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adriana zapparoli


estampa-predação de olhos milimétricos

 

 

 

1.

e esta dor ceifando a cruz de domingo
buscas silenciosas e vertigens,

vento e calor espalhados neste domínio
exaltando a paz enquanto se extingue

o silêncio

daquele sonho onde se via um ofídio
caramelado (em amarelo) dizendo:

- um menino negro, nos braços de seu pai
de óculos fúcsia... -

e, aliás,

um ser não de todo estranho,
mas com um poder que ainda

desconheço, em plano
decúbito.
 


2.

augure,

veja o horto de petúnia,
por dentro: é decomposto

entre a planta e o cabelo

há o defunto, em arvoredo
de coisas tolas

por um momento
que se intitula

apreço, por pérolas
e unhas

de horrores, em calda de pêssego-
de-aparta-caroço.

as múmias,

deste seu desassossego
toma o gosto

das ostras, impresso em gota
límpida,

naquele panfleto
que vemos morno.
 


3.

por um abocate rosa-choque
é apartada a arteríola

em fala de sintonia fina,
em cálculo díspar

que reafirma, o contra-ataque
da melancolia de cidade Basca.

por um anfíbio, cabisbaixo
de rotina, de vigiar a sacada.

há estrada, a paisagem
desenhada pelo filhote

é bucólica, pele e cerca
em húmus, pedalando
a seca,

a dorê...
entre, doze,
flores...


4.

seria, a ponta do dedo um formigueiro
ou melhor, dizendo, Myrmecia
nigrocinta, penteando o seu sossego?

rasteira, uma formiga de renda
em barco de areia
e stévia

classifica-se caótica,
entre o fastio da sereia
e naquilo que reverbera
o Filo, Arthropoda.

cáustica, é a culpa

é o presídio que insinua
a rota, o fastígio
da entrada insecta,

um formiguilho
de agruras e chispas
todas,

trancadas.
 

 

5.

à parede em diástole pelos pés e dedos de prata.
manco, se portando como louco de intrigas e cílios, de ouro
que piscam, híbridos; os espaços e sítios da lona cor de cadarço.
escondia-se naqueles abraços, entre os interstícios minados à lenha, símile corte, e inseminação de perdigotos em escarro de porco;
os dedos continham faces arrebatadas, pela prata d'encantos de unhas manicuradas que sangravam.
 


6.


os macacos ejetando os homens de plástico para o espetáculo. recitavam em troca de aplauso de um (Aotus azarai infulatus) macaco da noite, de região neotropical e de origem irrefutável. um macaco de língua eclética e noturna lendo entre ponto e vírgula os escritos, manifestos e contos daquele homem que saltava na mímica das páginas. e
o homem-guepardo, atento, as conversas que transpassam galerias, sombras e tintas, cinzas-orelhas da terra de guaira, ou da dinastia filipina, ninava, entre os braços do "abaporu" de tarsila.
 

 

7.


n'zambi, ente infinito existente por si
em pé de abricó, de beijo damascado,
do fruto em pó de sorriso,
o mistério no empório do peito de
brônquio décor,
por você...
 

 

8.


pelo nojo de encomendas, de falas e de víboras que
assistem ligadas em tomadas.
o enjôo, arrebenta mais um neurônio,
extravasa e dispersa na sinapse

dos vômitos... são impulsos
entre dores elaboradas
de vômito com linhaça.
cansada deste e de ouros de odores
ressente, quase incontrolável
e cabeça para baixo, quando
(des)equilibrada.

com receio de formiga esquizóide que ama...
 

 

9.


catadores de poesia em becos excomungados
estão alojados em sexo de Funisia dorothea.

restam os fósseis de uma rainha da idade da pedra
estampa-predação de olhos milimétricos,

pelo ódio-listerina, solto no espaço
para ambientar este clima
tropical...
 

 

10.

existe um homem alojado na coluna da jangada/ no pescoço da barriga-listrada. dentro do ovo da canária. em um ninho em forma de taça, entre a espuma....

ele eclodira endez, corpo-homem-cara...e canário.

dentro da garrafa, a herança herbácea no escoamento de água, no represamento, da vazão do outro.

em um solo mais seco, o pastoreio, seus filhotes-canórus e sua mãe estufa por cada uma das ilhotas amarescentes...
 



ADRIANA ZAPPAROLI é poeta nascida em Campinas. Fez doutorado em Farmacologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e, em 2007, lançou seu livro de estréia, A flor-da-Abissínia, já tendo publicado seus poemas em revistas impressas, como Etcetera, A Cigarra e Poesia Sempre, e eletrônicas, como Zunái e Mnemozine. Os poemas aqui publicados fazem parte de um novo livro, ainda inédito.
 


 

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