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stéphane mallarmé


o poeta-operário

 

 

 

Toda coisa sagrada e que quer tornar-se sagrada se envolve em mistério. As religiões se entrincheiram ao abrigo dos arcanos desvelados: a arte tem os seus.


A música nos oferece um exemplo: ouçam levemente Mozart, Beethoven ou Wagner; atirem sobre a primeira página de suas obras um olhar indiferente, somos tomados de um religioso surpreendente à vista dessas possessões macabras de signos severos, puros, desconhecidos. E nos tornamos o paroquiano virgem de algum pensamento profano.


Constantemente me pergunto por que essa característica necessária foi recusada a uma única arte, a maior de todas. Ela é sem mistério contra as curiosidades hipócritas, sem terror contra os incrédulos, ou sob o deboche e trejeito do ignorante e do inimigo.
Falo da poesia. As flores do mal, por exemplo, foram impressas com os caracteres onde alegremente floria a cada aurora as platibandas de uma tirada utilitária, e vendem-se em livros brancos e negros, identicamente iguais aqueles que narram a prosa do Visconde de Terrail ou versos de M. Legouvé.


Assim os primeiros a chegar entram nas solas dos pés em uma obra-prima, e desde que há poetas, não foi criado, para descartar esses importunos, uma língua imaculada, de formas hieráticas cujo estudo árido cega o profano e espicaça o paciente fatal;- e esses intrusos atem-se à maneira de entrada em uma página do alfabeto onde aprenderam a ler!


Oh formões de ouro de velhos paroquianos! Oh hieróglifos inviolados de rolos de papiros!


O que acontece nessa ausência de mistério?


Como tudo aquilo que é absolutamente belo, a poesia leva à admiração; mas essa admiração será longínqua, vaga,- boba, ela brota da loucura. Graças a essa sensação geral, uma idéia insólita e absurda germinará nesses miolos, a saber, que é indispensável de ensinar nas escolas, e irresistivelmente, como tudo aquilo que é ensinado a muitos, a poesia será rebaixada ao posto de uma ciência. Ela será explicada a todos igualmente, igualitariamente, caso seja difícil de distinguir sob as mentes deslembradas de algum aluno branqueado estrela sibilina.


E lá, visto que a justa lei é um homem incompleto aquele que ignora a História, uma ciência, que vê confusamente a física, uma ciência; ninguém terá recebido sólida educação se não pode julgar Homero. Ler Hugo, homens de ciência.


Um homem,- falo de um desses homens para quem a vaidade moderna, às custas de apelações bajuladoras, evocou a lei vazia do cidadão,- um cidadão, isso me faz por vezes pensar, confessar, a fronte alta, que a música, esse perfume que exala o incenso do sonho, não carrega com ela, diferente dos aromas sensíveis, nenhum encantamento extático: o mesmo homem, quero dizer o mesmo cidadão, passa por cima de nossos museus com uma liberdade indiferente e uma frieza distraída, logo teria vergonha em uma igreja, onde compreenderia ao menos a necessidade de uma hipocrisia qualquer, e de um tempo a outro lança a Rubens, a Delacroix, um de seus olhares que cheira a rua.- Acasos, murmurando tão baixo que podemos pronunciar, os nomes de Shakspeare ou de Goethe; esse estranho endireita a cabeça de um ar que significa: “isso entra em meu domínio!”


É que, a música sendo para todos uma arte, a pintura uma arte, a estatuária uma arte,- e a poesia não sendo mais que isso (com efeito, cada um enrubesceria de ignorar, e não conheço ninguém que venha a enrubesce de não ser expert em arte), abandona-se música, pintura e estatuária às pessoas do metier, e como nós tendemos a parecer intuídos, sentimos a poesia.


A propósito de dizer aqui que alguns escritores, desajeitadamente corajosos, não têm a força de perguntar o motivo da loucura dessa inépcia de seu gosto e da nulidade de sua imaginação. Outro “que injuriar a loucura, é vulgarizar a si mesmo”, como diz justamente Charles Baudelaire, o inspirado deve desdenhar essas censuras contra o filisteu: a exceção, por gloriosa e santa que seja, não se insurja contra a regra, e quem negará que a ausência de ideal não seja a regra? Acrescentar que a serenidade do menosprezo não visa somente a evitar essas recriminações; a razão nos ensina ainda que elas não possam ser mais que inúteis ou nocivas: inúteis, se o filisteu não se tornou negligente; nocivas, se, vexado de parvoíce que é o prêmio da maioridade, ele se apodera dos poetas e aumenta a arma dos falsos admiradores. - Admiro mais a voz profana que o profanador. – recordemo-nos que o poeta (que rima, canta, aperfeiçoa, esculpi) não está no nível no qual rastejam os outros homens; a loucura é o nível, e horizontal. Seriamente, jamais vimos na Bíblia que o anjo troça dos homens, por não terem asas.


