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marcus motta


alguns cacos - o poema Opiário

 



Nessa coluna deixo imprópria a sua apresentação. Quero apenas lançar alguns estilhaços ao alcance dos olhos do leitor. Isso é feito para que, no mínimo, se volte a ler com certo “descuido” os versos Álvaro de Campos (a falta de conectivo é proposital, buscando evidenciar a força de uma assinatura que é um verso). Dessa maneira, considero que a batalha, na qual me sinto envolvido, transpareça e mostre algum grau de importância. Falo de alguma coisa como certa autonomia do poema e da independência da leitura breve como equivalência aquele estado da arte. Sei que isso parecerá sempre descabido, quanto mais sabendo de tantas crenças que afirmam as informações como conhecimento e, ao mesmo tempo, certa indisposição para, pelo menos, pensar na possibilidade da literatura ser uma forma de saber, tão rigoroso como qualquer outro. Assim, vamos.
 

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Quando se lê o poema “Opiário” é respeitável admitir que a sua voz cumpra o destino da batalha. Os versos Álvaro de Campos sabotam, em despedidas, a poesia por acuidade da prosa — assim como o mundanismo do ópio acentua a anomalia de estar sempre em viagem.
 

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Os primeiros versos do “Opiário” arranjam o paradoxo no qual se encontra a melhor narcose da tragédia na modernidade artística. Fala-se, aqui, daquele tipo de tragédia que se entrega ao cômico a partir de um sublime decaído e ordinário como o uso de ópio — é antes do ópio que a minha’ alma é doente./ Sentir a vida convalesce e estiola/ E eu vou buscar ao ópio que consola/ Um Oriente ao oriente do Oriente.
 

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Um Oriente ao oriente do Oriente — este verso Álvaro de Campos cumpre a própria ordinariedade da situação de se estar sempre no mesmo lugar; na clausura de um eu e em constante viagem. A determinação de um oriente além do próprio afirma o lugar no qual se nasce. Isso quer dizer: nada nasce, inicia, encontra sua condição primitiva sem os olhos que se abrem após uma boa dose da pergunta: onde me encontro?
 

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Deve se evitar ler o poema “Opiário” tentando considerar o mais profundo como algo a ser encontrado, estabelecendo os versos no imediato de um auxílio para quem se sente em perigo ao navegar neles. O mais profundo do poema só se dá na superfície da “onda”, caso já se esteja pensando na acidez do humor nos versos — quando se pensa apenas estar pensando sobre isso na murada de um navio, atravessando o canal de Suez. Quem pensou já fala, isso quer dizer: os versos Álvaro de Campos consubstanciam a idéia de que quem pensa não está pronto e nem alcança seu fim quando fala. Ou seja: só quem pensou, fala já do começo e encontra as evidências humorísticas de que toda a vida é um navio a buscar porto e que os canais, a ligar oceanos, levam ao mesmo lugar: a morte é certa/tenho pensado nisto muitas vezes.
 

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É preciso aprender que a expectativa de vida é uma esteira que a gente enrola e deixa de ser bela — chame a isso de Oriente. Os versos Álvaro de Campos expõem o perigo de parecer que o pensamento circula em torno de si atraído por um turbilhão vazio, maelstron, sem fundo e sem meta. É por isso que é necessário sustentar a opiofagia da forma para doar ao pensamento a mesma febre do sentimento para que ele encontre matéria fantasma e nela soe a sensação: Pertenço a um gênero de portugueses/ Que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem trabalho.(..)
 

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É importante perceber que o “Opiário” declina o moderno como o originário. Essa declinação impede que haja apenas uma inversão entre os termos; ou seja: se a viagem à Índia é o originário do moderno, isso acentua que o seu traço fundamental, após a primeira viagem, é o encobrimento, acentuado pelo canal de Suez, que talvez nada mais seja do que esta modernidade artística dos versos Álvaro de Campos: eu acho que não vale a pena ter/ Ido ao Oriente e visto a Índia e a China./ A terra é semelhante e pequenina/ E há só uma maneira de viver.
 

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Há um caráter morfológico da palavra ópio no respectivo poema; contrária a qualquer possibilidade gramatical, cunhando o seu exagero. Assim que se ouve a palavra já sabemos da opiofagia em andamento. Isso se traduz na ocorrência da viagem que se passa no fragrante que exala o sentido que pode ter. Como o poema, porém, não esconde o uso do ópio, a circunstância de substantivo aclara que seu delírio é a posição verbal de sua maresia. A palavra ópio é a palavra do tempo do poema, o verbo de todos os versos Álvaro de Campos que nomeiam a oceânica circunstância: a minha vida mude-a Deus ou finde-a...
 

