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joão vário


exemplo maior - canto terceiro

 

JOÃO MANUEL VARELA, pseudônimo João Vário, nasceu a 7 de julho de 1937 no Mindelo, ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, onde faleceu em 8 de agosto de 2007. Estudou medicina em Coimbra, Lisboa e Antuérpia. Cientista de renome, desenvolveu suas investigações em neuropatologia e neurobiologia, tendo sido o descobridor de uma síndrome a que se convencionou chamar "Síndrome de Varela". Poeta, contista, romancista e ensaísta, Varela usava como pseudônimos João Vário e Timóteo Tio Tiofe (poesia) e G. T. Didial (ficção e ensaios). Fundou, em São Vicente, a Academia de Estudos de Culturas Comparadas, AECCOM, que publicou vários números da revista Anais. O autor publicou diversos livros, como O primeiro livro de Notcha (1975) e O segundo livro de Notcha (2001), e a série de "Exemplos" - Exemplo geral (1966), Exemplo relativo (1968), Exemplo próprio (1968), Exemplo dúbio (1975), Exemplo precário (1981), Exemplo maior (1985), Exemple restreint (1989), Exemple irréversible (1989) e Exemplo coevo (1998), além do romance O estado impenitente da fragilidade (1989) e dos dois volumes de Contos da Macaronésia (1999). Sua obra é considerada por grande parte da crítica como uma das mais complexas e ricas produzidas por um escritor cabo-verdiano.
 

 

Partíamos para o norte
para medir a excelência, o seu peso de deus húmido,
ou essa expectativa que informava sobre a nossa essência de homens.
E explicávamos: “vereis que não regressaremos senão
para aumentar o sentido da exuberância”. Porque
é ali que a semelhança ata o coração
para falar da sua gravidade intempestiva: olhos, palmas,
grãos, favos, ávidas bocas que ouviram
ou disseram o que a exigência entorna sobre a comparação.
Acaso será assim que a alma esgota
a sua eternidade?
Nomeávamos, afinal, essas razões
como se devêssemos levar a conversação
até ao diabo que, então diria (di-lo-ia?)
que a nossa pobreza é a sua foz ou a sua erva rasa.
Di-lo-emos, em todo o caso, nós mesmos. E recuperaremos,
ao pé dos signos, da invectiva, o insólito índice
- isso que alarma a abundância como
a necessidade ou o vínculo.
Eis o que o nosso tempo levará longo tempo
a espreitar das nossas costelas, as diminutas,
como se a intermitência fosse o lugar maior da intervenção.
E, em verdade, em verdade, como não será o destino
essa vaga que a intermitência,
primeiro socorro ou a espuma toda,
explica com a ambiguidade primitiva ou a argila em pânico?
Sublinharemos isto: só preferimos aqui
os versículos da penitência e dos salmos
para abrir os braços
e deixar escapar os torrões vivos, a mesma exaltação,
da terra do nosso julgamento (será ela longe do norte?)
o resgate e a pena. Porque aqui
poderíamos ficar para sempre
recapitulando esse hálito ancestral
que estraga as vidas e as coisas
como uma noção do espanto
que faz menos da vida do que faz da vida a nossa vida.

E, por isso, permaneceremos reversíveis
ou, talvez, menos cruéis do que a morte nos quer,
ou menos sobreponíveis
ao itinerário que a reminiscência
traça de nós sobre este mundo. Tal a outra argila em pânico
ou, antes, adversa, essa salvação frustrada.

E dizer que havíamos amado, quando jovens, a ambivalência!

Entanto, falaram da preponderância,
discorreram sobre a indignação, a força de carácter,
discutiram a forma e a disposição das sepulturas
e descreveram, frenéticos, o risco
dos corpos e dos destinatários.

Aquele que lança uma tal âncora
para parar o movimento dos olhos, da erosão do espírito,
não ergue a grande tábua das contas
para nos crucificar mas para alargar a feira que nos coube,
esse pedaço da alma que estruma o universo
e nem é já cemitério porque não sabe
alargar a oportunidade
nem pôr a dor em estribo propício.

