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aldemar norek


 a posteridade sempre chega tarde demais
 

 

 

O Mundo me condena
E ninguém tem pena,
Falando sempre mal do meu nome.

Noel Rosa (Filosofia)

Nenhum motivo é bastante para escrever.

(...) A condição do escrever é a crise.

 A literatura que vale a pena que escreve

 responde pela destruição do escrito ou

simplesmente já não responde a nada.
Alcir Pécora

A posteridade sempre chega tarde demais.
  Lalo Svoboda
 


 

Pós-escrito:
 

Por uma questão de não conformidade com os parâmetros acadêmicos (contextualizando com as posturas de Lalo), as notas de rodapé deixarão o rodapé e invadirão o corpo do texto, criando abismos entre os parágrafos. Se o texto lhe parecer chato, desagradável ou você tiver algo melhor para fazer (o que não é difícil de encontrar), aproveite a pausa criada pela primeira interrupção em abismo, o primeiro corte metodológico, e saia de fininho sem ser notado. Este pós-escrito está colocado antes pela mesma razão que definiu sua gênese.

Este texto poderia começar com a cena das cinco mulheres que, sempre na mesma data e vestidas de negro, levam flores vermelhas à Ponte São Salvador e as jogam às águas geladas depois de alguns momentos de oração e silêncio. Diz-se delas muitas coisas, e não raro é possível encontrar a verdade e a mentira enoveladas em cada história que se murmura pelas vielas de Praga. Da mais alta, conta-se que faz ponto em becos escuros ao norte da cidade, e que o dono do hotel ordinário onde leva seus clientes teve que forrar com um poderoso isolante acústico todas as paredes do quarto reservado apenas para ela, a fim de que seu digno estabelecimento não tivesse a licença de funcionamento cassada, tantas eram as denúncias de vizinhos incomodados com os gritos e gemidos. De outra murmura-se que dá aulas de semiótica ou teoria literária numa universidade, e é considerada entre seus pares como um dos mais brilhantes críticos da nova literatura do Leste Europeu. Uma seria dona de casa, digna esposa de um empresário bem situado, afamado e corrupto, do ramo de propaganda e marketing. Outra ainda ontem era uma adolescente, compunha raps de protesto e dilapidava sua saúde em raves regadas a ácido e vodka barata, fazendo suas muitas tatuagens dançarem ao som alucinante – numa delas o planeta Terra fazia mais circunvoluções do que seu símile real, numa metáfora sobre a vida. Talvez esta cena em que cinco mulheres vestidas de negro acercam-se da Ponte que cruza as águas geladas cobertas de névoa, ano após ano e sempre na mesma data, propusesse o clima adequado ao que se vai enumerar aqui, mas percebo que estaria fazendo tudo, menos o pequeno e despretensioso texto que imaginei. Vamos então esquecer este prólogo desastrado e recomeçar de outro modo.
 

Nas teses expostas em seus livros “TODO SILÊNCIO É IMPRONUNCIADO” e “CONFISSÕES & OUTRAS MEIAS VERDADES (AUTOBIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA)”, livros que nunca tiveram uma edição formal e circulam até hoje em versões marginais fotocopiadas ou manuscritas, o poeta e ensaísta letão Lalo Svoboda lançou de uma forma não pragmática, não programática e quase inconsciente (para os mais céticos) (1) a pedra fundamental do nascente Neorococó (2) uma grande e nova linha catalisadora das mentalidades (3) cuja força já se torna aparente na produção poética do Ocidente – e não seria mero acaso os primeiros sinais de sua vigorosa aparição acontecerem numa “zona de fronteira” Ocidente-Oriente (4).

Notas de rodapé fora do rodapé, 1:


1. Lalo Svoboda se recusava a utilizar suportes convencionais como um livro editado, e mesmo na web, não percebendo suas possibilidades de subversão (ou desconfiando delas). Seu objetivo era questionar os meios convencionais de produção e distribuição de livros, que serva à manutenção de um status quo medíocre, em suas palavras.
 

2. A primeira menção ao termo não é nossa ou de Lalo, mas de Arnold Spencer, em seu ensaio “As implicações do Trivium e do Quatrivium e outras limitações do branco”.
 