Seriam necessário que nos acreditássemos homens completos sem ter lido versos de Hugo, como nos cremos homens completos sem ter decifrado uma nota de Verdi, e que uma das bases da instrução de todos não foi a arte, quero dizer um mistério acessível a raras individualidades. A multidão ganharia se não dormisse sobre Virgilio desde as horas que gastaria ativamente e com objetivo prático, e a poesia, que não teria mais aborrecimento, - fraco por ela, é verdadeiro, imortal! – de ouvir a seus pés os latidos de uma matilha de seres que, uma vez que são sábios, inteligentes, se crêem no direito de estimar, quando não no ponto de liderar.


Esse mal, de resto, aos poetas, e aos maiores, não são nulamente estranhos.


Eis-me.


Quando um filósofo ambiciona a popularidade, estimo-o. Ele não fecha as mãos sobre o punhado de verdades radiantes que aperta; ele as espalha, e é justo que elas deixem um rastro luminoso em cada um de seus dedos. Mas somente um poeta – um adorador do belo inacessível ao comum – não se contenta de votos dos doutores das artes; isso me irrita, e não o compreendo.


O homem pode ser democrata, o artista se desdobra e deve tornar-se aristocrata.


E no entanto temos sob os olhos o contrário. Multiplicam as edições populares dos poetas, com o consentimento e ao contentamento dos poetas. Acreditam vocês que ganharão a glória, oh sonhadores, oh líricos? Quando o artista solitário tinha seu livro, custasse o que custasse, tivesse pagado seu último tostão a última de suas estrelas, vocês tinham verdadeiros admiradores. Agora, essa loucura que vocês compram para vosso proveito, vocês a compreendem? Já profanados pelo ensino, uma última barreira foi erguida sob seus desejos, - aquela dos setes francos a tirar da bolsa, - e vocês entornam essa barreira, imprudentes! Oh seus próprios inimigos, por que (mais ainda por suas doutrinas que pela glória de seus livros, que não dependem somente de vocês) incensar e recomendar a vocês mesmos essa incredulidade, a vulgarização da arte! Vocês logo caminharão ao lado daqueles que, apagando as notas misteriosas da música, - essa idéia se pavoneia pelas ruas, e nós somente rimos, - abrindo os segredos à multidão, ou a esses outros que a propaguem a todos as glórias nos campos, contentes que a diversão, é falsa, provendo aqueles que se divertem. Quando chegará o dia, o dia do chamamento? Vocês também, nós os ensinaremos como esses grandes mártires, Homero, Lucrécio, Juvenal!


Vocês pensarão em Corneille, em Molière, em Racine, que são populares e gloriosos? – Não, eles não são populares: seus nomes podem ser; seus versos, não. A multidão os leu uma vez, eu o confesso, sem os compreender. Mas quem os relê? Somente os artistas.


Vocês já foram castigados: vocês já tiveram, entre obras adoráveis ou fulgurantes, deixado fugir alguns versos que não tinham o alto perfume da distinção suprema que plana em torno de vocês. Eis o que essa multidão admirará. Vocês ficarão desesperados de ver as verdadeiras obras-primas acessíveis às únicas almas de elite e negligenciadas por essa multidão onde terão de ser ignorados. Se isso não ocorrer logo, se a massa não tiver deflorado esses poemas, é certo que as peças aureoladas de Hugo não serão Moisés ou Minha filha, vá rezar..., como ela o proclama, mas o Fauno ou Choro na noite.


A hora que soa é séria: a educação chega à multidão, grandes doutrinas irão se espalhar. Cuidem que, se há uma vulgarização, seja a do bem, não a da arte, e que seus esforços não terminem – como nessa direção não tenderam, eu espero – a esta coisa, grotesca se não fosse triste para o artista de raça, o poeta-operário.


Que as massas leiam a moral, mas de graça não lhes façam estragar nossa poesia.


Oh poetas, vocês sempre foram orgulhosos; sejam mais, tornem-se desdenhosos.

 

Traduzido por Márcio Freire

 

 

STÉPHANE MALLARMÉ, nascido na França em 1842, foi poeta e crítico literário. Sua obra, de grande renovação estética, influenciou os movimentos das vanguardas européias do século XX. Co-participante do movimento simbolista, seu primeiro trabalho de expressão foi o poema L'Azur. São dele também os conhecidos Un Coup De Dés jamais n'abolira le Hasard, Vers de Circonstance e L'Après-midi d'un Faune, que levou Claude Debussy a compor o Prélude à l'après-midi d'un Faune. O texto acima é apresentado pela primeira vez em língua portuguesa.

 


 

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