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marcus alexandre motta


lembrete aos estudiosos de Fernando Pessoa

   


 

para Thiago e Paula

 

Justo aqui, é imprescindível admitir uma maneira de ler os escritos “Fernando Pessoa” que não se faça de método ou dose exeqüível de informações que atribuem competência à artisticidade manifesta na obra sob essa assinatura. Quando assim digo, é porque há, aqui, um lembrete a estudiosos que parecem nunca compreender que uma escrita, sobre uma poética de elevada competência, deve pôr em risco o que se espera saber, de forma a distinguir, como experiência total, os princípios da autonomia do saber poético.

 

Ora, a obra de arte literária “Fernando Pessoa”, durando, autônoma, mais do que a crítica poderia querer, exige uma leitura apta a buscar a verdade que a faz o que é; retirando de pauta um posicionamento que diz o que ela é por não suportar sua dignidade artística, reduzindo-a a simples factum; gesto bastante típico ao comportamento de tantos estudos dedicados a Pessoa. O que quer dizer que a obra “Pessoa” determina a sua leitura como uma obrigação da inteligência em reconhecer a sua força de verdade, ser arte, que segundo a sua lei artística é dramática no rigor e outra sempre. Por conseguinte, se há obras de arte, como a “Fernando Pessoa” (que se revelam duráveis), é porque são elas, justamente, as que têm a verdade mais profundamente imersa na sua artisticidade. Ou seja: ser a objetividade íntegra da arte — cujo corte temporal da leitura vê, ou deveria, elementos reais que batem à porta do mundo, exigindo existir apenas de seu saber autônomo.

 

Ver a força de verdade e a imersão na sua artisticidade — mesmo que neste caso o fingimento seja a atuação de sua gravidade artística — é ler a obra “Pessoa” refletindo sobre o que na arte fala. Eis o seu verdadeiro sujeito, e não o que a produz ou a recebe. Se esse fenômeno é mascarado pelo eu da lírica, imposto quando se fala de poesia, provocando a aparência de evidência da subjetividade poética, é porque essa voz se oferece fácil e encobre outra que fala lentamente num poema: a artisticidade da arte poética. E como uma artisticidade é uma latência que deve variar qualitativamente conforme a matéria da arte, sugerindo metafisicamente o mundo, os sentimentos, as sensações etc. da humana alma, a composição na obra do ato da linguagem lança um momento de realidade êmulo a qualquer outro. A força da verdade corresponde à força de exteriorização do eu abrigado artisticamente, o qual, excluído pela estandardização da sociedade, testemunha o irreconciliável; que, por sinal pessoano, tende à reconciliação a partir de uma linguagem não discursiva — melhor: a artisticidade da arte pessoana obriga-se a adquirir vida ao renunciar à semelhança daquela humanamente dedutível.

 

A obra “Fernando Pessoa” prepara o seu leitor como um devedor contemporâneo que se inflama com o enigma: a vida em letras. Assim, deve interrogar a verdade, na qual se arde vivificando-a no centro largo do vazio: a vida fora das letras. Tal ocorrência me permite compreender que a autonomia do saber poético, elaborado pessoanamente, fala na obra “Pessoa” como algo que em si se move qual experiência absoluta, cujo sentido é o que há de mais vivo; por assim dizer: o arquétipo encarnado da experiência estética. Este sugere questões centrais da metafísica em termos de uma artisticidade, respondendo que a instância distintiva de sua humanidade é a consciência artística — em um sentido pessoano: o que em mim sente’ stá pensando.

 

Ora, a sentença “Fernando Pessoa” é uma curiosa ratio sensível que, indefectivelmente fiel a si mesmo, consolida a tarefa poética distinguindo-a mais do que uma racionalidade sentimental poderia propor com a bipartição de mundos que lhe é comum. A unidade de contrários, no sentido que Hegel dá a isso, é uma espécie de pecado sob a constelação de momentos emanados poeticamente. Ambiente no qual se inicia a fala artística que finge para se pôr, ao mesmo tempo, como sobrevida, em virtude da coesão da arte que cai como um pecado sobre as costas do poeta, e como fenômeno vital, finalizado não em direção à vida, mas em direção à expressão de sua artisticidade. Melhor: a artisticidade “Pessoa” sugere, metafisicamente, uma experiência absoluta que não sucumbe diante à efemeridade da vida e que, portanto, dá forma à verdadeira consciência de uma artisticidade poética, “o reino animal do espírito”. Nesse reino, uma extraordinária nostalgia, sem correspondência empírica no passado biográfico, vive no espírito do objeto de desejo e o assalta de longe, erguendo a sua verdadeira imagem. Esta atravessa as aparências e as possessões de um eu heteronímico, em conformidade com a força do nome arte, no qual vive a coisa amada e, ali, se transforma rejuvenescida. A verdadeira imagem, ela mesma sem figura, é o refúgio de toda imagem e junção, indiscriminada, entre sensibilidade e pensamento: arte.

