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armando freitas filho


num espasmo brusco de músculo



 

Extrato

O perfume que escapa
é exato e facetado
tal qual o frasco
que o concentra e segura.

A respiração, rosa que não se despetala
mesmo sob pressão e descuido
é discreta, não altera as nervuras
da blusa, que mantém a linha, o corte
até o fim do dia implacável, duro
nem permite outro franzir
que não esse, de fábrica ou de costura à mão.

Mais tarde, libera algum desalinho: suspiro
gesto absorto de mulher ao pentear-se
pernas cruzando-se depois do banho
decote medido de dois botões
a nuca descobrindo-se, livre dos grampos
em pleno verão, com os cabelos soltos
no próprio vento
esvoaçante vestido frisado.

Tudo o que fica no éter é eterno.


Alegria e dor

O pensamento musical de Bach
- ária, aresta, cantata e fantasia -
ferido pela mão no cravo bem temperado
de Wanda Landowska, e tocado, pela dor
nas teclas, com sabor marfim, pelos dedos
de Glenn Gould, uma, duas, mil
e uma noite, até ao etc., se repetindo
na escrita reiterativa de Thomas Bernhard:
idéia fixa, infinito suicídio, madrugada adentro
nas inúmeras variações da vida interrompidas
e retomadas, maniacamente, rumo à perfeição
do horizonte, e que só param quando a fé desanima.
Mas a ponta de alegria e febre da alma à flor da pele
do intérprete volta à partitura, às invenções
em duas e três partes, às partitas digitadas
à arte da fuga, que não dá folga e escape à morte
quando as notas fazem a única música possível
do/e para o pensamento escandido de Deus.


Leonardo

Buscava na palavra a imagem
e nesta, a palavra que pudesse
figurar o pensamento que deu
a partida: cardume de peixes
que se anulam para armar
um múltiplo, onde cada um
é uma escama do corpo feito
por todos, que muda de direção
num espasmo brusco de músculo
e se aglutina em forma de seta
de ponta – de lápis, de pena
para desenhar-dizer, sem florear
o desejo de todas as variações.

 

 

ARMANDO FREITAS FILHO nasceu no Rio, em 1940. Foi pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa e na Fundação Biblioteca Nacional e assessor do Instituto Nacional do Livro, no Rio de Janeiro, e da presidência da Funarte, onde se aposentou. Publicou vários livros, dentre eles: 3x4, em 1985, Duplo cego, em 1997 e Fio terra em 2000. Em 2003 a Nova Fronteira publicou Máquina de escrever – poesia reunida e revista (1963–2003), comemoração de seus 40 anos de carreira. Recebeu, em 1986, com o livro 3x4, o Prêmio Jabuti e em 2000, com o livro Fio terra, o prêmio Alphonsus de Guimaraens, concedido pela Biblioteca Nacional. Em 2001 ganhou a Bolsa Vitae de Artes. Participou, também, de diversas antologias estrangeiras.

 


 

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