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marcus motta


advertência de machado de assis

 


 

Gostaria de ler a advertência de Machado de Assis em “Várias Histórias”: ... mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances... Lê-la e me pôr em sobressalto com o ensinamento que desponta nesse pequeno fragmento. Ensinamento que me parece questionar todas as nossas expectativas de arrumar uma cultura literária sem pensá-la com o rigor irônico que nos caberia historicamente (lição de Machado, digo). Ensinamento para as nossas desatenções habituais, quando deixamos de pensar em favor de esquemas que repercutem certo descanso reflexivo, lidando com a literatura a partir de evidências empíricas, favorecendo um “autor” quando o embrulhamos em algo frágil e imprudente: o nosso nacionalismo tosco e rude — capaz de abater a crítica em favor de alguma coisa legítima e improcedente, o desleixo (no sentido que Sérgio Buarque de Holanda dá à palavra).


A minha insatisfação com nossas capacidades de reflexão literária produz (digo) um sentido de que as palavras de Machado de Assis querem alcançar, com um gracejo ferino, as nossas negociações de critérios e sintonizações ao discursarmos sobre a cultura que somos. Quando assim penso, percebo como tal situação nos priva do ensinamento que a advertência ao leitor de Machado sustenta.


Nesse sentido, creio que os seus contos, demarcados pelo fragmento de frase, anunciam uma possibilidade de paródia à vulnerabilidade do romance entre nós. Não quero aqui discutir se Machado cumpra ou não a própria superioridade dos contos — há muito que discutir se aquilo que consideramos os romances de Machado de Assis não é algo que declina (faz cair) a forma romance. Apenas assumo, aqui, garantir a idéia de que, lendo o fragmento de frase, reconheço a presença de um interesse literário que evita se instalar no lugar de segurança cultural, imaginária ou discursiva, que o romance se encarrega de demonstrar e alastrar além dele. A possibilidade da paródia dos contos teria, aqui, o direito de ser um tipo de avaliação da dor irônica do quão longe as “nossas vidas” estariam sujeitas a gerar histórias para aquela forma literária.


Nesse caminho, a advertência de Machado de Assis pode ser (por mim) tomada tanto como empiricamente direcionada a qualquer leitor que se poste a ler os contos, sendo por essa razão tanto um tipo de aviso quanto a exortação de uma situação narrativa, ou, então, pode ser tomada (é o que aqui importa) como a reivindicação dos riscos literários que os contos apresentam sem ter a segurança cultural da forma romance. É essa segunda variante que me deixa livre para pensar a advertência como torção literária na segurança cultural do romance.


A incorporação dessa idéia aqui é tudo menos velada. No centro dessa exposição de idéias está a minha surpresa de que os leitores de Machado de Assis não se impressionem com a alusão à superioridade dos contos. Talvez porque tenhamos, todos nós, caído num velho hábito de concordar com Machado. Talvez porque presumamos que os contos sempre serão expressos por páginas que demonstram o que falta a eles para serem um romance.


É essa característica genérica bastante ordinária que será a maneira de enfatizar o andamento de meu pensamento. Os contos, portanto, na condição do fragmento de frase em destaque, não são uma inferência proveniente da advertência machadiana, uma ação narrativa a partir dela, mas a execução narrativa que a si própria esgarça. Assim, me permito pensar que a advertência de Machado ao leitor captura a nossa falta de ousadia em dizer que as “nossas vidas” pouco se adéquam ao romance; expressando ligeiramente um tipo de proporção cultural para as nossas leituras, anunciando a questão sobre o que acontece se não se aceitar a superioridade dessa forma literária.


Digo que Machado de Assis ao escrever aquela frase percorre o caminho completo da qualidade dos contos. Nisso há algo que realmente é a uma qualidade dos contos; como se eles, expostos na frase, estabelecessem a aurora de sua qualidade, como se ela, a uma qualidade, já lá estivesse sempre. Disso se segue que a possibilidade do fragmento pode ser percebida da seguinte maneira: ou o conto existe como uma qualidade relativa ao romance, ou ele, como é, persegue a sua natureza, segundo uma realização da diferença enunciada sempre.


Parece-me que se pode ver como Machado afiança a sua frase numa contínua fidelidade à qualidade do conto, pelo fato, como posso colocar, de que o fragmento de frase é tão literário quanto qualquer conto. Isso porque o fragmento de frase existe, porque precisa dizer existo, como um conto (curto), ou precisa autenticar a sua existência qualitativa, ao afirmar, ao sustentar uma qualidade que torna os contos superiores aos grandes romances...


Devo insistir, porém, que o fragmento repousa em sua fraqueza, (pode-se dizer em seu vazio) – na verdade, em dois vazios. Primeiro, a palavra contos na frase não prejulga o que o conto pode vir a ser, apenas especifica que esse o-quer-que-seja encontre as condições que precisa ter como uma qualidade que os faz superior aos grandes romances. Segundo, a prova daquela uma qualidade funciona apenas no momento de sua apresentação, pois a prova na advertência de Machado de Assis é a simples existência do conto que efetiva sua experiência a partir de uma qualidade superior. Qualidade que só pode se configurar na expressão serem curtos, já que um grande romance de curto nada tem.