Homem, ouve a tua singularidade
mas não jogues pelos sepulcros
os dinheiros da tua sina,
que lá onde a angústia te troca, se nasceres de novo,
todos os arautos te cegarão: serás
a única testemunha de ti próprio.
E a capitulação, o tipo de perícia que instala
as coisas na nossa vida,
se ficamos perto dum tal explícito delito, trazem
às gavetas, ao tráfego da nossa precariedade,
o tamanho da notícia: elas não servem de aviso.
O trajecto, o obstáculo, o nível da perda
E a ramificação, todo o grito

- eis os bens da primeira mão, que atamos
enquanto o relato da segunda deixamos chegar
perto da opacidade, esse íngreme limite
que a analogia nos devolve
e detemos, porque é importantíssimo, o pagamento
entre o desespero e a paixão, e essa teia se abre:
há-de continuar pelos nossos perigos fora.

Ó graças, que vindes pela melhor das vivências,
por que lavais com esta má água a preferência?
Reflectimos sobre esta ameaça
sobre o rio, sobre a ternura, sobre o corrente ano,
esta como ausência de plano ou de apetência,
mas vede bem, entendei bem, é hoje
um dia em que João se sente singularmente mortal.
Será que o tempo não traz senão lodo
Quando regressa, vasculhando, da alma?

(Guarda sempre contigo, apesar das vicissitudes,
esse desejo da excelência: não há
melhor companheiro do espírito.
Acaso não será ela, a excelência,
o espírito do espírito, que esses alcaides
do espírito preconizam?
Porque tal a presença dos grandes mortos
que protegem a tribo, essas coisas que preferimos
e que ouvimos descer amiúde pelas emoções abaixo,
para decidirem dos nossos ímpetos, como uma glória estranha,
proteger-nos-ão contra deus e trarão esse arrojo gratíssimo.
Contudo, não há que rezar por elas:
a grandeza ainda não melhorou o homem!)

Outrora quando o privilégio e o prestígio acorriam
ao socorro da insuficiência,
podia-se asseverar que todos os amores são legítimos,
que todo testemunho é um degrau da vaidade
e que nada se refaz partindo
com um tão sumário alforje à procura do Inverno.

Penetrar o âmago duma estação,
penetrar sem devastação como quem sabe que a graça
por vezes dói, é deixar essa medula onírica
continuar pela restrição e sem rumor da admoestação.

Eis a forma elementar de ouvir as mágoas.

Assegurar que todo o assombro é um óbito leve
como a perna que antigamente parava sobre a semente
e não nos prosternávamos para venerar
mas para ressuscitar a veemência
ou, digamos, alugar o seu quintal afortunado,
porém que ouvir desse clamor anterior
se vivemos por esse prazer
inóspito ou maligno da fascinação
como uma grelha ímpia
ou esse alívio de coentro fortíssimo?

Passamos ao lado da alma como
se não fosse já essa conclusão aflita,
ah mas como garantir que é ali e não aqui
que o dilúvio será menos fatal,
agora que todas as portas se fecham
sobre os melhores anos, o suor branco,
a réstia de verdade eleita e o outro escândalo?

Aquele que olha para o seu passado
sem cansar a sua vida, sem obter
do medo uma carta fictícia de alforria
porque é árbitro das suas promessas e do seu isolamento,
e o tempo ou as quimeras não são portas do seu tumulto,
aquele que traz nas pregas da sua surpresa
ou da substância sua esse favor que se diz intermitente
e que permite cortar o destino como um queijo tenro,
um queijo que não dá volta à amargura mas adere à estupefacção
e é outro ou o mesmo, porque o fervor o distingue do terceiro espólio,
aquele que não vê esse gosto do despeito porque segue
rápido, a caminho da sobrevivência
para falar dos ázimos e benzer os pratos mais pobres,
tal a sua ciência é um ardor refutável entre limões
ou ambíguas presenças como fontes onde a doçura vigia,
fende corpos e empresta deuses para segurar pesados braços,
aquele que diz “eu não vim para triunfar,
mas para inquirir sobre o teor da persuasão,
dar à natureza uma queimadura viável
e evitar que o vinho se lembre do timbre pérfido”,
aquele que se manifesta sobre a ordem múltipla do êxito
para preservar a susceptibilidade com tâmaras veementes
e avisar a posteridade da arrogância da culpa,
aquele que conhece a sua fraqueza
e não despe com mais de duas mãos
não a ouve tão pouco mais ouvidos do que permite
a essência das coisas, a penitência assustada,
mas é de alto a baixo o inquérito sobre a alternativa,
mar rolado continuamente sobre o seixo exterminador,
ah vo-lo-dirão, enfim?
aquele que conhece bem a sua origem
é um homem que passa, leve, entre
os sinais da terra, que permite
aos seus olhos uma celebração contínua.
Ele não caminha de dia e de noite
entre a ruína das palavras e das visitações:
está parado entre duas carnes, tal a beneficência,
porque o seio do seu futuro
se apodera como uma ordenação da sua jornada
e, para lá do sábado, ele colhe e come entre juízos.

