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antônio dutra


place monge
 

 

 

a Claude Simon


 

Estendeu a folha sobre a mesa, observando as ripas brancas que separavam os vidros, formando o quadriculado que apreendia a paisagem, a praça, os carros estacionados, como uma tela, interrompida pela ondulação alva da cortina. Pôs os óculos, sentindo como que congelados os dedos apesar do sol; esfregou as mãos, escolheu uma das duas canetas postas ao lado do papel à direita. A azul, stylo-feutre, pensou consigo, o cheiro da relva invadiu o ambiente, tomando a sala, espalhando o odor de mata, pastoso, de grama fria, percebendo o vapor saindo dos lábios e a base dos sapatos e a da calça absorvendo a umidade, vendo que estava de novo diante da paisagem verde, aparentemente intocada apesar de séculos de conflito, de europeus matando europeus, quando o continente era quase uma abstração, as árvores dando ao conjunto o aspecto espesso, impenetrável, desafiando a sobrevivência, se ao menos soubesse teria se preparado, se soubesse, se tivesse ao menos por volta de setenta anos, poderia se curvar com mais rapidez em busca de alimento, ou mesmo se fosse preciso jogar-se no chão em caso de bomba, pego de surpresa, mas depois dos oitenta... caminhou um pouco até que sentiu ofuscar a vista, desfazendo a planície, o raio de sol entrando pela janela, levou a mão à altura das sobrancelhas, percebendo o leve mover da janela do prédio vizinho, agindo involuntariamente como um espelho; observou a folha de papel, datou-a no canto esquerdo 6 de julho de 2005, notando o maço de cigarro ainda intocado, o reflexo de luz, ajeitou-se na cadeira, deixando apenas que a faixa luminosa dividisse a página, a margem superior criava um pequeno triângulo escuro, e a maior parte da folha escura também, apesar da margem direita do papel não completar o formato do triângulo maior. Escrever; rascunhou frases minúsculas prontas a serem retrabalhadas, quando o sol atingiu o braço, mostrando pequenos traços sobre a pele, e a dança dourada da poeira, luminosa agora, pequenos formatos irregulares, como microfios ascendentes, até que o trote do cavalo vindo do outro cômodo da casa, apesar do quinto andar, olhou pela porta aberta vendo a pata, a perna vermelha-acaju, escura, reconheceu-a e então o grupo de cavalheiros transportando-o de novo, prestes a passar à sua frente, ofegantes, curvados, quase abraçados aos animais enquanto fugiam em trio, o estrondo reduzindo à dupla, e o outro caído, e o morrer e a possibilidade real, e o colapso, dor do cavalo, e o cavaleiro desacordado ou inteiro mas sem espírito, vida, e todas essas palavras que ninguém lembra quando em risco, não como das outras vezes, sentindo a proximidade, o perigo, como uma premonição ingrata, o fim, e a mente repetindo para si escapar, escapar. Pela primeira vez a parelha de cavaleiros vista pelo lado de fora, notando o jovem colado ao corpo do cavalo, a semelhança, tentando reter aqueles olhos, até que se reclina, olha para trás e vê primeiro no outro cômodo, apeando, o passar da perna, nota o coturno e o homem desce, enquadrado pelo batente, ao lado do busto (o conjunto cabeça e pescoço) do cavalo, segurando as rédeas, a disposição da porta, do homem e cavalo improvisando a composição como para uma tela; os olhos claros, os cabelos precocemente esparsos lhe soaram familiares, ruivos, o rosto seguro, apesar da relativa pouca idade, o jeito de acalmar o animal depois do relincho tirou qualquer dúvida. Hesitava se deveria caminhar até o outro, fazer a montaria e voltar a sentir a cada passo as costelas sob a sela, ou apenas acompanhá-los pelas escadas, sem calcular como proceder. O jovem nada disse, mostrando os olhos perscrutadores. Entendeu o recado, o jato de ar saindo pelas narinas do animal, e o movimento de novo do pescoço para cima, admirando a crina negra reluzente. Iria se levantar, quis escrever, lembrou da falta da assinatura. Nunca como imaginara, não haveria memória; observou a concha de Santiago na parte superior da mesa, colada à janela, no lado contrário do abajur, o maço de cigarros e o tempo parecia bom. Para esse momento não usaria a caneta habitual, pegou a caneta-tinteiro, escreveu o C acompanhado dos três triângulos de base aberta, formando uma única linha e o ponto final. Tirou os óculos, afastou a cadeira, levantou, repondo-a no lugar enquanto tremulava a alvura da cortina, em seguida caminhou com os pés nonagenários até o jovem, se entreolharam, e a expressão surgia natural quase um meio sorriso, ajeitou o casaco claro de lã, azul, tocou o rapaz no braço, lado a lado, nada mais a guardar, iriam descer.


 

 

 

ANTÔNIO DUTRA é carioca, nascido em 1974. Formou-se em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2002 teve seu texto "o papel do livro na cultura brasileira" publicado em antologia com apoio da Academia Brasileira de Letras. No ano seguinte iniciou sua colaboração com o site Paralelos, atualmente transformado em blog associado ao jornal O Globo. Em 2004 foi contemplado com a bolsa de criação literária na Festa Literária de Paraty, cujo resultado foi o romance (inédito) Matacavalos. Escreveu para a imprensa e em 2008 foi o vencedor do VI prêmio Jovem Literatura Latino-Americana, o que permitiu que seu romance Dias de Faulkner fosse publicado no Brasil e na França, país onde foi residente pela Maison d'écrivains étrangers et traducteurs de Saint-Nazaire (M.e.e.t), que publicou ainda seu texto "O tempo de Antes" na revista bilíngüe Meeting – L'Histoire ou la Géographie.


 

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