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ana b


viagem nas entranhas do mundo sentado

 

 

 

havia uma viagem nas entranhas do mundo sentado // da espera // da antiguidade da pele*


e as articulações regiam-se pela espécie mais oculta
dos líquidos
 


a equação do malabarismo embrenhava a artífice do sono


na arqueologia descoberta das línguas dedilhadas // da bactéria gramatical // do perigo sossegado-sussurrado #


até a entrada nos pórticos salgados dos últimos continentes ligeiramente despertos/dispersos


na gestação dos imensos ombros acessos


 


* escolher uma ou várias
 

# adicionar mais

 

 

 

***

 

 

NÃO. (há) acorde(a)s na madrugada do tempo desventrado

as fissuras do mundo aguardavam-se perplexas perante a invenção

da passividade


a frágil sucessão da fome


o peso nos tendões da fome


a ânsia incontrolável da fome


o pesado urbanismo da fome


o mais recôndito esquecimento da fome


as montanhas vertiginosas da fome


os gritos engolidos da fome


o pensamento distante da fome
 

 


evacuam-se os ossos >> destilam-se as feridas >> degusta-se a língua >>

 

mastiga-se a saliva para fazer de conta(s)


] ou sim ou sopas [


] ou vertigem ou milagre [


] ou sustento ou salvação [

 

 

 

***

 

 

partindo da ausência do cosmos [entalado como está numa vagem de carvão] na linha insidiosa de certos planaltos da mente [em que o som quase se abafa] ficaria agachado um alpendre na espera ~ o século dos órfãos
 

<^>


a visitante de cordão gritava junto ao relógio de ninho onde o ouvido multiplicado pelo eco lombar de um abraço [ora contido ora expandido ao limite dos otólitos] era a crença sem cura na acústica das cordas (e)l(e)avadas
 

<^>


quando ér(r)amos (d)a falésia não entornávamos líquidos pela calvície das bestas nem pegávamos pelas pegas das terras acesas por baixo das bacias dos peixes fundidos onde as gárgulas aprisionadas abriam de súbito o sobretudo do tempo ~ retínhamo-nos antes na nitidez dos bilros onde tecíamos padrões de noz e canela e uma ilusão de milagre. na lâmina.

 

 

 

***

 

 

#pelo cair há a proximidade de um mecanismo causal ou a boca do monte aberto pela espinha não lhe retirassem as almas de dentro ao vapor dos dias quase-quentes e a alucinação não seria pela porta nem pela fresta por onde sobravam os vácuos – o dobro da razão de um arquipélago quebrado em malhas ao norte


e seria sempre pela memória de um insecto inclassificável – uma imitação do peso das coisas sobre a balança das pálpebras


#pelo cair na solidez do brutal tamanho dos oceanos haveria a geografia recortada de uma passagem arqueada onde a arquitectura se expande para além das constrições do espaço


e seria sempre pela lembrança do termo ¨¨ pela elasticidade de um momento mundano


e quase terrífico da elevação da luz

 

 

ANA B é uma poeta e tradutora portuguesa. Tem poemas publicados em revistas e antologias. O seu primeiro livro de poesia, As Patas Posteriores das Pulgas, foi publicado em 2007. A sua página na Internet pode ser consultada em www.ana-b.com.

 


 

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