revista

 

editorial

e créditos

outros

números

envio

de material

editora

cartas

dos leitores

links

contato

 

 

 

 

 

 

 

victor paes


a morte de Charles Chaplin



 

Uma máscara patética do rosto da mãe pende-lhe sobre os olhos, sob um pistom e o cheiro dos ovos em vinho do porto do pai. É a máscara que ela usa ao dançar para ele lá nas madeiras do sótão. Talvez a patética para não ser melhor que o amigo Wally, que fosse de vez para a casa dele, onde inquestionáveis chás e trens o esperavam, barcos e tapetes. Dançava para ensiná-lo que só assim se pode ganhar algo de alguém, ensinando a dançar. Mas, claro, com a dignidade de um professor. Agora, deitado ou sentado – que nem isso tirasse mais de suas pernas, tanto faz –, aquela máscara, parada, quanto mais parada, mais ar parecendo lhe levar, até recuar, voltando para a escuridão de onde vinha.

E a escuridão tanto facilita a dança, que tenho uma idéia: vamos compor, então, um roteiro de coisas, sim, caro Stravinsky, com Jesus tomando cruz em uma boate. E aí quantos bêbados se levantarão para tentar salvá-lo do palco? Você acha isso sacrílego, assim como Schoenberg não gosta da trilha de meu filme. Mas, caro Stravinsky, então vou trabalhar em coisa minha, pois não sei improvisar.

Ele se mexe na cama, como se chamasse pela mãe, que agora tem nome e sobrenome diferentes. Ela ajeita sua posição na cama, peso dos braços e travesseiros. Quando sai, a discussão é retomada em alguns pontos políticos antes: o fecho é a música sentimental o suficiente para retorcer os risos. Burros! Não interrompam o filme para elogiar as melhorias do próprio cinema. Querem que eu seja mais claro do que mostrar as ruas e sua gente? O que querem, um palhaço cego que fingisse a cegueira para a filha e a fizesse rir com seus falso-verdadeiros tropeções? No fundo, todos os meus filmes são sobre isso.

Ele se mexe de novo. Ela volta, olha da porta e pensa: que tipo de bebida amarga chegaria a beber depois de sua morte? Para ele, mesmo algumas das bebidas mais doces eram amargas ao ponto de não serem bebidas. No pai, tornaram-se água até rasgá-lo. Naqueles à sua volta eram sempre uma alegria tão insistente, que diria que todo mundo morreria um dia sem ar de tanto rir. Cena que daria um ótimo filme.

Ele respira fundo e abre os olhos. Uma luz esverdeada entra pela janela. Talvez seja dia, por tanto verde. Talvez seja uma lâmpada. Fecha os olhos de novo, de cansaço. De seu cansaço acordado. De camarim.

Olhando-se no espelho, seu reflexo seria agora o rosto de Nijinsky. Tentava pôr um sorriso naquele rosto nebuloso, mas apavoradamente não conseguia se mexer. Uma lâmpada do espelho estoura. Quanto mais tentava se mexer, mais lâmpadas estouravam. A platéia lá fora começa a gritar por seu nome. Mas não consegue se livrar daquele rosto. Até que a última estoura e com ela todo o espelho racha. E lá dentro Nijinsky, livre do rosto velho daquele comediante velho, começa a dançar por entre as rachaduras e vai se afastando, espalhando reverências a seres de outros mundos, dos quais entrava e saía com seus saltos à direita e à esquerda. Até não se ver mais. Dançar é um privilégio.

Dançar é saber dos dedos, do fígado, até onde ele permite o estômago. Saber do cruzamento e confluência dos esforços do corpo, das menores partes, mesmo das que não se sabe de onde vieram. Abrir bem as vértebras e os ombros e utilizá-los para seu mais generoso uso. Dançar é sonhar encontros.

Algumas pessoas não sabem fazer visitas. Falam baixo e levam mais do que trouxeram de biscoitos. E sou dos mais generosos: atenção nunca deixei faltar. Inclusive com poetas, não tão atenciosos apenas quanto os músicos. Poetas falam alto.

Caro Senhor Chaplin, o que terá nos cansado um do outro? Será que foram nossas línguas? Ou foi meu gafanhoto que soltei na América para aprender-lhe a língua? Ou foi um buda flutuando em um jarro de óleo, com sua pele de embrião? Ou porque você é um poeta da luz solar e eu da luz dos postes? Bem, não importa. Pois o nosso encontro não foi como quase todos os da vida, que não duram mais que cinco minutos, mesmo quando duram cinqüenta anos. Assinado – Jean Cocteau. O encontro entre os dois durou quase dois dias.

Dançar é sonhar encontros. E encontrar é sonhar nunca ter encontrado. Ainda que, e talvez porque, diante das coisas às vezes precisamos aprender e aprender a nos manter calados.

“Alguém desviou a palestra para religião e confessei não ser um crente. Mais que depressa argüiu Rachmaninov:

– Mas como pode admitir arte sem religião?

Por um momento fiquei desconcertado.

– Não creio que estejamos falando da mesma coisa – disse. – Entendo religião como fé num dogma... E arte é mais sentimento do que fé.

– Religião também – respondeu ele.

Diante disso, calei a boca.”

Agora, em sua cama, já está mais que aprendido que as ciências mais sutis do corpo (inclusive a arte) só podem vaticinar que um dia o corpo passa a se mover inexoravelmente para dentro de si, até implodir. Vaticínios, até que toda morte seja aceita, enfim, como um longo suicídio mecânico.

Ela entra novamente no quarto. Sem melodramas, fecha uma janela e nem o olha com medo de que fosse pela última vez a vê-lo respirando. E era. Talvez ele gostasse de uma música para esta cena, caso ela se sentasse a seu lado e segurasse sua mão. Talvez não gostasse e se levantasse gritando que gravaria tudo de novo. Mas não é necessário, basta um corte e que a morte seja apenas sugerida com uma flor ou um cachorro que se senta diante uma lápide. Coisas que serão outras coisas mais adiante, quando aquela morte será apenas uma necessidade do enredo, por motivos emocionais etc.

Assim, uma nova utilidade foi permitida a seu corpo já enterrado há três meses: abrimos sua sepultura e o seqüestramos para a ameaça de um resgate. E o escondemos em um milharal – este último detalhe seria chamado de requinte. Se nós fôssemos pegos. Ainda estamos aqui, esperando o momento exato de fazer contato com a família.

No dia de natal de 1977, a despeito de milhões de pequenos corpos que se agitavam dentro de milhões de úteros pelo mundo afora, com seus leves espasmos de expansão, Chaplin fechou-se para sempre dentro do seu.
 

 

 

VICTOR PAES é escritor, editor, ator e professor. Publicou, em 2007, seu primeiro livro, O óbvio dos sábios. Tem seus trabalhos em diversos sites de literatura. Escreve também para teatro e sua peça Mara em um quarto estará em cartaz durante o ano de 2008. No momento, prepara seu primeiro livro de contos. Sua página na internet: www.victorpaes.blogspot.com
 


 

voltar ao índice | imprimir

 

 

confraria do vento

 

 

counter fake hit page