Por que repetiria ele, hoje, que está fechado
como tais úteros, que quem o abrirá
caminha pelo deserto para conhecer a excepção?

Em verdade, em verdade, é um homem
A quem sucede sair fora da alma
Para anotar o que ela escreveu
sobre a contradição, olvidando o seu espírito
que é a tal hospitalidade premeditada e descura os vaticínios.

Admitires vós que destas coisas não se sabe mais
nem menos do que a súplica
que as guarda em vinho tinto, por amor do desânimo,
como é bom que a paciência tenha a sua boa lua
entre os vasos inspirados da caridade?
São vasilhas sucintas e guardam gestos efémeros, é certo.
Porém, nem tudo se espelha na igualdade arremessada
ou na maneira de refazer a periferia ou o centro,
como se se volta de lado para esquecer os danos do pressentimento,
o equinócio vivido, a via mostrada aos impenitentes.

O que aqui se diz não informa sobre os medos reais.
Contudo, quando a fortuna nos começa entre tantos sismos,
mais do que a vertente do juízo
somos o exíguo jogo que aprende o horizonte
com várias brasas de sol e de tormento.
Para descer com o mesmo ganho até à transcendência.

Ah, sim, a vida faz o corpo menor do que a consciência.
Tal o pão avivado pelo jugo inefável da serpente
se reparte pelas duas metades da estranheza
e ferve com a criatura, aumentando o golo da bebida
e rematando a substância de tudo o que fica a desdizer
a divindade com um melhor adágio para o nascimento.
Tal lugar é também o espaço da idoneidade.
E, medido entre o selo e a senha,
é do tamanho da prece ameaçada,
do figo secado sobre o destino, como a divagação.
Evitando os linhos para regar também
a boca e o cimo dos prazos,
construímos para diante da apreensão, deixada nos acordos,
o domicílio aonde se irão banhar em lágrimas
deus e a quimera, rodeados do estrondo da carne
e da linha de cozer da afirmação.
De nada serve afastar o grão da mostarda
da saliva cuspida com as traves da casa.
Construímo-la, ontem, para abrigar a confiança,
evitar a ambiguidade, retirar um pouco de paz
da planta dos pés. Porquanto a nossa cabeça
vai cada vez mais atrás da escuridão.
Mas, hoje, que os nossos sonhos
parecem esquecer a doçura do seu tecto
e as lágrimas que os dois hóspedes
acrescentaram à cruz entreaberta
tal o meio do leito que não dá o adequado repouso
nem à carne nem à terra nem à verdade,
esforçamo-nos por desejá-la com a mesma intrepidez
com que fizemos entrar deus e a quimera entre as suas empenas
para ficarmos um momento a guardar
a revolta dos olhos e das bênçãos
no seio do entendimento.

Por certo é em vão que o paradoxo passa para o lado da
anunciação:
não fomos feitos para amar as coisas
mas para as observar
do galho da plenitude e com uma identidade dividida,
já que nem tudo empresta à comparação
o crédito da sorte ou da turbulência das uniões. Como
poderá, pois, a veracidade
inventar uma melhor piedade para o olhar,
uma outra distância para a sua unidade?

