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moacir amâncio


sobre Yona Wollach
 

 

Dois autores distantes no tempo e no espaço, entre outros, convergem e indicam antecipadamente a direção que a poetisa israelense Yona Wollach (1944-1985) seguiria, filiando-a tardiamente – também um modo de encontrar a originalidade num universo que se banaliza – à linhagem dos vates, os poetas-profetas ou profetas-poetas. Um deles é Blake, que em seu Matrimônio do Céu e do Inferno “cita” Ezequiel: “... nós de Israel ensinamos que o Gênio Poético (como agora se chama) era o primeiro princípio, e todos os outros eram simplesmente derivados...”. O segundo é Bataille:

 

a religião não passa dum efeito do gênio poético. Nada há na religião que não esteja na poesia, nada há que não ligue o poeta à humanidade, a humanidade ao universo. Geralmente, um caráter formal, fixado, subordinado às comodidades dum grupo (desta maneira às necessidades utilitárias ou profanas da moral) afasta a figura da religião da sua verdade poética; também a poesia é formalmente entregue à impotência dos seres servis (Georges Bataille, A Literatura e o Mal).

 

Tendo crescido num ambiente que se movia pela força ideológica e se tornou um remanscente tardio do construcionismo modernista, ela partiu de forma aberta contra os compartimentalismos e a instrumentalização características da cultura ocidental. A partir da cena que vivia, operou um diagnóstico da cultura dominante, marcada pela polaridade das dicotomias a cisão entre o nome e a coisa, entre o bem e o mal, entre homem e mulher.

 

Enquanto o laicismo dominava a grande maioria da população e seus intelectuais, ela se voltava para o misticismo. Passando pela Cabalá e incluindo símbolos cristãos num judaísmo difuso que tem ao fundo a imagem midráshico-cabalista da bissexualidade adâmica. É o caminho rumo ao casamento de céu e inferno, da união dos contrários, e isso a partir de sua prática diária de vida. Negou-se a seguir o trem de vida comum: escola, trabalho, casamento. Abandonou o ensino médio e nunca obteve diploma superior. Também nunca trabalhou para valer. Ocupou-se de poesia, escrita, recitais, publicações. O resto era sexo (bi), álcool, drogas e loucura – foi internada duas vezes. Viveu e morreu com rapidez: aos 41 anos foi embora, vítima de um câncer que começou no seio e ela se negou a tratar, confiando em pensamento positivo e chás exóticos. Quando resolveu ir ao médico era tarde.

 

Sua obra reflete isso. Um pequeno vulcão: detonava os valores tradicionais e propunha um modo próprio de viver e escrever que chocou o ambiente israelense social e cultural. Quebrou tabus de comportamento e de linguagem na poesia, inscrevendo-se na linhagem dos poetas malditos. Seus textos afrontam o bom comportamento e os valores de qualquer religião. Na verdade, Wollach assumiria o papel da restauradora fora das normas. 

 

E temos o fato de Wollach se movimentar dentro do idioma hebraico em uso franco e irrestrito – uma língua que só voltou à fala no início do século 20, com o projeto da criação de Israel e a decisão retomá-la após quase dois mil anos de silêncio. Numa língua em uso integral, as palavras se gastam, como se sabe. No dia-a-dia, ela esbarrava com as dúvidas a respeito do sonho sionista, passado o momento heróico da implantação do estado: guerras, tensões internas, a manutenção de binarismos que se perpetuam e que disparam suas interrogações. A Utopia buscava um novo modo de dizer e foi isso que ela buscou, inscrevendo-se como uma nova estrela das lendas modernas de Israel.

 

Hoje, Yona Wollach é considerada uma das principais autoras da literatura hebraica na atualidade. Renovou em matéria de comportamento e linguagem. Seus poemas, nos quais mistura os gêneros masculino e feminino, detona liturgias e a gramática, colocam-se na linhagem que começa com Baudelaire e Rimbaud, passando por Whitman e os surrealistas, sem contar as referências existentes dentro da literatura hebraica: ela se coloca tanto contra como a favor.

 

A pornografia é um recurso praticamente natural, usado para desmontar clichês com humor, sadismo, etc. Num de seus poemas, por exemplo, descreve a cena em que uma mulher, ou boneca manipulada por cordões, veste-se como uma espécie de Chapeuzinho Vermelho e vende morangos. Graciosa, oferece morangos para cair direto no sexo do narrador. Em outro, numa igreja, a narradora desanca o namorado que se nega a fazer qualquer coisa com ela no local – o padre é mais sensual do que ele, porque mais humano, sugerindo-se uma relação a três. E também há Jesus, etc.

 

Aos poucos, Wollach começa a ser conhecida fora de Israel. Existe uma coletânea em inglês e um estudo de fôlego sobre ela. Eu venho estudando sua poesia e concluí um longo ensaio a respeito dela, para publicação em breve. Suponho que será uma surpresa e um encontro com a vitalidade poética de todos os tempos.

 

 

MOACIR AMÂNCIO é escritor, jornalista e professor de literatura hebraica da Universidade de São Paulo. Traduziu trechos do Talmud reunidos em publicação da Iluminuras, além de poemas medievais e contemporâneos. De sua tese de doutoramento saiu o livro Dois palhaços e uma alcachofra, sobre o romancista israelense Yoram Kaniuk, com incursões sobre a arquitetura de Frank O. Gehry, no âmbito da expressão judaica contemporânea. Publicou os livros Do objeto útil, Figuras na sala, Ata, que reúne seus livros de poemas publicados a partir de 1992, entre outros.

 


 

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