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luiz rebinski junior


Costello

 

 

 

A primeira vez que Costello sentiu as estranhas vertigens estava na fila do banco. De repente sentiu um calafrio que foi subindo por seu corpo até chegar à garganta; o estranhamento passou pelos olhos e culminou em um estremecimento na cabeça. Antes disso, milhões de imagens, mais rápidas que fotogramas de uma película, passavam a toda velocidade por sua mente. As imagens eram desconexas e sem significado.

– O senhor está bem? – perguntou uma moça bonita que estava logo atrás.

Costello olhou meio bobo para a menina e disse qualquer coisa e saiu para ser atendido. Aquela sensação incômoda durou uns dois minutos e logo Costello estava na rua.

Quando alcançou a calçada parou ao lado de um poste para descansar. Não sabia muito bem o que tinha acontecido e quando viu já estava rumando para a agência dos correios em que trabalhava.

– Acho que estou trabalhando demais – disse Costello de si para si.

Todos os dias Costello chegava atrasado no trabalho. Era o responsável pela seleção das correspondências que seriam direcionadas aos carteiros. Seus atrasos eram tão rotineiros, que Moreira, o chefe de Costello, já nem lhe falava mais nada, apenas olhava com uma cara de reprovação e balançava a cabeça. Toda vez que fazia isso, a cinza de seu cigarro caía em cima das cartas e ele soltava um palavrão. Na verdade Costello sabia que o xingamento era em sua homenagem, mas se fazia de desentendido.

– Costello, vê se hoje tenta superar o seu novo recorde negativo de ontem na emissão de cartas, viu? – Costello era um dos funcionários mais relapsos da agência em que trabalhava e seguidamente era eleito o colaborador menos eficiente do mês, tendo como prêmio uma foto sua estampada em cima da máquina de cartão ponto com os dizeres “Costello não perdoa, mata”.

Ainda que a maioria dos colegas o achasse um grande vadio, Costello era um rapaz esforçado, que tentava fazer as coisas certas e agradar a todos com seu jeito solícito. Na verdade, seus atrasos eram explicados por sua paixão pelo cinema. Costello era um cinéfilo inveterado que passava madrugadas inteiras assistindo a filmes de western ou de outro subgênero qualquer. Ele gostava de filmes e não se prendia muito a rótulos. Então assistia a tudo que lhe caía na mão.

Assim, seus constantes erros no serviço eram muito mais por falta de atenção, causada pela sonolência que cismava em pegá-lo, do que por “pura e simplesmente vadiagem”, como gostava de repetir o chefe Moreira. Foi essa a justificativa que o próprio Costello encontrou para explicar o segundo colapso que o acometera quando se preparava para ir embora ao final do expediente.

Ele já estava passando o cartão-ponto quando a súbita sensação lhe tomou o corpo novamente. Dessa vez foi muito mais intenso do que na fila do banco. Costello podia visualizar com mais precisão as imagens que se formavam em seu cérebro. Os sintomas eram os mesmos de antes, só que agora sentia uma dor de cabeça horrível.

– Porra Costello, o que aconteceu meu irmão? – foi a primeira coisa que ouviu após ver que estava rodeado de gente. Uns riam, outros faziam cara de preocupação. Rose, a recepcionista da agência, colocou um copo à sua frente e o fez beber em um gole só.

– Não sei o que houve, pessoal – disse Costello com uma voz mansa e mais calma que a habitual –, só sei que de repente apaguei e vi umas figuras na minha frente. Foi um negócio meio estranho.

– Aposto que andou bebendo – disse o chefe Moreira com o cigarro na ponta dos lábios prestes a derrubar a cinza.

– Pode ser epilepsia – disse uma voz que vinha do fundo do ambiente.

Costello levantou ainda meio grogue e disse que estava tudo certo, que iria embora sem problemas. Já no ônibus, e ainda com uma leve dor de cabeça, Costello tentava visualizar as imagens que passaram tão rapidamente em sua cabeça.

A viagem de ônibus até o bairro onde Costello morava o deixou mais calmo. Já em casa, tentou esfriar a cabeça e não pensar no que tinha acontecido. Estava preocupado não só com o piripaque que lhe acometera, mas com sua situação no emprego. Sabia que Moreira não morria de amores por ele e que o desmaio poderia ser um motivo para o patrão mandá-lo embora. Esse pensamento o preocupou tanto, que até deixou de tentar lembrar dos colapsos que teve durante o dia.

Como era de praxe, Costello comeu suas almôndegas com salada e uma barra de cereal e foi se preparar para mais uma sessão de cinema. Ainda que ganhasse pouco, investia boa parte de seu salário em filmes. Na verdade economizava na comida para poder comprar os filmes e revistas sobre cinema. Então não havia um dia do ano sequer em que Costello passasse sem assistir a pelo menos um longa-metragem. Como morava sozinho, poderia assistir aos filmes à hora que mais lhe fosse conveniente.