Ó fardos que gostaríamos de ameaçar, porque não partis,
erguemos agora o cálice cheio
e não é a crista do galo do sacrifício,
não é o sítio do espírito que pede para ser redimido:
apenas o domínio da sede que transporta, transportará
a enfermidade da terra para o canto mais tépido
dos voos, lá onde armais os pactos
para vencer a alma e deixá-la estarrecida
à procura dos bálsamos e das folhas admiráveis,
que vos protegerão, porque não a protegem,
da sua aproximação, para os recriar, dos ovos espalhados.
Virá um tempo, contudo, em que
abrirá as medalhas
para ouvir o vosso urro atravessar
a meada de assombros que ela lava com o cálice.
Esse tempo será decerto o precipício da lixívia,
da coisa que lava e é lavada
como é o princípio de todo o verbo
gasto na haste vinculada.
Que púlpito é assim cúmplice da consolação?
Vemos as faces negadas, sujas
de mau sono e de má solenidade, crepúsculos arredondados
sobre o desfalecimento ou dispersos pelo regresso da complacência,
e dizemo-nos que o espírito dispõe, apesar de tudo,
de aroma mais forte que o prodígio.
È uma vasta lavoura esse caminhar da solicitude
pela carne atrapalhada.
E as glórias vivas, as ânsias periódicas e a fantasia,
se carregam a alteração até à sua pequena chuva,
sua larva espreitada de poucos ângulos,
é porque nenhuma sutura
conhece duas vezes o mesmo óleo bento e o lagar da consciência.

Houve tempo bastante, com a gratidão, para estimar a razão.
Eis por que esses timos leves de que se nutre a possibilidade
solicitam o nosso selo com o tributo
que pesa o ouro e a cobra do vinagre
como um eterno medo do renascimento,
uma súbita ferida ao lado da diversidade ou, melhor ainda,
como um braço roubado sorrateiramente ao corpo da classificação.
Continuará a contrariedade a vender a dureza ao preço inicial,
ao preço das renovações magistrais?
(Voltada de lado sobre o adobe perpétuo,
a capacidade, porque data o seu defeito e o seu deslumbramento,
evoca o sibilino esforço da temeridade
galgando as nossas cinzas e o fermento amaldiçoado.)

Por certo pouco soro aduba a reversibilidade.
Porém, quanto opróbrio não pesou as nossas ficções
deixando os pratos da balança
descer abaixo do nível do fogo indescritível?
Era, contudo, o fogo que, à esquerda da alteracação, lembrava
o que há de exacto
na maneira de identificar a espessura do homem
com o esforço do óleo sobre a charneca maligna:
o que é invisível é fruto do perdão
e um melhor alastrar da incandescência.

(O mistério molesta a distribuição dos votos
lá onde a lassidão é a perfídia que mais ouve,
a ternura arrasta o seu frequente estio
para o meio da linha vazia do atabalhoamento
como para salvar a história da injúria ou da incomodidade
em dois movimentos de flor larga,
a verdade é dura mas habitável com a ajuda
dos primeiros vácuos da certeza,
ou dos remédios do corpo, em poucas tiras alugadas,
o silêncio move-se com a sombra de desígnio
para escolher na fibra fumegante
o género da sua dúvida, da recrudescência,
o desassossego, que considerávamos há muito
o enzima por excelência, entrega à razão
um sortilégio desmedido
e define assim o rigor alheio ao pavor,
e o receio, ah o receio acorda os grilos finos do grito,
maneja-os de encontro à infalibilidade, mistura-os
com esse mel que abandonamos às vezes
pelos desvãos da alma para confirmar os malogros,
tal quantia, tirada da corda velocíssima, que faltava,
porém, as bandas das vagens, que nos redobram,
não fecharemos nessa hulha, onde a dor, como uma colher,
é retirada da boca da vicissitude
para seguir com o cordel de medir
até aos limites da predestinação, da evasiva,
ou até à eira onde a atrapalhação arregaça
as mangas funestas e é o trigo bruto.)