A transitoriedade da existência da prova daquela uma qualidade nos contos é a correspondente brevidade de seu tipo de prova. É apenas na presença concisa de tal prova que a frase surte efeito – como se não houvesse nada mais em que confiar além da própria confiança que a frase apresenta. Se os contos são narrações que podem efetuar a sua existência de tema, e por correspondência a nossa, o recibo da literatura é uma qualidade nos contos entre nós. A palavra contos na frase, portanto, afirma ou sustenta ou reconhece a autoria de um conto, estabelecendo a possibilidade de um tipo de cultura que é a nossa.


Aparentemente é essa sensação de autoria que dá prova humana, nos contos, da nossa existência cultural – uma confirmação como fonte para as idéias de que nós precisamos de um autor de contos, Machado de Assis; assim como precisamos nos ver culturalmente naquela qualidade superior que os contos são.


Entretanto, o inato, mas há sempre uma qualidade nos contos, é como a dúvida que simplesmente expressa a coincidência rápida entre autoria e o gênio da frase. Assumo que o desvio da frase que Machado de Assis me permite fazer segue mais ou menos o seguinte andamento: há uma acepção da autoria que de si mesma exige imaginar-se conto, uma acepção de que na ausência dessa dúvida há impedimento da autoria na tarefa, contínua, de garantir que há sempre uma qualidade nos contos.


Para fazer com que esse desvio tenha sentido, preciso reconhecer que Machado de Assis vislumbre a nossa cultura como contos, na qual o interesse literário, cabível a ela, se manifeste, na qual as “nossas vidas” apareçam naquela uma qualidade, dado que isso se opõe à perda da possibilidade literária face a um adversário opressor, a própria cultura, em sua tarefa de pretender ser capaz de se representar na forma romance. Isso é o mesmo que dizer que a pertinência de uma qualidade nos contos acontece em momentos específicos na existência de uma cultura.


Sugiro, concomitantemente, que a frase de Machado de Assis reivindica uma qualidade nos contos para requerer que essa forma de prosa demonstre o que nos é comum e, portanto, um tipo de singularidade americana, na esteira de Poe. O que é o mesmo que acreditar, portanto, que a sua verdade é intrínseca a todos dessa cultura. Contos, no fragmento de frase, é conseqüentemente o nome do compromisso de que o privado e o coletivo de nossa cultura serão afinados ao mesmo tempo, quando se admitir que a forma literária, conto, somos nós. Daí a percepção de que “nossas vidas” se apresentam apuradas sempre na ausência da obrigação cultural de escrever romances, sistemas históricos, para ensaiar e contar a curta vida que é o nosso patrimônio.


Machado, então, dedica a escrita da frase à promessa dos contos. A dedicação de Machado é uma paródia da própria voz na palavra contos. Essa paródia consolida uma atitude em direção, ou em resposta, à literatura como tal – como se algumas das situações literárias do romance, como um todo, implorassem por troça redentora nos contos que o próprio escreve.


Citar autoria como equivalente ao conto é a justificativa mais simples (que arranjo), para cuidar do fragmento, reconhecendo não a vivência de qualquer alguém como o autor da existência dos “contos” e sim de suas autorias – pois contar não é uma propriedade do conto, o que faz dele algo radicalmente próximo à narrativa que ostenta a curta cultura que temos e somos. Acerca de seu fragmento de frase, portanto, posso dizer: primeiro, ela demonstra a existência de uma qualidade do conto (i. e., estabelece seu direito de dizer “sempre”); segundo, aquilo que a frase demonstra ao seu favor pode ser usado por qualquer conto no mesmo sentido como a paródia ao romance e sua pretensão de superioridade.


Como posso, então, ler a frase, ou a sua teoria, já que ela nos lembra que nos lemos melhor num conto, a fim de aprender como a palavra contos, no fragmento de frase, lê a sua superioridade? Machado de Assis alega explicitamente que os contos efetuam sua superioridade, verticalizando o seu tema, sem precisar de um esforço sinfônico de um romance. Caso aconteça assim, a maestria do fragmento de frase é o mesmo que falar que a sua escrita atinge, completamente, a palavra contos. Segue-se que domar o sentido de uma qualidade dos contos em relação ao romance é um meio de distinguir a crítica que sai e segue cada palavra do fragmento.


Com relação à idéia de sua comunicação, como emissão crítica de superioridade, os contos podem vir a significar, em sua prosa, a exposição do mais do que precisa saber para ser conto. Por conseguinte, a questão que a teoria da frase de Machado de Assis promove, como se estivesse preparada para responder, não é o que significa um conto e sim como os contos, com o qual o autor se importa, diz, invariavelmente, mais que sabe seu autor – já que escritores e leitores escrevem e lêem além de si próprios nos contos. Isso pode ser resumido pela pergunta: o que sabem os contos sobre a nossa cultura?