3. SPILZMAN, Derek . Estudos da Pós-modernidade. Rio, Pedro Conde Editor, 1982, p. 237.
 

4. ALLISTON, Truman. Recuerdos de Ypacarahi. Buenos Aires, Desvarios Editores, 1992, p. 143.

Às margens do Báltico, encapsulada entre a Finlândia, a Suécia, a Polônia, a Estônia, a Esbórnia e a Lituânia, estende-se a costa da Letônia e ali se encrava a cidade de Riga, capital que foi o berço de Lalo e sua grande paixão, ladeada apenas por Praga, cidade natal de sua mãe, filha de uma tradicional família de mestres-de-fiação da República Tcheca. Os ventos fortes que percorrem o território, ao arrastar constantemente as nuvens e agitar as frondosas árvores de belas e úmidas florestas daquele canto do mundo devem ter moldado o ouvido de Lalo para uma poesia de extrema musicalidade. A geometria dos pântanos e a aridez de extensas regiões arenosas cunhou-lhe, por outros caminhos, o viés a um tempo cerebral e apaixonado de seus versos. Estes aspectos, contudo, ficam à espera de estudos críticos melhor fundamentados, que por certo chegarão no devido tempo e por vozes para isso autorizadas – o que se deseja aqui é tão-somente aludir a alguns fatos emblemáticos de sua vida e obra e mapear, a partir daí, tendências que apontariam a referida gestação das novas formas de pensar o mundo e a poesia neste início de milênio.
 

Seus detratores sugerem que a pedra-de-toque do edifício teórico que ele tentou sistematizar seria aquele bloco semi-bruto de arenito branco – uma alusão irônica à densidade, gravidade e ao peso metafísicos da folha branca de papel – amarrado por Lalo ao próprio corpo, numa silenciosa, bela e abominável manhã de Praga, sobre a amurada da Ponte São Salvador. O fundo do rio sob a Ponte naquele ano de furiosas enchentes na Europa – recebeu seu corpo e nunca mais o devolveu, dando razão ao mote de seus continuadores: Lalo não morreu! Testemunhas do ato extremo afirmam, desde então, que acontecia apenas mais uma performance radical, uma das “instalações” que ele costumava promover, não despido de um certo desespero conceitual. Conta-se que ele pretendia lançar, em caráter simbólico, a pedra sobre a qual se fundaria um novo rumo da elaboração poética, e o planejado era romper a corda no último segundo, por meio de um dispositivo bastante complicado, mas previamente ensaiado quase à exaustão. Quando tudo parecia correr dentro dos padrões estabelecidos – se fosse possível falar em padrões e Lalo simultaneamente – uma crise de labirinto o acometeu (ironia do acaso: labirintos e abismos sempre foram seus temas recorrentes) e o fez mergulhar sem retorno, convertendo a pedra em âncora última e definitiva.


Os poucos e cada vez mais raros amigos de Lalo (fiéis como cães, no entanto, ou como lobos numa matilha) relatam sua mais constante queixa: sentia como se algo inalcançável e incompreensível como uma “revelação” secreta (ao espírito das religiões) acontecesse nas artes e na literatura, e principalmente na poesia, seu grande foco, como se o incomum fosse produzido por seus pares e que a ele houvesse sido negado pelo Destino (este deus avaro), ou mesmo posto sob um véu de névoa como o que cobria Praga naquela estranha e definitiva manhã, numa extemporaneidade sem remédio. Houve quem insinuasse ter ouvido o grito “Salieri sou eu” (5) como as últimas palavras de Lalo em seu mergulho nas águas geladas da posteridade, mas suspeitamos que isto seja apenas mais uma pincelada no mural chiaroscuro em que seus detratores tentam fixar a sua sequer notada passagem pelo mundo das letras. Não é tarefa nossa tentar negar a nunca declarada e menos ainda percebida rivalidade com o poeta Jean-Claude Prophéte (6) – um dos mais importantes divulgadores (Marqueteiro, no dizer de Lalo) da poesia neobarroca no Leste Europeu. Uma das principais críticas de Lalo seria a de que Claude viu em seu nome quase um vaticínio e desandou a fazer previsões sobre o futuro da poesia na Letônia. (7) Escreveu sobre isso um dia: J.-C.Prophète quando escreve dedica-se à escritura de invenção – sua mais acurada busca centra-se nas invenções do ovo e da roda, o primeiro nas mais diversas modalidades (cozido, frito, mexido, etc) e a segunda, espelhada em seus escritos pelo vazio onde se encaixa o eixo (ao que os taoístas, especialmente Chuang Tzu, retrucariam....).