E, se olhámos para trás
foi apenas para verter na barra de sal
um órgão mais alvo que a adversidade.
Porquanto não pusemos no meio da inquietude
a orelha pesada para evitar
que enchesse com a sua sêmola arguta
a outra queimadura.
Também essas entradas são vigiadas pelo ardor
tal os pecados da grandeza são como espigas perpétuas:
não desesperam do comedimento.
Será o regaço, recrutado com a relva, que sabe a hóstia viva,
que recomendará ao desafogo
uma arte mais fina, derivada da propiciação,
para reinar com a posta de peixe assado e o favo de mel?
Acaso não será essa forma como o vinho dorme,
sacudindo-nos pelas têmporas, após a eucaristia,
que nos faz baixar o olhar até à nossa pele para avaliar os nós da
solidão
e contar com os panos raiados de pressa
e de sentenças deste mundo, alfaias acometidas?

Esclareciam: “mesmo que o anjo
medite a sua guarda sem o recipiente e a espada
que melhoram a festa, afugentando o sarcasmo
e evitando as inaugurações prematuras,
cabe à falta reiterar o que há de mais inócuo.
Ele pôs, contudo, duas parcimónias sobre a via das fulgurações:
uma a precedência explora; a outra sopesa a motivação.
Tal os antigos limites da cruz e do prego.
E o triunfo, exarado nos membros, revisto
pelo algodão e a cera teologais que protegem
as saídas da irrealidade,
reinventa o mesmo caos vivificado: o homem sabe
que deve sagrar a sua própria fome. Por que dividir, pois,
a pureza em franjas atónitas?”
Imaginas, então, que a quietude, os rins molhados
e os calcáreos míticos que a ferida pôs de lado, porque não vê,
não adora o fulgor,
clarificam um pouco a tua fragmentação
(como a loquacidade é um modo de o corpo
se abater sobre as trevas e ficar quase intacto,
embora com uma saliva apedrejada),
porém, sabendo que ignoras efectivamente o preço da
indemnidade.
O sonho fica, em geral, ileso, é verdade; mas se o homem
se afasta do cadinho primitivo,
quanto espanto poderá, para aquecer a advertência,
retirar ainda do rebordo dos pés?

Dir-vos-emos que não necessitamos apenas
das fadigas da ressurreição:
desejaríamos merecer também a unção extraviada.
Porquanto nem toda a premência semeia o nosso pão
atrás da Páscoa nobilíssima como a mensagem ambulante
que falte à trova e à póvoa
para avaliarem as reincarnações.
Tal testemunhar sobre a passagem da peculiaridade
põe o coração a arder entre vislumbres baixos, diluído na
imortalidade
como uma ilha que sobreviveu à estupefacção.
Consta que não se trata, contudo, do melhor óleo.
Apenas do mais caro e mais ubíquo.
Como jamais a faca nivelou tão pouco
o morrão na chama avançando nos candelabros
que iluminam os eixos da profusão e do recomeço,
que conhecem e desdenham os gumes deste mundo,
desde a faca simples, a faca da facada,
até à faca mais galardoada, a faca da eternidade, a faca da cópula.
Ah tudo o que se dispersa pelas falhas frias,
mitigadas ou não pela serenidade,
semeia algures o mesmo clarão vizinho dos sinos
para permanecer por mais algum tempo
o centro, transfiguradíssimo, da cura da mesma compreensão.
É também quanto andou como sangue
pela ourela das pacificações com um vetusto ancinho.
E pensar, como se certifica, que não perdemos na dúvida
mais do que a metade do sopro miscível!