Neste dia, Costello tinha feito novas aquisições e estava ansioso para rodar os filmes. Eram faroestes dos anos 40 que tinham lhe saído o olho da cara. Quando os créditos começaram a surgir na tela, a vertigem começou. O estremecimento na cabeça subiu tão rápido, que não conseguiu segurar as caixas dos filmes que estavam em suas mãos. Costello se segurou no sofá e começou a tremer, uma espécie de corrente elétrica lhe passava pelo corpo fazendo-o se contorcer. Quando acabou, Costello se viu no chão da sala com as caixas dos filmes em cima de seu corpo. Estava suado e com o pescoço doendo. Levantou devagar e viu quando o caubói matou um índio na tela da tevê. Olhou ao redor e foi direto ao banheiro, lavou demoradamente o rosto e quando se olhou no espelho, sua fisionomia o assustou. Nessa hora as coisas começaram a ficar claras. Costello sentou no vaso sanitário e com as mãos na cabeça se concentrou. Podia ver pela primeira vez as imagens que lhe entravam no cérebro toda vez que o calafrio começava. Ainda assim as imagens lhe chegavam distorcidas. Tentava se concentrar e buscar os flashes, mas eles lhe vinham desconexos e fora de foco. Podia ver uma navalha na mão de um homem. Ele afiava a lâmina e olhava para outro homem que se postava à sua frente. Ele estava sentado em uma cadeira de barbeiro e de repente tinha a lâmina colocada em um de seus olhos. Era horrível, mas real. Costello podia visualizar bem as imagens que seguiam os lapsos.

Costello deu um grito assim que as imagens cessaram.

– Meu Deus, o que aconteceu comigo?

Ainda meio trôpego, foi até o sofá e juntou os filmes do chão. Aos poucos foi lembrando que as cenas vistas durante os ataques eram de um filme antigo que Costello vira há muitos anos e nem lembrava mais. Tinha certeza, a lâmina raspando os olhos, entrando no globo ocular. Não havia dúvidas.

Costello tomou um copo de vitamina de banana e foi deitar. Quando escovava os dentes, percebeu que seu olho esquerdo insistia em piscar. Ficou por uns minutos à frente do espelho a observar seu olho que, involuntariamente, insistia em se mover. As piscadas eram rápidas e intensas. Depois de uma seqüência longa, o olho parava e voltava ao normal.

No outro dia acordou disposto, após uma noite tranqüila de sono. Nem parecia que no dia anterior fora acometido por misteriosos ataques. Disposto, chegou com meia hora de antecedência, o que gerou um comentário tão elogioso quanto sarcástico de seu chefe.

O dia transcorria de forma normal. Os colegas, talvez por medo de serem indiscretos, não fizeram nem um comentário sobre os ataques do dia anterior. Costello, com seu jeito taciturno, seguia firme em seu trabalho manual, tentando não lembrar dos episódios.

Porém, foi impossível não notar que de quando em quando Costello desandava a piscar. As pessoas olhavam rapidamente sem que Costello percebesse e cochichavam quando se viam sem a presença do colega.

– Agora o Costello deu para pisca-pisca. Esse rapaz não é certo da cabeça – comentou em voz baixa uma vizinha de seção de Costello.

Somente Costello não percebia que seu olho abria e fechava mais rápido do que as asas de um beija-flor. Com a calma habitual, fechou seu trabalho antes do tempo determinado e pôde ir para casa mais cedo. Estava feliz porque não tinha tido nenhum problema e seu dia de trabalho foi produtivo e até mesmo prazeroso. Foi para casa feliz e contente.

Ao abrir a porta de casa, ávido por mais uma sessão de cinema, começou a sentir uma vertigem. Mal fechou a porta e a súbita sensação lhe veio arrebatar o corpo com tamanha intensidade que seus membros tremeram por longos minutos antes de desabar perto da porta da cozinha.

Quando conseguiu se recompor, as sacolas do mercado estavam à sua volta, como na noite passada acontecera com as capas de filmes. Dessa vez, a dor de cabeça era ainda mais intensa e as imagens do olho sendo cortado com a navalha ainda mais vivas. Para piorar, as imagens continuavam vivas nas paredes da casa. Era como uma ilusão de ótica que insistia em persistir.

Após esse ataque, Costello passou a ficar preocupado. O que lhe afligia eram as figuras que insistiam em lhe colar à mente após os desmaios. Ficava horas tentando saber por que justamente aquelas imagens, e não outras, lhe surgiam à cabeça.

Outro problema que passou a incomodar era que logo após um desmaio, Costello adquiria um novo tique nervoso, o que acabou virando mais um motivo de piada entre os colegas de trabalho.

À mania de piscar freneticamente somou-se uma contração no pescoço, que dava a impressão de que Costello sofria de um torcicolo, o estalar dos dedos das mãos com a boca, um coice involuntário para trás e, por fim, uma vontade imensa de cuspir a cada cinco segundos.

Ao todo, Costello, após os desfalecimentos, adquiriu dez tipos de tiques diferentes, todos catalogados por seus colegas de trabalho. Ainda que as manias fossem motivo de chacota, o que mais o preocupava era a insistente lâmina que passava pelos olhos do homem na cadeira de barbeiro.

