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guilherme zarvos


Kiko eu, eu kiko, kiko Ericson, Kiko Laurent – Estúdio do Kiko

 

 

Os Impadinhas eram uma galera eu Ulisses Fernando Marcelo e Rogério. Nos conhecemos a gente tava sempre junto no Baixo Gávea. Era 88, o verde da praça alucinava, as meninas também. Todos, sexys. Aquele estúdio que alugávamos em botafogo era em frente da rua parada pelas obras do metrô. Naquela época já sabíamos que éramos ótimos. Naquela época. Era o fim cobra. Início de nós. Naquele mesmo tempo começamos a conhecer pessoas que começaram a tratar a gente como artistas. Tinha um maluco que nos convidou pra falar nossas letras lá na Faculdade da Cidade. Porra! Foi meio sem graça mas além de agradar, o Antonio Houaiss ficou atônito. No dia o Poética fez sua última apresentação. Isabela. De ruas. Das ruas. Minhas nossas ruas. Das noitadas e da CAL. No dia a poética de cada um. Terça-poética com bambas e novos sambas. ssssssss. Evento de evento sem só necessidade de evento. Isabela. Vasques. Ximenes. Lomes. Todas vermelhas. Ruivo alucinante. Palco da cidade. Dentro: eu quero falar. Mourão, Gerardo: cúmplice. Financiando com o Fundo Rio. A merreca fundamental em Plano Collor. Resistência PDT. Isabela:. Corredor. Precisos prciso preciso...falarfalar....longa letra. Chico Buarque em performance interminável. Geraldo: - Guilherme falou no meu ouvido com sua voz de poeta ligado ao Olímpio, o que é isso, Isabela cantava cada vez mais como se estivesse possuída. O poeta insistiu depois de mais três minutos: Guilherme, acho que é melhor chamar o segurança – falou com delicadeza. Isabela, então revelou com seu sorriso de 16, 17 anos que era sua performance. Beijos para todos e alivio na mesa conferencista. Eu. Outros. 88. Exército. Sandinistas. Sexo juvenil...como ver o velório de Prestes sem sentir dor? Minha dor: não ser nenhum nem ninguém que esteja vivo em outro tempo. Amo. Por que tenho que amar... minha chegada no rio, movimento estudantil, OJL, molotov, greve geral, sindicato ferroviários. O plano era atravessar 3 ônibus na Brasil e parar a porra da cidade. Depois que veio a poesia. Essa coisa que era muitas, Baixo Gávea Miguel Couto Vera Fisher. Cep que era em qualquer canto, pai que mesmo morto e brigado com metade desta esquerda besta. Tava lançando livro do meu pai na ABI. Minha poesia começava lá. Tava no Impadinha, no gramado alucinante, quase cama, com Marcelo, Ulisses e Fernando e várias mulheres... algumas delas rolou bacana, várias. Seres protetores. Era ótimo quando rolava na cama praça lá no Postinho. Todos dias até as 8 da manhã. Cerveja sem Guarda Municipal e outras leis da Sociedade de Controle. A noite encontrava-se com o sol: sete vezes por semana... Isabella, Lollo,Claudinha, Leca, Carlucho, Maurição, Carlinhos Punk... comecei a me interessar por outras formas de arte,e ver que tinha muita gente do caralho fazendo coisas muito além do nosso mundo. Comecei a ver que tinha muito mais que o Rock... e isso nem fez me embolar com a rapaziada que caminhava para outro muno. O Baixo foi crescendo de maneira absurda. Já estava antes no território, mas vi o dia que após um CEP, final de novembro ou começo de dezembro e férias - a coisa bombou. Os bares foram ampliando por lá e nunca ofereceram uma cerveja. Nunca promoveram um evento da galera. Dinheiro e dinheiro. Se tivesse gorjeta, é claro. O chopp era caro e bebíamos sentados no meio fio e no jardim Santos Dumont. Lacerda sim, até hoje um Jentleman maior. Em 93, virar noite fazendo miguelito não bastava,. Tinha que ir me arrastar no baixo, Marcelo Pelicione, e todos esses que tiveram que tiveram que sartar fora pra não virar manada de partido, era noite, era todo santo dia, e o rio ainda era rio. Anarquia. Ralph, namorado de Gabi Duviver. Ralph, Anarco Punk, todo. Poeta de vida. Suicida de classe. Movimento vivo. Nudez no Acre. Dai-me misticismo e luta pela terra. Fazendo performance com banana. Eu ele, esmagando com uma borduna a matéria sólida de ferro. O esmagamento como nascimento. Manifesto do Planeta dos Macacos. Fim da CAL. Revolta saí com mais dez. Um coletivo de teatro contra o estabelecido. Teatro = vida. Nada de fazer cópias. Grupo Revolucionário Menino de Deus. No Arpoador alucinação 1991 de todos. Ninguém tinha visto tanta tocha, tanta gente, tanto espaço cênico. Grutas. Gatos cagando e correndo. O público como numa Procissão seguindo os Meninos Revolucionários. O evento promovido pela Prefeitura incomodando os visinhos do Arpoador teve o som cortado na hora do silencio determinado pelas Autoridades. Cláudio Monjope Antunes. Gênio inventor da música eletrônica carioca. Inventor de novos sons. Música total. Comendo Rimbaud. Carlo Sansolo, Claudia Pipoca , Ericson Pires. GRMJ. Desejo de invenção. O Evangelho segundo Glauber. Arpoador. Música. Teatro. Rua. Muitas Ruas. Naquele dia de cão ouvi com a rapaziada um tiro. Descemos. Era Mauricio estirado no meio da praça, perseguido e morto por um segurança do poder do fraco. Mataram Mauricio, tão jovem. Bar Sangres. O que se podia fazer era não mais botar os pés no bar dos acobertadores dos matadores. Na grama da praça, apesar das porradas era muito mais digno. Jane em final de 97 me casei. Tive Lucas. Faz 18 anos que toco baixo e mantenho meu estúdio. Agora Estúdio Túnel. Tenho saudade do Estúdio do Nanico e a sociedade louca com PA do Zarvoleta. Várias gravações de poesia para o CEP. Estão num mundo. Mais de uma dezena de falas precisas. Apareçam no estúdio túnel e no Penetrável CEPensamento. Estarei lá.

 

 

Esse texto faz parte de minha tese de

doutorado Branco sobre branco, em Literatura

 Brasileira, pela PUC-Rio, a ser defendida

 em junho de 2008


 


GUILHERME ZARVOS é escritor, boêmio e articulador cultural. Publicou Morrer (2002), Zombar (2004), entre outros. É co-fundador, junto com o poeta Chacal, do CEP 20.000, pólo cultural que, desde 1990, vem confluindo várias gerações de poetas e artistas do Rio de Janeiro.
 


 

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