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paloma vidal


o retorno da viagem em Del cielo a casa

 



Hebe Uhart, escritora argentina, professora de filosofia, nascida em 1936 em Moreno, província de Buenos Aires, vem publicando quase secretamente desde os anos 60, em editoras menores, livros que reúnem contos, relatos de viagens, crônicas, misturando freqüentemente esses gêneros que o mercado editorial argentino tem relegado a um segundo plano em favor do romance. Em 2003, publicou Del cielo a casa, coletânea de contos em que predominam histórias de viagens. “Se esperaria”, diz Martín Kohan num comentário sobre o livro, “a seqüência característica: viajar, viver, contar. Mas esses viajantes viajam esperando voltar”. Assim, por exemplo, o holandês errante do último conto, que “não sabia aonde ir” e, depois de uma breve escala em Buenos Aires, acaba desembarcando num povoado com 300 habitantes da pampa argentina, se pergunta no momento de partir, instado a retornar a esse solitário paradeiro, “como voltar de onde nunca fui embora”. A viagem desse e de outros personagens de Del cielo a casa é sempre dispersa, mais ou menos desmotivada, antes uma suspensão involuntária do que um deslocamento decidido, daí que eles acabem se perguntando em algum momento: “O que estou fazendo aqui?”
 

No conto que dá nome ao livro a narradora viaja para Roma. “Na realidade, a gente viaja para ver se são verdadeiros o Coliseu, o Vesúvio e o Papa em sua varanda”, ela começa dizendo. O olhar turístico vai sendo desmontado sem que se tome uma distância absoluta dele, o que se manifesta no uso de um “a gente” no qual a narradora se inclui. Ela é uma turista. Foi a Roma para ver os seus lugares-comuns, como qualquer um nessa condição. Essa aparente ingenuidade é algo muito próprio dos narradores de Uhart, que se afastam deliberadamente de qualquer intelectualismo para assim realizar alguns deslocamentos em relação tanto ao olhar do senso-comum quanto ao do conhecedor. Diante do Coliseu, a narradora sente que a história a “abruma” e seu olhar então se desloca para “detalhes absurdos”, como por exemplo a loja “Euroclero”, espécie de supermercado em que religiosos do mundo todo compram seus objetos sagrados. Vai sendo gerado desse modo um olhar conflitado, informado e ao mesmo tempo incauto, estrangeiro e ao mesmo tempo assimilado, que se imagina transformando a terra estrangeira na sua própria casa, mas por sua vez afirma que “a gente não viaja para estar como Pedro por sua casa, pois para isso a gente fica no seu bairro”.
 

Nesse momento há um corte e na cena seguinte estamos no aeroporto. A mente finalmente descansa dos estímulos contraditórios. Prepara-se o retorno. No avião, a narradora se senta ao lado de uma moça argentina que imigrou para a Itália. Seu marido e ela estão voltando para visitar a mãe e levam de presente uma cadelinha que viaja sob o assento do marido. Do “a gente” deslocado da primeira parte passamos a uma primeira pessoa mediada pela narradora: “Sim, sim, falava pelo telefone com sua mãe uma vez por semana”. Mais uma vez, proximidade e distanciamento. A simplicidade desse casal é a outra face da viagem: não mais a vontade de conhecer do estrangeiro, mas a necessidade de se adaptar do imigrante. “Sim, sim, tinha sentido muita saudade na primeira semana; mas via as novelas italianas, porque lhe deram uma casinha, uma televisão e uma motoneta para ir fazer compras na cidade”. A breve intimidade com essa moça está condensada na cena prosaica em que alimentam a cadelinha, sentada no colo da narradora. As duas se sentem em casa, embora ainda estejam no ar. Essa sensação é antecipada quando a narradora diz que poderia ficar morando em Roma, pois já se acostumou a tomar um café na Marcellina, a estação anterior à terminal de Nápoles. Desde o título, na verdade, anuncia-se a possibilidade de estar em casa, que não se realiza no conto, mas determina seu horizonte. Como, de resto, determina o horizonte do livro: a viagem tem sempre um retorno que lhe extrai a importância, relegando-a possivelmente ao esquecimento.
 

Também no conto “Una escritora de la capital” a história se suspende no momento do retorno. “O mundo era como devia ser” é a frase que remata o texto, depois do encontro da protagonista com um rapaz que lhe dá a mão “com ar de quem não quer nada”, fórmula que bem poderia servir para descrever todos os personagens de Uhart, que viajam sem esperar nada da viagem. Eva, “moderna demais e antiga demais ao mesmo tempo”, vai para uma cidade do interior para dar uma palestra. Ao chegar no hotel, diante da mesmice da paisagem, tem um “ataque de desolação”. “Para além das casas, pampa e pampa, a mesma que vira pelo caminho e por mais que quisesse estudá-la, não oferecia nenhuma novidade”. O sentimento de inadequação se prolonga pelo conto, no contraste entre a cidade como “lugar da liberdade” e o aprisionamento nessa paisagem desolada. Necessariamente num dado momento a personagem se pergunta: “O que eu estou fazendo aqui?” Não interessa, porém, responder à pergunta, explorando os motivos que a levaram até ali. Pelo contrário, a indagação serve para reforçar a sensação de que a personagem não tem controle sobre o que lhe acontece, como uma criança cujas ações são decididas pelos pais a quem é preciso acatar.
 

