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rod britto


expropriações invejosas II

amassando como devorando

 




1 – A CULTURA DAS CASAS DE SAMBA, considerando o samba das novas casas noturnas da Lapa, no Rio de Janeiro, restritas, tudo bem policiado, a cultura da festa, da alegria, oficializadas, mas veladas apenas a alguns.
 


Na cidade do Rio de Janeiro temos o bairro da Lapa, de vocações comercial e artística, durante o dia e à noite – com tudo mais, de dia, suas firmas, seus empórios, oficinas, fabriqueiros, distribuidores de secos e molhados, além da gente morando, dos fazendo hora, dos sem o que fazer.


Ali, na Lapa, ao entardecer, há algum meio tempo, mas que ao auxílio do hoje já poderíamos dizer tradicionalmente, desposam muitas das qualidades e dos elementos do samba, trazidos ou dos morros, ou dos cafés chiques onde já havia homens musicais de todo o tipo, formação e classes, dos ranchos musicais, ou de fora da cidade, do mundo inteiro, enfim, de muitas outras culturas e localidades, e que reunidas tramariam alguns dos primeiros sambas – só depois assim chamados. De fato, ali, de meados do século XX (a primeira metade), acabam (e de fato iniciam) reunidas e fertilizadas essas qualidades de samba e os seus elementos, através de seus condutores e agentes diretos e indiretos. Consubstanciou-se e como que se definiu muito do ritmo, num diálogo com o local em que distraidamente se vira posto a passar esse tempo.


Adiantaram-se e em muito: verifica-se, naturalmente (até ali, àquela hora, e sem controle ou mediadores oficializados) um lugar propício para a cultura do samba, social e politicamente, não obstante livres – a começar, de si mesmos como marca compromissada, quando quisessem, fosse o caso, pondo em cheque a própria qualidade local e a de seus quadros e elementos passantes, naqueles momentos inclusivos de efervescência natural e cultural, até porque, livres. Muito do que acontecendo nas ruas, ou de portas abertas, ou, no máximo, por preços módicos, convidando pra junto. São os encontros, as reuniões dançantes, as rodas livres, as algazarras, as folgas sem parar, os quebra-queixos, os mutirões da alegria e muitos outros nomes de ocasião.


No entanto, o samba e suas respectivas rodas não se constituem ali, nem poderiam. Por ali, na Lapa, numa época que se historia por muitas evidências – e que nem caberiam no intento desse estudo rebelde –, ritmo e gênero tomaram fôlego e impulso, vindos espaçadamente de outras regiões (onde, quem sabe, até já se usava esse nome de “sambas”), no que não demorou e já se descrevia ali uma zona boêmia, bem temperada ao seu modo, um repuxo para uma cena artístico-cultural, que logo se faria pra valer, e aos dias de hoje; mas que, hoje, desbragadamente, em atos das práticas condizentes, de outra forma, exclusiva e marcial, por outros condutores e agentes, muito mais disciplinadores – até por isso mesmo marcadores oficiais, expropriadores invejosos, alugando o samba, dando-lhe posto oficial, mas bem pouco profissional, pudéssemos antes contratar pedaços de cultura. Não seja por isso.


