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guilherme zarvos


20 de maio François

 

 

 

Foi ontem, mas conto hoje. Passeava pela enésima vez pela Wiener Straße, pensando como é legal estar num apartamento de um berlinense que tem o pôster do grupo Oficina, na apresentação de Berlim, d’os Sertões, Euclides no céu e Zé na Terra, como é preciso ser preciso, para adaptações como esta ou como o próprio Zé com Rei da Vela, Hamlet e Boca de Ouro. José Celso Martinez Corrêa é capaz de adaptar as maiores escritas em tão boas escritas de teatro. No momento, junto com Oscar Niemayer, Paulo Coelho, os MPBs, artistas plásticos e Lula, é o grande representante da cultura nacional. Ando afastado do teatro, mas José Celso trás nos Sertões até mesmo o que de melhor temos nas artes plásticas condensado em humanos e panos. Principalmente na segunda parte de O Homem. Ia pensando e passei por um cilindro enorme de três metros de altura e um de diâmetro, colocados pela cidade, em que se divulga cartazes dos acontecimentos. Em 1989 era nos grandes latões de lixo, que dava pra ver o que estava acontecendo. Informações no lixo é a boa. No Rio de Janeiro as lixeiras de plástico laranja das ruas, um pouco maiores com espaço livre de divulgação. Vou encher cada poste da área com cartazes xerocados do CEP. CEP no lixo é a boa. Xerox de capas de livro no lixo é a boa. A briga vai esquentar com a Mãe Diná que promete a pessoa amada em três dias. Que seja ambos. O costume do anunciar livre nos deixa livre. O Rio, tão tacanho e privatista, nas políticas públicas, poderia ceder estes espaços com bela originalidade de lixo. Incluo aí todos os novos escritores, faladores, tocadores, dançantes, oradores, etc...Vinha pensando quando um jovem belo muito belo me perguntou: - vc sabe onde se compra maconha por aqui?- Fiquei espantado, achei que era racismo, o branquela perguntar para mim moreno provavelmente vestido de forma extravagante e falei, pergunte no Madonna ou em outro bar para um cara da sua terra. Ele riu e eu ri, falei, vou te seguir, ele respondeu e vi que não era alemão: mais um francês na minha vida. Ó maleditos. E não demorou muito e apareceu um alemão, querendo da brenfa too to e aí entendi que estava na frente do parque que vende maconha, e o trio formado entrou parque à dentro. Lá constatei que a maioria dos vendedores são jovens turcos ou de origem da África Negra, e me aceitei em ambas as caras/cores e já sabendo do racismo francês, e de certa questão de lógica, deixei pra lá a visão estereotipada do meu novo amigo anjo gaulês. Todo anjo é terrível. Ele não era direitista trabalhava em um estúdio de música com a alegria nômade dos jovens que podem morar e trabalhar em qualquer dos países da comunidade européia em Berlim ou Londres; mais alguns meses, ele irá para a Grécia e depois quem sabe raves em Lisboa. Algo que podemos fazer na América Latina e depois África e depois... Mas não gostei de François, me pareceu vulgar, o que ele negou veementemente, e comecei a chamá-lo de Felipe. Felipe é provinciano, foi apenas uma vez a Paris, tem 20 anos, bochechas vermelhas uma leve tendência para os franceses de futuro rechonchudo. Simpático e levemente conservador. Defensor da comida do interior francês, Felipe tem dificuldade de leitura, pois foi criança hiper-ativa e talvez com déficit de atenção, a especialista lhe disse para quando perdesse a concentração, em qualquer lugar, que tirasse as bolas coloridas de malabares e as jogasse até se concentrar. Ele anda para todos os lugares com elas, suas amigas coloridas. Ele fala muito, com corporeidade latina. O Alemão, Thomas, apenas olha. Já fomos ao parque e no apartamento tiramos fotos e todas as traqualadas normais.: -Vc se daria bem no Rio no posto 9 em Ipanema, com estes malabares e sua hiper-atividade-. Não falei beleza, mas ele notou. Os olhos brilharam como a de todo o francês belo, nesta idade, brilham: como um abajur turqueza ou os faróis Batmóvel turquesas. Os olhos de Thomas eram azuis tristes, como os de Marcos no Beijo na Poeira. Trocamos e-mails e juras de amizade para sempre como em qualquer cidade do planeta. François ou Felipe, enquanto jogava suas bolinhas coloridas, eram quatro, não parava de conversar, agora um pouco mais devagar. De repente parou, pois eu não conseguia entender o que estava me dizendo sobre o seu aprendizado de matemática: ao invés de 2 + 2 = 4 ele desenhava duas casinhas mais duas casinhas, o que para ele era uma demonstração de sua incapacidade para matemática. Daí de tanto desenhar casinhas, passou para o cartoon, ele desenha razoavelmente bem, não com a paciência do André Brito, e depois para o caminho de técnico de som, bem prático, para poder morar aonde bem quiser: Por que Berlim e não Paris? Porque é bem mais barato. Eu tinha entendido que ele conseguia fazer 44 casinhas vezes 44 casinhas rapidamente, sei lá de que maneira, e lá vinha um condomínio ou o antigo conjunto residencial. Loucuras do tio Zarvoleta. Culpa, too to, de Felipe falar jogando bolinhas e de seu péssimo inglês. Já imaginava ter descoberto mais um eugênio neste mundo cheio deles. Thomas disse que tinha de ir embora pois havia combinado com seu amigo do sul da Alemanha em sua casa e que se quiséssemos estávamos convidados. Já era perto das dez e o dia se despedia.

 

Esse texto faz parte de minha tese de

doutorado Branco sobre branco, em Literatura

 Brasileira, pela PUC-Rio, a ser defendida

 em junho de 2008


 


GUILHERME ZARVOS é escritor, boêmio e articulador cultural. Publicou Morrer (2002), Zombar (2004), entre outros. É co-fundador, junto com o poeta Chacal, do CEP 20.000, pólo cultural que, desde 1990, vem confluindo várias gerações de poetas e artistas do Rio de Janeiro.
 


 

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