Esse tipo de acatamento produz uma infantilização dos personagens, o que freqüentemente determinou que se designasse a literatura de Uhart como naïf. Sobre isso, ela afirma; “eu tenho a técnica de me fazer de idiota”. Há efetivamente uma construção da ingenuidade. Em nenhum outro conto isso fica tão claro quanto em “Congresso”. Convidada para um congresso na Alemanha, a protagonista se encontra em meio a um grupo de escritores seguros de si; são os “expertos em congressos”, que têm o “dom da oportunidade” e que sabem “dizer as coisas adequadas no momento preciso e no lugar indicado”. A escritora responde com uma teimosia infantil, fazendo tudo o contrário do que seria esperado nessa situação: pronuncia mal as palavras, se veste inadequadamente, comete gafes, transformando-se na “fonte de todas as condutas detestáveis possíveis”. Desse modo ela deixa em evidência a vontade que os outros têm de agradar, solapando o que consideram sinais de subdesenvolvimento ou aproveitando-se do estranhamento que sua cultura provoca nos estrangeiros. Para a protagonista, essa relação se coloca em forma de pergunta: “O que será que os alemães entenderiam disso?” Quase nada provavelmente. A viagem não serve para estabelecer pontes. Um diálogo possível é com os uruguaios, cuja afinidade se constrói em torno de uma marginalidade comum, já que foram colocados num hotel mais barato que o dos “expertos em congressos”.
 

A referência aos uruguaios é sugestiva. Num texto de Sergio Chejfec intitulado “La parte por el todo”, encontramos um exame da presença do Uruguai na literatura argentina. “O Uruguai foi sempre a comarca ideal para assinalar marcadamente o diferente, o que é parecido e por isso não pode ser igual, no máximo um pouco equivalente”, afirma o escritor. Um dos motivos da fascinação que o Uruguai exerceu nos escritores argentinos ao longo da história foi a possibilidade de realizar o experimento imaginário de uma Argentina que não tenha passado pelo peronismo. Via Onetti, foi possível criar um “universo fortemente moral e essencialmente apolítico” que abriga esse experimento de uma Argentina impossível. Como exemplo recente desse potencial imaginário, Chejfec cita o livro El dock, de Matilde Sánchez, em que o Uruguai aparece como “a outra face inofensiva de um país, a Argentina, onde o gesto primário da política é sofrer ou infligir a morte como se se devesse obedecer a algum mandato esotérico ou religioso”. O Uruguai estaria assim ligado a uma imaginação política que encontra nele um terreno permeável às comparações, mimetizações ou camuflagens.
 

Em Del cielo a casa, os uruguaios são um povo com o qual se tem uma irmandade na marginalidade, uma irmandade maior inclusive do que com os próprios compatriotas, cujo olhar se direciona avidamente para o norte. Em outro conto, “Conversación en la terminal”, uma estação na cidade de Minas, ao norte de Montevidéu, serve de cenário para uma conversa entre um gaucho velho e uma senhora de uns quarenta anos que viaja regularmente para uma consulta com o seu psicólogo. “O gaucho velho tinha um continente tranqüilo, como se todos os lugares fossem iguais”, escreve Uhart. Efetivamente o que parece fasciná-la no Uruguai é o fato de ser um lugar como qualquer outro, familiar, sem ostentação, diferentemente da Itália ou da Alemanha, em que se está sob o peso da história e do conhecimento, em que se vive como “um condenado à morte que come e bebe tudo pela última vez”. O Uruguai é um lugar com o qual se pode ter uma intimidade singela como a que surge entre os dois personagens do conto, uma intimidade sem grandes expectativas nem grandes ensinamentos. Um lugar de passagem, mas onde se poderia eventualmente ficar, transformando-o em nossa própria casa.


O Uruguai aparece também em “Diario de viaje”. A viagem da protagonista, uma jornalista argentina, começa em Tacuarembó, cidade uruguaia quase na fronteira com o Brasil. Uma vez mais, não parece existir um bom motivo para estar ali. “Porque vim fazer uma matéria, porque meu gato morreu e preciso esquecer; além disso, gosto do nome: soa como um tambor”, ela busca explicar. Uma sensação de que nunca nada acontece a acompanha. Dali ela vai para Rivera e de Rivera para Santa Ana, do lado brasileiro. “Não posso, não devo e não quero escrever algo sobre Santa Ana; não posso porque não quero explorar mais e não quero porque ou entendo demais ou não entendo nada. Não vou olhar mais”. A falta de sentido da viagem começa a preparar o retorno. Na viagem de volta no ônibus, a mente da personagem descansa: “Não me sinto mais obrigada a averiguar se a cor da grama muda ou se Gardel nasceu em Tacuarembó”. Ela se abandona então a uma gripe que está ameaçando chegar. Seus pensamentos já estão em casa. Só que o que ela chama de “casa” é um hotel em Montevidéu. Ela pensa em chegar ao hotel, comer no tradicional restaurante “La Pasiva” e depois ver televisão. Ao contrário do que acontece nos outros contos, o retorno aqui não fica apenas no plano da imaginação, possivelmente porque se trata de um retorno deslocado, não para Buenos Aires, onde fica sua casa verdadeira, mas para um lugar intermediário. Isso mostra que o que interessa a Uhart não é estabelecer uma oposição entre o lar e o estrangeiro, mas captar esse momento em que cessa a busca da viagem e é possível se entregar indolentemente ao regresso. 

 

 

 

PALOMA VIDAL nasceu em Buenos Aires, em 1975, e atualmente mora em São Paulo. Além de tradutora e editora da Revista Grumo, é escritora, tendo publicado o livro de contos A duas mãos, em 2003, e participado das antologias 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (2004), Paralelos: 17 contos da nova literatura (2004) e A visita (2005).

 


 

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