Machado de Assis apresenta uma possibilidade que pode ser expressa assim: uma qualidade dos contos é a virtude de sua maior súplica em saber o que é. Mas o que essa possibilidade nos coloca diretamente é que as “nossas vidas” precisam girar no como se conta, desde que nunca estejamos definitivamente livres uns dos outros, pois entre o leitor e o conto há sempre um movimento de retorno à vida.


Porque, então, a palavra contos parece-me insistir, na frase, que conhecerá o seu outro, o romance, criando mesmo, nesse seu outro, a autoria de uma qualidade só dele? Porque o resultado do conto é ganhar a prova de que cada um de nós não está sozinho em nossa cultura, requerendo ser conhecido, contado.


Direi melhor: o que os contos solicitam é dizer que ao sair de sua solidão narrativa o que acontece é a indiferença à sua superioridade (talvez não sem sua ajuda). Seguindo essa linha de pensamento, os contos providenciam condições ao companheirismo, diga-se fraternidade; e o preço desse companheirismo, é a supressão, não a afirmação, do seu outro, o romance. O que é o mesmo que falar: afirmação da indiferença; digo liberdade e igualdade entre o conto e o leitor, possuidores de atos precisos de contar. A missão do pensamento nos contos de Machado de Assis (especulo só) é nunca deixar esquecer isso.


Ao declarar que o conto não é um espetáculo literário simplesmente para si, desejo aceitar que Machado esteja a negar que ele seja um espetáculo narrativo. E dessa forma, dobra e cruza novamente seus temas correntes ao ser lido, breve. Se assim é, devo agora olhar pelas grades do fragmento de frase, significando que me permito, tendo os olhos delimitados por aquelas palavras, pousá-los na distância que me é dada.


A escrita do conto é como uma maneira da mensagem de sua uma qualidade. Sendo assim, os contos de Machado de Assis, segundo o fragmento de frase, são essencialmente a torção literária que se desprende deles. A sua deformação perversa é surpreendente. Bate-me a impressão de que nos contos de Machado de Assis, o pensamento sobre conto está resolvendo-se e que, de qualquer jeito, o seu contar existe apenas como uma paródia da vulnerabilidade do romance, particularmente como algo indistinto da perversão do conto, como se derrubasse o reino da razão do romance numa cultura curta.


Ouso dizer que Machado pode ter incertezas a respeito dos contos, se sua escrita está fazendo seu trabalho, tomando seu caminho. Então o brilhantismo do fragmento de frase, peculiar ao contista Machado de Assis, está em ter descoberto a condição de inteligência em pensar o que nos caberia literariamente. Contos acaba sendo assunto típico para ele, a respeito da supressão deliberada do romance, cuja motivação aparente seria a herança de um estado cultural.


A primeira das trilhas para a leitura dos contos de Machado de Assis seria, conseqüentemente, a conexão reforçada que a frase apresenta. Como se o fragmento de frase consistisse exatamente em manter-se viva na existência dos contos. O fragmento nomeia e ilustra um fato comum do conto, até mesmo invoca o que poderia chamar-se teoria machadiana sobre a nossa responsabilidade cultural.


A perversidade (como um aspecto do ceticismo de Machado, confundido sempre com o seu pessimismo) da linguagem nos contos, todavia, trabalha o nosso pensamento em sua autonomia, às vezes até mesmo contra ele. Não é uma função, portanto, de acréscimos ou proles de palavras necessariamente recorrentes e sim de um imperativo nosso que Machado apresenta, falantes da língua que somos, de significar algo nas palavras dos contos e por elas, de desejar dizer algo pervertido sobre a cultura que legitimamos.


Os contos de Machado de Assis com seus impulsos de caracterização, conforme o fragmento destacado, denuncia o que poderia ser a única maneira de preservar a individualidade de nossa cultura. Seríamos bem sucedidos? Os contos reforçam a pergunta com aquela uma qualidade superior, prosseguindo na declaração de que não nos irão exaltar – ou seja, não nos removerá de algo (provavelmente deles mesmos), de um altar ou de uma prisão do romance que, cada vez mais, torna a nossa cultura uma novelística sem atenção irônica.

 

 


MARCUS MOTTA é escritor e professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde atua no programa de pós-graduação em literatura portuguesa e em história da arte. Concluiu, em 2001, o pós-doutorado na Universidade Lusíada em Teoria da Arte. É autor de Desempenho da leitura - sete ensaios de literatura portuguesa (7Letras, 2004) e Antônio Vieira - infalível naufrágio (Editora FGV, 2001), entre outros. Dedica-se, principalmente, a duas linhas de pesquisa: Arte Contemporânea e Patrimônio Cultural; e A questão de artisticidade na arte de Fernando Pessoa: perfeição abstrata e cartografia heteronímica.
 


 

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