Acaso nenhum sendo demais, a Lapa, no Rio de Janeiro, encontra-se ao lado do Centro da cidade, sempre esteve, mesmo fazendo as partes com ele; melhor, dentro dele, pedaço dele; ele que também, após no início e meado do século passado se desenvolver e multiplicar em seus números e estatísticas, em seus quase boulevards, abrindo casas como avenidas, querendo ajeitadas e paletós, sucupiras e parasitas, seguindo à risca, por ordem sobrepujante, o gabarito oficial de uma sociedade política avançada e com os agravos insensíveis da economia, ou seja, da moral de ceia triste porque chique, expansionista e desenvolvimentista, no final do século passado, já passando descuidadamente ao atual, buscou logo explorar o lugar que julga lhe ser de direito; logo ali, a Lapa, garantido isso pela geografia, de estar dentro de si, de pertencer a si, ele, o Centro como organismo dominador; e de uma maneira muito pouco ou nada dadivosa, com pressões, amassando*, devorando o lugar, conseqüentemente o que tivesse dentro, culturalmente falando. Fosse longe, talvez, e quase sempre nada o impedindo, a ordem chegasse da mesma maneira, como a uma ilha, fazendo de seus seres e conjuntos sociais de colônia, se mais fracos em termos de poderio material no mundo tecnológico, que se virassem e se servissem da ordem cultural agora predominante, a da inveja, a da tomada de assento, a da comanda de pagamento, ou a do já tão tradicional bilhete, senão, como última alternativa, servindo-lhes sem inveja. Ou então, fosse quem fosse desses sem poderio, o indivíduo local e toda a sua cultura social, ficasse do lado de fora, mesmo estando quase que irreversivelmente aprisionado do lado de dentro, ser o dentro, sem outra entrada opcional para o que é de fora, mal conseguindo sair, desligar-se de si, mas, num paradigma da opacidade, este fora se dizendo, deliberado e grosso modo, e assim bem afortunadamente alumiando, o de dentro, ainda que sempre o organizando e monitorando de fora. Lê-se em cores que quase assustam, em néon, chamativas de atenção: Casa de Samba Lapa Dentro, Lapa Fora, a melhor e mais exclusiva do Centro...


Não foi tão esquemático e fácil assim, de fato, o que aconteceu nesta Lapa. Uma área-zona-bairro da cidade do Rio em que o fogo livre e natural da tal cultura artística – como a do samba, entre elas – ficou lá pra trás, das primeiras décadas até mais ou menos a metade do século XX; e dali em diante pode-se dizer que se expropriou muito. Muito se passou depois, não vamos nos reportar; mas certo é também que não reaqueceu esse fogo alto (alto porque livre) da cultura artística – dado que também nunca em nenhum momento até hoje este fogo acabou totalmente; perderam-se apenas os méritos historiais, de grande falatório popular, logo, a repercussão originária – a das coisas naturais, naturalmente. E o que acontece – diria até se processa – na Lapa, como hoje, é a retomada violentamente capitalista do lugar por agentes de toda ordem oficial, politiqueira e econômica – o que também não se pudesse esperar naquela primeira época de efervescência cultural, as artimanhas sempre se desenvolvendo rápido, mas para se aperfeiçoar em capitanias culturais e artísticas, a princípio exteriores a isso tudo, com os fins de uma redoma, mais demoradamente, e mais exatamente nos finais do século XX, começo do XXI, com muito sucesso – o “sucesso cultural”, até uma profanação se falar assim. Pois, já hoje, nota-se com certo pavor, o avanço do mundo e suas redes penetráveis e, avassaladora como desastrosamente, invasoras. Assim é na Lapa, pequeno e, quase que em seu caráter inteiro (senão ao menos o maior caráter, ou seja, aqui o mais poderoso e comentado nos meios oficiais) artificialmente bairro boêmio do Rio de Janeiro, conseqüentemente do samba. Ou seja, começam a cobri-la, a reinventá-la de maneira oficial e vigilante, sempre atrás, como já explicitado antes, de seus números e clientes da cultura, dos públicos-alvos de culturas – forte aí a do samba, também já apontada antes nesse mesmo trabalho como absorvente de gente de primeira e última hora. Já o fizeram e agora só o desenvolvem a seu bel prazer, estes fortes concorrentes nisso, expropriadores invejosos de muitas culturas, amassando como devorando elas, que lhes retiram o sangue para lhes impor nova pele, diferentemente essa da original. Exemplo disso, a raspagem interior dos sobrados da Avenida Mem de Sá, a principal da Lapa, com as explorações de todo tipo que acontecem lá dentro, e o mantimento e manutenção da fachada do lado de fora, caracterizadamente uma marca tradicional do bairro, de seus bares livres e cafés mais antigos. Poderia também se dizer, mas sem esclarecimento preciso onde e quando, que estes mesmos expropriadores que já fatiam monstruosamente e no time violento-comercial a Lapa, estiveram também se aproveitando de outras culturas quando lhe pareceram extremamente rentáveis em algum momento, nesta ou noutra cidade, com ou sem o apelo histórico – por isso mesmo prefiro descrevê-los como invejosos de muitas culturas e indefiníveis (após o máximo da exploração na Lapa não duvidaria que se seguirão em seu caminho a outros destinos culturais, a outros alvos), desde que indivíduos originários – ao menos descendentes diretos – da cultura capitalista mundial de se produzir catálogos para o consumo de culturas menores, como dito na primeira parte deste trabalho, também ao turismo.