No bairro onde morava, Costello era imitado pelas crianças que brincavam na rua quando ele passava. Isso o chateava e o deixava ainda mais triste do que sempre fora. Por insistência dos colegas de trabalho, consultou vários médicos, que lhe receitaram calmantes e antidepressivos que nunca chegou a tomar. Fora também a um psicanalista, que lhe cobrou o olho da cara para conversar sobre a sua infância e como se relacionava com os animais. Até a um pai-de-santo se submeteu. Nada adiantou.

Os seguidos desmaios já tinham virado rotina na vida de Costello e ele até aprendeu a conviver com os tiques que, a cada dia, aumentavam. Costello, por exemplo, sabia que os desmaios costumavam ocorrer sempre à noite. Por isso evitava sair de casa depois do sol se pôr. Suas ida à locadora de vídeo eram programadas para logo depois do expediente. Nunca deixava para ir depois que chegasse em casa.

Mas com o tempo o problema foi se intensificando e dificultando a vida de Costello. O pobre rapaz não sabia mais o que fazer. Todas as teorias já tinham sido pensadas para explicar os desmaios e as imagens que colavam em sua cabeça.

Na verdade esse problema estava acabando com sua vida. Na ida para o trabalho, no ônibus, os passageiros olhavam com curiosidade para o rapaz, que não parava um minuto quieto por conta dos incomodativos e constantes tiques. Quando a contração no pescoço resolvia dar um tempo, a vontade de cuspir começava. Costello não se importava em cuspir no chão. O importante era se livrar da saliva incômoda que se acumulava em sua boca.

Em algumas ocasiões, os tiques resolviam se manifestar todos ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. Nessa hora Costello parecia um epilético tentando tirar uma pulga de dentro da calça. Ele se mexia tanto que dava a impressão de estar passando mal.

Isso o atormentava de tal forma, que ele quase não saía de casa. Via cada vez mais filmes e se isolava dentro de seu pequeno apartamento. Esse isolamento o deixava ainda pior. Quando saía à rua, olhava para todos os lados para ver se ninguém o perseguia. Para ele, todas as pessoas o seguiam e riam de sua aparência e de seu problema. Foi a partir daí que as imagens que lhe vinham apenas depois dos desmaios, começaram a surgir a toda hora. No supermercado, na farmácia, na locadora de filmes e, principalmente, no trabalho. Costello via nas cartas que separava a face desfigurada do homem com a lâmina atravessada nos olhos. Era insuportável. As imagens o seguiam onde ele fosse, não havia escapatória. Costello tentava disfarçar, mas todos no trabalho viam que ele estava perturbado.

Andando na rua, Costello tinha a impressão de que a qualquer hora encontraria o homem com a navalha no rosto. Ele poderia estar em qualquer lugar, em um boteco sujo e fedorento, em uma loja de roupas, em uma lavanderia, ou na próxima esquina, sempre esperando para acertar as contas com Costello. Isso o atormentava e o afligia.

Depois de um dia de trabalho complicado, em que o chefe Moreira o chamou para uma conversa e sugeriu que ele pedisse licença dos Correios, Costello foi para casa ainda mais perturbado. No caminho, vendo o homem com a navalha no olho em todos os lugares, entrou em um mercado. Costello não sabia por que entrara ali e nem o que ia comprar. Olhava para frente das prateleiras e ia colocando os produtos no carrinho sem olhar o que estava fazendo. Algumas pessoas paravam para ver o que aquele rapaz com cara de zumbi fazia. A aparência de Costello era horrível. A barba por fazer e os olhos esbugalhados o deixavam ainda mais estranho. Seu rosto, chupado e magrela, conferia-lhe uma aparência pouco nobre.

Em poucos minutos Costello estava com o carrinho abarrotado de compras. Os seguranças do mercado o perseguiam de longe para ver o que ia fazer. Na fila do caixa, olhando para o nada, Costello não se mexia.

– O senhor está passando bem? – perguntou uma ingênua velhinha.

Costello não respondeu porque não ouviu. Neste exato momento, viu uma coisa que lhe fez entrar ainda mais fundo no estado de letargia que o dominara. Um homem à sua frente carregava uma cesta abarrotada de lâminas de barbear. Aquilo transtornou ainda mais a mente de Costello, que parecia girar a mais de mil quilômetros por hora. Foi então que, possuído por uma força misteriosa, avançou no homem, agarrou a cesta que ele levava e, com fúria, desembalou uma das lâminas, ficou de joelhos e, como nas imagens que o atormentavam, passou o objeto em seu olho esquerdo.

Costello nunca mais chegara atrasado no emprego. De maneira misteriosa e surpreendente, sua estranha doença nunca mais deu as caras. Sem tique ou qualquer mania, voltou a trabalhar seis meses depois. Em pouco tempo se tornou um funcionário exemplar, subiu de posto e tomou o lugar de Moreira, que se aposentou. Passou a usar óculos escuros para disfarçar a cegueira do olho esquerdo e nunca mais assistiu a nenhum filme.

 


LUIZ REBINSKI JUNIOR é jornalista e tem textos publicados em diversas revistas, como Digestivo cultural, Bestiário e Rabisco.

 


 

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