quimeras e que as há capazes, nada menos, de pôr nas últimas um poeta transeunte. Se não as há, como é que falamos delas e as distinguimos dos demais seres e definimos sua contextura e até a retratamos e esculpimos nas fontes pulsantes de nossos jardins? E como a quimera é somente representante de toda uma forma que lhe é afim, diríamos que há também centauros e tritões, grifos, egipãs, unicórnios, pégasos e enervados minotauros. Entretanto, de pronto – talvez demasiadamente de pronto – resolvemos a quimérica questão ao dizer que se trata de uma comunidade fantasmagórica, que essa não há no Universo ou realmente, senão só em nossa fantasia ou imaginariamente. Deste modo, retiramos a quimera do jardim real onde pretendia existir junto aos cisnes e flertar com os poetas, e a metemos dentro de uma mente, de uma alma, de uma psique. Nesta nos parece termos achado o sítio próprio e suficiente onde depositar o difícil fardo da quimera e do prodigioso rebanho restante. Tomamos tão prontamente essa resolução, porque ela oferece, com efeito, à existência da quimera dúvidas tão óbvias (é tão pouco provável sua realidade) que não vale a pena por seu caso maiores meditações – ainda que nos fique um obscuro ressentimento lá no fundo do espírito, ressentimento que agora, uma vez enumerado, apagarei em seguida da vossa mente, porque não deve hoje estorvar-nos, nem afeta seriamente o que hoje discutimos. O ressentimento se parece sobremaneira ao que há muitos, muitos anos propunha eu em defesa de Dom Quixote. Bem, ríamos-nos porque Dom Quixote toma os moinhos por gigantes! Bem, Dom Quixote não devia ver um gigante onde via um moinho! Entretanto, por que o homem conhece ou sabe de gigantes? Onde há ou houve gigantes? Mas se não os há nem houve, resulta que não Dom Quixote, senão o homem, a espécie humana, descobriu um gigante onde não o havia – deve se dizer que foi num momento autêntico Dom Quixote, quimérico Dom Quixote. E com efeito, durante milênios, para o homem o Universo se compunha primordialmente de gigantes e quimeras: eram o mais real que existia, o que governava sua vida. Como foi, como é isso possível? Eis aqui o ressentimento que deixo flutuando no vento da curiosidade – porém que, repito, não afeta a nossa questão. Outro ressentimento ainda mais grave haveria de acrescentar a esse, mas também podemos silenciá-lo, porque agora não discutimos se há ou pode haver quimeras; o que nos interessa é se as há indubitavelmente, e como não oferece dificuldade alguma duvidar de que existem, não nos servem de dados radicais para o Universo.

Mais grave é o fato de que o físico nos assegure que no Universo há forças, átomos, elétrons. Os há realmente e sem dúvida? Primeiramente, ouvimos os físicos mesmos disputar entre si sobre sua existência; isso indica que é, pelo menos, possível duvidar dela. Mas ainda que os físicos chegassem a um acordo e em unânime falange nos quisessem fazer crer na existência real de forças que não vemos, de átomos e elétrons invisíveis, nós lhes oporíamos a seguinte reflexão: os átomos são objetos cuja existência, ainda que seja efetiva, nos aparece somente ao cabo de todo uma teoria. Para que seja verdade a existência dos átomos é preciso antes que seja verdade a teoria física inteira. E a teoria física, ainda que seja verdade, é uma verdade problemática, que consiste e se funda numa ampla série de razões, que implica, pois, a necessidade de ser provada. Portanto, não é uma verdade primária, autóctone, senão, no melhor dos casos, uma verdade derivada, inferida. O que nos leva a dizer coisa similar ao que dissemos da quimera, que somente há na imaginação, a saber: que é duvidoso que haja átomos realmente; a princípio, somente os há na teoria, no pensamento dos físicos. Os átomos são, a princípio, a quimera da física, e como os poetas imaginam a quimera com garras, lord Kelvin atribuía aos átomos ganchos e pinças.

Os átomos tampouco são existências indubitáveis, não são dados do Universo.
 

 

Traduzido por Ronaldo Ferrito

 

JOSÉ ORTEGA Y GASSET nasceu em Madrid em 1883 e morreu na mesma cidade em 1955. Foi um dos maiores pensadores contemporâneos de  língua espanhola. Também atuou como ativista político e como jornalista. Fundou a revista Occidente, na qual foram traduzidos para o espanhol filósofos contemporâneos seus como Husserl, Spengler e Russel. Sua obra crítica é mundialmente conhecida, embora seja majoritariamente constituída de palestras e aulas. Como filósofo, além de ocupar cátedras de importantes universidades européias, viveu forte insatisfação com as posturas filosóficas de seu tempo, o que o levou a fundar o método investigativo a que chamava de raciovitalismo.

 


 

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