Mas agora, como fazer para que se livrem os sujeitos culturais oprimidos por esse processo que lhes bloqueia muitas vezes dentro de si mesmos, por estarem e fazerem parte do complexo jogo vivo e social do bairro monitorado da Lapa? Essas pessoas que são postas pra escanteio, que não têm acesso a essas casas caras de samba em que estariam ali também só jogando pra ganhar os expropriadores ao tempo que exibindo pra quem puder pagar os tipos e as manias de cultura da vida boêmia, em sua grande parte noturna – aqui “manias de cultura” já podendo designar alguns dos tão mal tirados joguetes de cultura manipulados pelas expropriações invejosas mais atuais e avançadas do mundo pós-moderno –, especialíssima da malandragem oficial e do samba dito “original” na zona da Lapa? Mesmo, de uns anos pra cá, começando a ser também “a cultura deles, a de serem do bairro, da região, a gente mais natural da Lapa, e não poderem ter acesso aos ares comprimidos em sobrados chiques”, estes com “o samba comendo solto”; mas que estes lugares maiores (não obstante a realidade física dos espaços) tendo tomado espaço dentro do lugar menor como um todo (o bairro e sua vida, verdadeiramente sociável e inteiro, como consta do mapa da cidade e das contagens populacionais), deliberadamente teriam em muitas das vezes se inspirado neles, na vida e nos costumes da gente daquela área, como fonte de circulação lucrativa – uma correia que lhes passasse oprimindo por cima – e mesmo de distribuição (agora, leia-se venda) de cultura. E a metáfora mais correta talvez fosse que além de tomarem espaço esses lugares maiores (casas menos sociais, e aqui não metaforicamente) nos lugares menores (casas acentuadamente sociais, sem outra escolha ou remissão), teriam mesmo, e mais espaçosa como invejosamente, “tomado acento” por ali – esta uma expressão usada algumas vezes neste trabalho, mas variando em seus sentidos. Ou seja, sentando-se mesmo sobre eles, sobre a cultura ali observável, mas não completamente sendo ela dominável ou digna de trancas e convites oficiais. Não poderiam eles nem se espelhar, ou melhor, se verem espelhados, com o acesso negado. E não poderiam ou não poderão eles levar nada com isso, muitas vezes forçosamente, visto que nunca acidentalmente crescendo algo por ali, à sua imagem e semelhança? E aqui um outro grande problema, além da exclusão: é capaz até de a eles, a essa gente social, cultural e naturalizada da Lapa, seus moradores, trabalhadores e passantes, estarem com isso sendo negados em sua atualização-modernidade, em seu desenvolvimento primordial, em suas modificações temporais, deste jeito pelo poder da atração visual e de opinião do capitalismo exercido com bem mais recursos disseminadores sobre uma pequena parte da população mais encarregada do que outras partes em esclarecer o que seria essa ou aquela região cultural de uma cidade qualquer. Por isso mesmo, voltando ao primeiro problema, seria até um “erro de espelho”, em pensar que ali nessas casas, vedadas a qualquer um que queira, estariam sendo mostrados os tipos, os jeitos, os costumes, o ritmo de vida dessa gente dali, mas sim os de uma época idealizada e passada, uma Lapa fundamental e efervescente como dito acima – o que não diminui o erro da parte dos monitores e responsáveis oficiais por isso, repito, o segundo problema que se põe, por impedirem o desenvolvimento da cultura social e atual do respectivo lugar, por espelharem o que não é; por não passarem o reflexo real do refletido, estando ali os refletores em seus negócios culturais; por não mostrarem as maneiras reais e atualizadas de se ser e de se encarar uma determinada cultura, ou muitas delas, da parte de um conjunto social específico, ainda que, esses mesmos que seriam os irresponsáveis, lucrando indefinidamente usando um certo tipo deles, dos homens sócio-culturais, sambistas, boêmios, malandros ou o que forem. Numa metáfora já bem desastrosa, é como se vendesse ali nessas casas de samba e boemia o produto cultural falsificado, senão atrasado – ainda que este do passado, vencido em sua validade e vitalidade históricas, ser sempre importante de se sabido e relembrado.