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A situação dos fatos no “Opiário” expressa a temível palavrinha é. Ela estende sua presença e faz compreender a confissão dos versos Álvaro de Campos. Quando isso se mostra, a nuvem do esquecimento ativa-se e os acontecimentos mais simples denunciam a força de sua estranheza, exigindo um vagar excitadíssimo: caio no ópio por força. Lá querer/ Que eu leve a limpo uma vida destas/ Não se pode exigir./ Almas honestas/ Com horas para dormir e comer,(...) Que um raio as parta! E isto é afinal é inveja./ Porque estes nervos são a minha morte./ Não haver navios que me transporte/ Para onde eu nada queira que o não veja!
 

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Na oportunidade de ler o “Opiário”, autobiografados por uma confissão forasteira a nós, a representação do tempo enjoa, intoxicando-se do antes e do depois sem dar qualquer atenção a qualquer um deles. A maresia do tempo inibe a história e, portanto, apresenta um modo de envio, de antecipação e de destino: um inútil./ Mas é tão justo sê-lo!/ Pudesse a gente desprezar os outros/ E, ainda que co’ os cotovelos rotos/ Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!
 

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Há no “Opiário” um vestígio da épica, cuja grande aspiração que a caracteriza está cambaleante. Cambaleando, a épica cumpre no poema o caráter artístico que não almeja a energia, nem o movimento; mas, o repouso da narcose e a formação imaginativa do desvairo. O tom fundamental dos versos Álvaro de Campos apresentam o declínio e o devir do momento opiofágico. Esse momento, porém, só o é, por que consubstancia o que subsiste da viagem à Índia na desagregação histórica. Nesse ambiente, os versos só podem saborear a acidez do humor. A viagem é agora, no poema, algo como: ando expiando um crime numa mala,/ Que um avô meu cometeu por requinte./ Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,/ E caí no ópio como numa vala.
 

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Todos sabem que a poesia mais elevada é aquela em que o não poético se torna poema. No caso do “Opiário” isso se dá de maneira bastante singular. Isso quer dizer: só há o altivo no instante da queda, quanto ao não poético, ele está consolidado na inclinação do vício, cujo plano sensível e o tratamento metafórico se deixa tratar com o eco destes versos: fumo. Canso. Ah uma terra enfim,/ Muito a leste não fosse a oeste já!/ Pra que fui visitar a Índia que há/ Se não há Índia senão a alma em mim?
 

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Se “Os Lusíadas” só podem aparecer, culturalmente, como uma pausa infinita na História, e se isso prescreve uma sensação bela e abençoada da viagem à Índia, o “Opiário” é, por aversão, uma anedota lutuosa sobre a contemporaneidade da herança. Assim, os versos Álvaro de Campos cumprem o acontecimento fundador como algo completamente repleto de agoras. Isso quer dizer: os versos do “Opiário” não querem saber de nada sobre a aventura apreendida nos versos camonianos e, por isso, não pretendem atingir um grau de hipertrofia que chega a decompor o real, como é o caso de “Os Lusíadas”. De fato, a melhor posição da acidez do humor para com “poema maior” são os seguintes versos Álvaro de Campos: deixe-me estar aqui, nesta cadeira,/ Até virem meter-me no caixão./ Nasci para mandarim de condição,/ Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.


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O “Opiário” é uma leitura inscrita, assim como indica a modernidade poética. Desse jeito, a metáfora da escrita, a leitura, não é afetada pela significação. Isso se dá no imediato da interrupção incitada pelos versos Álvaro de Campos — na medida em que os versos indicam um ponto imediatamente anterior ao extravasamento das emoções, no qual se perdem sempre em prosa. É isso, portanto, que gera o fundamento da tristeza acoplada à acidez do humor, cujos versos correspondentes são a grave circunstância de um descuido de leitura que teremos que aprender: não posso estar em parte alguma./ A minha Pátria é onde não estou./ Sou doente e fraco./ O comissário de bordo é um velhaco./ Viu-me co’ a sueca... e o resto ele advinha.
 


MARCUS MOTTA é escritor e professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde atua no programa de pós-graduação em literatura portuguesa e em história da arte. Concluiu, em 2001, o pós-doutorado na Universidade Lusíada em Teoria da Arte. É autor de Desempenho da leitura - sete ensaios de literatura portuguesa (7Letras, 2004) e Antônio Vieira - infalível naufrágio (Editora FGV, 2001), entre outros. Dedica-se, principalmente, a duas linhas de pesquisa: Arte Contemporânea e Patrimônio Cultural; e A questão de artisticidade na arte de Fernando Pessoa: perfeição abstrata e cartografia heteronímica.
 


 

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