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roberto alvim


diário de guerra
 

 

 

Não dá pra ser amigável num mundo onde

o que exigem de você é subserviência. Por isto esse incêndio.
 

 Mário Bortolotto
 

O maior autor de teatro em atividade hoje no Brasil é um paranaense radicado em São Paulo. O nome do cara: Mário Bortolotto. Meus amigos, o que esse filho da puta faz é puro punk rock em cena. É de nós, das nossas vidas que ele fala – e como fala bem. Chato? Jamais. A molecada lota as peças do cara em São Paulo (e no Rio, nas raras aparições dele por aqui) e sai do teatro uivando pra Lua, louca por umas cervejas e por uma vida mais autêntica. Seu diálogo é pura linguagem das ruas, com um trato artesanal que passa desapercebido pela extrema fluência dos papos entre os personagens. E que personagens! Em suas mais de três dezenas de peças, Bortolotto criou personagens dilacerantes, daqueles que a gente fica com saudade quando a peça termina: meninas com as quais a gente gostaria de namorar, caras com quem a gente gostaria de tomar um porre, gente que não foge quando ouve a vida chamando pra briga.


*

 

 

Ele tem uma companhia de teatro que faz todas as suas peças (nas quais ele dirige e atua, invariavelmente), o grupo Cemitério de Automóveis. Lá, além de outros atores e técnicos muito bons, trabalha uma atriz que já me fez chorar por três noites seguidas nas mesmas cenas: Fernanda D’Umbra. A menina tem uma qualidade de estrela que ilumina o palco. Faz a gente rir, sentir pena, se apaixonar, chorar pra cacete quando ela bem quiser. Sua atuação na belíssima A frente fria que a chuva traz destruiu o coração dos privilegiados que tiveram o prazer de vê-la na pele de uma junkie frágil, forte, demasiadamente humana.

 


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O Mário Bortolotto vive de teatro. Realmente. Isto é, ele está sempre com uma peça em cartaz, e vive da bilheteria, o que faz dele um dos únicos profissionais que eu conheço. Neguinho faz projeto pra grandes empresas, fica um ano esperando resposta, espera sair o dinheiro, faz uma peça por ano (ou a cada dois anos) e diz que é profissional. Não, não é. O Mário escreve pelo menos três peças por ano, mantém-se em cartaz com essas e outras do seu repertório, e vive realmente de teatro. Os caras que metem projeto no Banco e na Telefônica são amadores; o Bortolotto é profissional.

 


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Cautela pra mim é medo de errar.
 

Dr. Cascadura

 

Uma historinha. Uma noite eu e o Mário Bortolotto nos perdemos no metrô de Paris (estávamos lá a convite de um Festival onde uma peça dele e outra minha foram montadas). Estávamos indo bem, seguindo com aquele mapinha e tudo, mas sem sacar exatamente como, em dado momento nos percebemos perdidos. Deu meia-noite e meia, o metrô fechou e a gente teve que sair numa estação longe paca do nosso hotel. E foi assim que cruzamos a cidade de madrugada, numa longa caminhada de uma hora e meia, passando por todos aqueles puta lugares – o museu do Louvre, a Comédie Française, a catedral de Notre Dame, etc. Durante o percurso, enquanto eu olhava em volta, embasbacado, o Mário quase não erguia os olhos do chão. Quando muito dava uma olhadinha, soltava uma interjeição incompreensível e seguia caminhando rápido pra cacete e me deixando pra trás. Mesmo a Torre Eiffel não mereceu mais que dois segundos da sua atenção. O que o interessou em Paris? As lojas gigantescas de revistas em quadrinhos (onde ele passou tardes inteiras, lendo uma HQ atrás da outra, absolutamente compenetrado) e os sebos de discos (onde ele garimpou com extremada atenção raridades do rock’n’roll e do blues). Ah, e a mítica livraria Shakespeare and Co. (antigo ponto de encontro de escritores como o Hemingway e outros caras da Geração Perdida), e os bares, é claro, com suas Guiness e seus churrascos gregos que ele fez questão de comer pra comparar com o gosto do que consome usualmente em São Paulo (achou o paulista melhor que o francês)... Esse é Mário Bortolotto, meus amigos: ex-seminarista, mantém-se absolutamente fiel aos sagrados objetos de sua devoção – o tipo de cultura e de gente que respira em suas peças. Nada o desvia de sua rota fora de órbita. O cara é um monge fundamentalista, um fervoroso devoto, o único santo de verdade que eu conheço. A religião que ele professa não é da boca pra fora: é um estilo de vida, uma filosofia, um quadro de referências muito nítido, uma ideologia incorruptível. Coisa rara, bem rara hoje em dia... Quer você goste dele ou não, não poderá negar que o cara tem uma obra (já são mais de 30 peças), uma voz original, uma visão de mundo – e é de dramaturgos incansáveis e radicalmente comprometidos com o teatro como ele que nós mais precisamos.

 

 

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Quando a gente vê as peças de um cara como o Mário é que volta a perceber como o teatro pode ser do caralho, como pode ser uma coisa revolucionária nas nossas vidas, quente, viva, forte, poderosa, como o teatro pode ser realmente o centro do mundo. Basta ter coragem, um pouco de talento, manter os olhos abertos, não refugar o chamado das ruas e parar de babaquice.
 


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Nunca corra atrás de mulher ou de ônibus:
você sempre vai ficar pra trás.
 

Marlboro Man

 

 

 

Roberto Alvim, 30 anos, é dramaturgo, diretor, ator e professor de História do Teatro na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras). Autor de 11 peças, seus últimos trabalhos no Rio foram: PELECARNESANGUEOSSOS, Todas as Paisagens Possíveis, Qualquer Espécie de Salvação, Às Vezes É Preciso Usar Um Punhal Para Atravessar O Caminho, Vagina Dentata e Mundo Pânico. Atualmente exerce a função de Diretor Artístico do Teatro Ziembinski.

 


 

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