A aurora sacode a sua luz sobre
estes pós todos, os botões e as gravatas,
relíquias de uma época sem manifesto arrependimento,
em que João e as coisas optavam pela mesma fragrância,
essa que desposa as linhas da mão e sabe carpir:
perdoar a fraqueza é a ultima tarefa dos pasmos,
e os signos, se corroboram, respondem
com o azedume mais perto da faca.
É esse momento da desgarrada agitação que elegemos
para passar para o outro lado da interrogação com a aridez.
Porquanto é a destreza que nos sonha. E a reiteração sagrada.
Os cilícios descem até aos três quartos da utilidade,
são o que há de mais chegado à ambivalência,
dormem pelas rugas enigmáticas
mas acordam com os punhos e os dogmas, com a qualidade,
para duvidarem do recato e do proveito da aquiescência,
enquanto é dobado, se não morre, o pé da exortação.
Tal o homem (repeti-lo-emos ainda?) é também
uma comoção distribuída pelo socorro
e estas pedras impelidas, estes passos barafustados
a efervescência colocam onde é a fruta,
porém, só a fidelidade é o resumo da força de sarar.
E eis que se inquietam: “chegaremos a tempo
para o leitão da prudência?”
Tu, que fazes da ilusão um cio tão temível
como a língua do adivinho ou a lenha da inquisição,
estarás pronto para o enternecimento, para a renúncia
ou para a condescendência, volvida amêndoa desesperada,
lamentada pela espiga que a olha desde o pântano comum
onde estão os dois corrimãos da presença, da exaustão
pendurada?
Afigura-se que a fé perdida vai mais longe que o seu augúrio.
Mas a terra, que mete, quando é aprazível.
que sabe, afinal da indeterminação?

Adulamos os suplícios da significação, é certo.
Mas se o silêncio é de toda a granja
que apanha as fendas do tempo para as melhorar com o milho
e a bilha deslumbrados,
serão todos os rodeios inolvidáveis da morte
exemplos do prestígio da criatura?

Insistiremos ainda sobre as versões da rigidez e do mérito
não para as confrontar com a morte, que as sabe de cor,
mas para contar os óbolos gritados
sem a candura habitual,
que os iguala ao oiro, ao incenso e à mirra,
como se a bem –aventurança ainda fosse aliada da sabedoria.
E, assim, diremos: “ não ergais os óbolos acima dos destinos,
que o corpo é a servidão menos clara
e toda a oferta é uma resignação multiplicada pela volúpia”.
Será também o tampo do futuro amedrontado
como não sabemos tão pouco traçar
com os carvões ardentes o percurso da docilidade?
Ah mas se água falta na bilha, que desceu perto
do verão para avaliar a força do rio
ou o vigor do braço que com a caneca relutante a enchia,
sisal na uva ou na gota, como a vantagem
ou a desgraça de morrer por toda a parte, em qualquer parte,
é útil saber que nada se renova sem uma moeda imprevisível
que pode apoucar o óbolo e o mérito, ou o privilégio
de dizer à morte que o chama
para a tornar testemunha ou artigo da desavença conjunta
(do rio, da gota, da bilha e da vantagem)
Que escapa ao seu conluio com o homem
e ao estragar da servidão e da frequência.

Por certo é esse prémio muito acima do valor da virtude.
E a eternidade que nutre pela caneca relutante,
como por toda a chaga proeminente,
um circular desdém, porque é azáfama sua,
cita, então, o homem com a ajuda da água estremecida
como o lado dificílimo das adesões intermitentes.
Porventura é por ficarmos inermes
ao pé da certeza
que a verdade nos julga tão vulneráveis?
E que a cumplicidade é essa que, homens, vemos
dum lado e doutro da nossa linhagem
e se vende tão bem com as reminiscências?

Ah as despesas do ser acumulam-se nas sequelas das evidências,
tal como um cachimbo que a probabilidade
encheu de seu tabaco suavíssimo
para reduzir deus à imagem das cinzas
e à semelhança das arremetidas do fumo,
como se o calor que resultasse do queimar dessa rosa,
distraidamente amontoada,
desvendasse também a sapiência do fornilho
e o jeito de a pipa apalpar a realidade com a fumaça
ou de a refazer de certo modo. E, lembrando-o,
ocorre-nos estoutro controverso pensamento:
tudo depende do resfolegar da terra
sobre o grão da semeadura
e, se estamos vivos, é porque não há decerto
outra forma de ela engrossar tais cinzas
e de depender connosco das evidências
até ao ponto em que as sequelas favoreçam as sequelas
como o jogo indestrutível
do adubo vivo sobre o adubo ainda vivo.

 


 

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confraria do vento

 

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