Notas de rodapé fora do rodapé, 2:


5. Descobrimos ser este o refrão de uma das faixas do CD pirata da banda de rap e bolero “OS PERTURBARDOS”, de que fazia parte Lalo Svoboda.
 

6. Jean-Claude Prophéte, autor de “Goivos e Camélias”, “O Hipopótamo Tatuado”, “Estrelas, Molas de Caminhão” e “Apólices de Seguros, Massa de Tomate”.
 

7. A respeito desta contenda inexpressiva escreveu Lalo: “O poeta e colunista poético-social Jean-Claude Prophéte, numa espécie de arqueologia às avessas e enfiando qualquer complexidade no mesmo balaio, elege entre seus pares futuras letras mortas e os leva a saraus em seu sítio, onde se conta que o bolinho de fubá é o que de melhor há. Hordas de jovens poetas, sequiosos por um milímetro da posteridade, esta madrasta que só dispensa algum cuidado quando o sujeito já está morto e não pode mais apreciar os seus carinhos, visitam o seu momentaneamente famoso bangalô, e deixam lá gravadas as extremidades de seus membros superiores no cimentadinho ao lado da varanda.

As muitas vozes que lhe são contrárias insistem em não avaliar adequadamente o seu apego visceral a certos eixos de pensamento (“A Beleza não é uma qualidade das coisas em si, ela só existe no intelecto de quem as contempla” Hume) e de como este apego teria fundamentado a sua visão crítica em relação às idéias defendidas por Jean-Claude Prophéte. É fato corrente, ao menos entre os freqüentadores dos piores botequins e biroscas de Praga, a oposição diametral do pensamento dos dois vates. Estava o primeiro habituado a validar, em artigos e pequenos ensaios remetidos a publicações especializadas, a produção de alguns poetas a quem Lalo chamava de “pasticheurs”, ou virtuosos meramente afetados, de complexidade superficial – e entre garrafas de a meio mastro e tchecas muito brancas contrastando com lingeries de um negro profundo, Lalo destacava que o verdadeiro artista deveria ser um “super intelectual ousado e não ortodoxo”, que cultivasse interesse feroz pela teoria estética “sem contudo abrir mão da visceralidade e da paixão em sua produção” (8). Este projeto seria também defendido por Gerard Mouton (ou Gèrard Èluard, conforme a circunstância ou a quantidade de álcool circulando no sangue), ainda que subliminarmente – a este grande poeta não interessavam “polêmicas menores” e se encontrava sempre mergulhado em leituras e tradução de Shakespeare, na metafísica (e na física) das Musas e em viagens etílicas com Johanes Ubertius, (este, um grande nacionalista, e por isso mesmo uma voz universal, bradava depois do terceiro copo: “Viva o Povo da Letônia!”) Uma vez Lalo mencionou que Johanes Ubertius, por um secreto orgulho ao qual ninguém seria capaz de negar vínculos com a realidade, e como ato simbólico representativo de seus valores quanto à palavra escrita, guardava os seus livros publicados na estante em uma posição especial: “entre os dois maiores épicos da última flor do Lácio”, Os Lusíadas e Invenção de Orfeu. Os mesmos cronistas que narraram a antológica cena em que Gerard Èluard berrava enlouquecido de amor por uma de suas musas pelas vielas de Praga (“Hamlet é um herói maneirista!”) dão como certo que Lalo acusaria Claude de tornar a própria vida um estratagema, e esvaziar o seu conteúdo crítico em devaneios onde a única meta seria a auto-expressão egocentrada e a autopromoção, carentes de base, a busca de distinção nos meios literários daquela parte da Europa (9). Ele avaliava que existia uma tendência elitizante promovida por Claude (e alguns críticos), que pregava sempre o gosto pelo labiríntico, pelo sentido truncado, pela elaboração extrema como regra. Não que Lalo visse nestas características em si a base da tendência elitizante, elas poderiam se transformar em poesia, como até muitas vezes o próprio Claude conseguira, vezes em que sua escrita deixou de ser programática e invadiu a poesia.