 

A situação da vida “Fernando Pessoa”, arte, mantém-se intrincada naquela extraordinária nostalgia, cuja linguagem poética é índice de um gênio sugestivo metafisicamente e sobrevida de uma língua poética que não sabe e não pode saber o que a palavra vida quer dizer sem antes ditá-la. Isto é: da mesma forma que as manifestações da vida nada significam para o vivo, os escritos “Pessoa” não arrancam considerações da vida, mas da sobrevida de uma simples realidade: é preciso conceder obra de arte à vida. Logo, existe vida no momento em que há vida excedente à vida concebida biologicamente: em letras.

 

Um escrito “Pessoa” não tem, portanto, por destinação essencial comunicar. Desenvolve-se enquanto poética que renega a noção de um conteúdo transmissível na linguagem; pois sua poética não é nem imagem e nem cópia de algo, muito menos apetrecho de comparação — calcada como está na consciência metafórica, traduzida em método. No âmbito da artisticidade da arte “Fernando Pessoa”, a obra literária é imperativa a priori, exigindo sua autonomia e demandando o desejo de uma estrutura original, inimiga que é de qualquer outra obra poética. E, como instante inesquecível, mesmo que o esquecimento leve a melhor em razão dos estudos dedicados à sua obra, corresponde à ação de uma linguagem própria que mantém a afinidade eletiva entre a linguagem poética expressa nas coisas e a linguagem dos homens. A dívida poética às duas linguagens não estabelece nenhuma como modelo ou equivalência, na ação direta de que linguagem poética não empenha sujeitos vivos ou utilidades, mas nomes. Nomes que são assinaturas do contrato singular sobre uma vida original e de nível elevado, determinada por um desígnio incomum e de altura superior: a poesia. O que significa que há nos escritos “Fernando Pessoa” uma apresentação inadequada da vida do que, no entanto, aí se apresenta incondicionalmente em letras.

 

Nesse sentido, a linguagem poética articula, levemente, o solo original no qual a assinatura heteronímica tem o seu registro, tocando o intocável e o inatingível do nome vida, envelopando a originalidade que lhe é negada com um manto real de largas mangas. Algo não metafórico, mas literal, capaz como é de tomar o acontecimento sem sentido, a vida, e lhe dar liberdade à literalidade que é ela: nome. O que é o mesmo que dizer: a consciência artística “Pessoa” extingue-se no conteúdo poético das coisas da vida existente, dando a elas a literalidade da vida que lhes falta sempre; sendo esta a tarefa por excelência da poesia e arco de sua autonomia sem precedentes. Os escritos, portanto, são intelectivos avisos de contemporaneidade de sensação e pensamento, justificando o saber poético como conhecimento autônomo, abolindo as noções ingênuas de recepção e percepção da experiência em favor de uma experiência autêntica que se baseia numa artisticidade que ora sugere, metafisicamente, um conhecimento sem as investiduras do sujeito e ora acrescenta a isto um prazer desinteressado de apenas pronunciar a artisticidade das palavras, sem se incomodar com qualquer metafísica implícita ou explícita.

 

É como se houvesse no nome arte uma experiência puramente artística e, por ser tal, absoluta, que se dista da consciência empírica de um leitor, de forma a criar uma autonomia exigida pelo saber da arte: uma empiricidade de segundo nível. O que deixa ver que o quadro da empiria é substituído por uma objetividade artística das palavras, que não faz nem dos deuses e nem do homem objetos e sujeitos da experiência. Compreender “Fernando Pessoa” não é explicá-lo; como se a compreensão que requer clamasse pelo extrato não-explicativo, pois é da explicação reduzir o novo e o desconhecido ao conhecido, embora o que há de melhor na obra “Pessoa” se oponha a tal tratamento.

 

Ora, uma alma “Pessoa” não é um realismo pedestre de demarcar os pontos geográficos comuns a uma navegação sem perigos. A aventura portuguesa, pessoanamente, foi e é algo maior. A poesia “Pessoa” requer compreender a façanha e estar à altura dos perigos navegantes para rumar na direção do último continente a ser descoberto – nós. Só assim a força desses últimos versos de “Mensagem” pode vir a nos propor um respeito estético devido à forma de vida denominada “Fernando Pessoa” e toda a história do futuro que se abriu sob a tutela de sua artisticidade. 

 

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é o mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

 

Valete, Frates
 

 

MARCUS ALEXANDRE MOTTA é escritor e professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde atua no programa de pós-graduação em literatura portuguesa e em história da arte. Concluiu, em 2001, o pós-doutorado na Universidade Lusiada em Teoria da Arte. É autor de Desempenho da Leitura - sete ensaios de literatura portuguesa (7Letras, 2004) e Antônio Vieira - Infalível Naufrágio (Editora FGV, 2001), entre outros. Dedica-se, principalmente, a duas linhas de pesquisa: Arte Contemporânea e Patrimônio Cultural; e A questão de artisticidade na arte de Fernando Pessoa: perfeição abstrata e cartografia heteronímica.

 


 

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