Notas de rodapé fora do rodapé, 3:
 

8. Consta que estes seriam trechos do livro “NEOROCOCÓ E O PARADOXO DO ESPELHO ENTRE DEUS E O CAOS” que Lalo citava de cor e onde se leria também: “Só me dêem o presente. Só aspiro ao presente. Deixem o futuro aos que vão nascer e olhemos o passado como quem ama a Verdade. Eu quero o aqui e o agora.”
 

9. Anais da XXIII Reunião Etílica Geral dos Amantes de Botequim da República Tcheca.

Nestas ocasiões o imoralismo de Lalo e o seu culto a prazeres neo-pagãos tornavam-se seu ponto fraco, na visão de muitos. De sua pequena produção pouco restou e as páginas de sua grande e desconhecida obra teórica “NEOROCOCÓ E O PARADOXO DO ESPELHO ENTRE DEUS E O CAOS” foram tragadas pelas águas geladas do rio eslavo (10).

Notas de rodapé fora do rodapé, 4:
 

10. Correm lendas em Praga que uma das cinco mulheres teria uma cópia deste talvez grande livro. E também o receio, entre seus amigos, de que textos apócrifos venham a circular sem controle.

Das já citadas testemunhas de seu último ato ouvimos ainda em outra ocasião, a respeito de seu brado antes do salto, que teria gritado “Foi mal aí!”, numa espécie de reverberação do último verso de seu mais famoso poema (entre os bêbedos nos botecos de Praga eram bem conhecidos estes versos) em que representou, como quem escreve na água e não sobre a pedra o seu testamento, toda a angústia pós-moderna. De algum modo isto terá no futuro pouca ou nenhuma importância, até porque “Salieri sou eu!”, “Foi mal aí” e “Viva o Neorococó e as estrelas fixas na abóbada do céu!” são frases praticamente homônimas no idioma tcheco, e o vento forte associado ao bramir feroz das águas turvas do rio encapelado confundiram todos os que tentaram ouvir suas palavras, e além do mais os presentes estavam, em sua quase totalidade, embriagados. Temos por certo que, em seu desespero, Lalo desistiu permanentemente de estar sóbrio e passou a alternar entre fermentados e destilados apenas para não sobrecarregar as vísceras. É voz corrente que deu para escrever sonetos em linguagem semi-jurídica que ele mesmo nomeava de “divertimentos”, como se desejasse uma autopunição tão permanente que lhe invadisse a improvável posteridade (já excessivamente prejudicada pelos seus atos), mesmo que não se importasse com ela (“então estarei morto...”), e contra todos os apelos de amigos como Gèrard Èluard, que sempre lhe dava conselhos do tipo “Pára com esta mania, rapaz...” ou interpelava-o com um “Você tem mesmo certeza sobre isso?”. São desta época as histórias em que Lalo discursava às estátuas da ponte, invocando o aforismo de Hume já citado neste estudo, além de São Jorge e Santo Expedito, indignado com o quão tendenciosos e programáticos seriam, quando não vazios, os textos críticos de alguns de seus pares e como a ausência de pensamento e a tendência elitizante na poesia contemporânea da Letônia refletiria o vazio das classes médias no mundo e seu distanciamento do real. Aqueles que o desejam desmerecer colocam o Neorococó como apenas mais um bonito rótulo, uma embalagem entre tantas para o mesmo conteúdo (ou para sua ausência), uma máscara sem rosto por suporte. Enquanto uns e outros discutem surdamente o que seja a Poesia, quais os seus rumos e futuro, conteúdo e matriz estética, a voz de Lalo, subaquática, tece um silêncio que, se nada anuncia, pelo menos não pretende fundar novos olimpos, nenhuma dinastia, torres de marfim barato que já nascem fendidas em sua base escassa. Se estivesse vivo talvez, para ilustrar, cantasse um samba, uma das melhores coisas da tradição da Letônia. Ou um rap.

 

 

ALDEMAR NOREK, poeta, ensaísta e arquiteto, nasceu em 1963. Nada fez de relevante ou expressivo que merecesse ser mencionado aqui, tem muitos fracassos em sua biografia e escreve sonetos (entre outras inutilidades). O autor participa atualmente do blog coletivo Língua Epistolar. aldemarnorek@yahoo.com.br


 

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