 

Não, não será uma pena; se tenham eles como muitos dos sujeitos e conjuntos sociais, em muitos dos povos espalhados pelo mundo, em diferentes épocas, a consciência e a conseqüente cultura da revolta contra os assombros, os assaltos, os malogros e as aberrações resultantes que visam estupidificar culturas menos poderosas comparadas em sua materialidade edificante num mundo civilizado à sua maneira (diga-se os meios oficiais de produção e reprodução ideológicos e de classes, como os do estado, senão deles mesmos, ao menos colocados do seu lado, a seu favor) muitas vezes mesmo sem notar ou sem terem essa intenção. Mas nós, revoltosos, temos, sim; temos a intenção de nos livrar disso. Façamos alguma zona em nome disso, contra esses expropriadores culturais, que não têm como intenção – e isso eles o sabem muito bem –, em nenhum momento, parar de buscar novas maneiras para se darem bem lucrativamente, ainda que amassando e devorando culturas menores, nos termos já referidos. Sendo a batucada do samba, façamos o mesmo, ou por enquanto, ao menos os que se sintam diretamente, sem perdão e licença, lesados por isso, por esses processamentos, que lhes dizem respeito, mas que não lhes dão respeito – e como que depois dessa artificialidade toda querem naturalmente lhes cobrar respeito; depois de digeridos esses lesados, os querem como quererão seus dominados, seus serviçais; e aí já não estaríamos mais falando em distração, em efervescência artística, em mais nada disso, muitíssimo pelo contrário do já suspeitíssimo “divertimento cultural”, sempre longe este da inofensiva e mais adequada apreensão cultural (Não há como comentar essa expressão utilizada por mim, “divertimento cultural”, por ela nem existir – pelos menos não deveria existir, assim guiado pelos apontamentos desse trabalho. É claro que todas as culturas para as suas pessoas e aos seus grupos, naturais ou definitivamente já alocados, ou subgrupos aproximados, ou parentes indiretos ainda que de fora, uma maioria de suas práticas e eventos culturais deve lhes soar bem divertido, até o máximo da alegria – como o samba para os “sambistas de verdade”; posto também que se não o fossem deixariam de fazer muitas de suas coisas, o seu dia-a-dia. Exemplo disso são as próprias festas, os encontros, as cerimônias, os rituais de comunidade mais simples, as danças, as cantorias, as lavagens, os jogos, as caças, os favores, as refeições etc); e aí os termos que no início dessa segunda parte já se anunciaram e que ainda poderiam nessa seqüência continuar se usando seriam tão secos como anestesiados esses: organismo dominador e policial; marcadores oficiais e disciplinadores, em uma sociedade ainda mais vigilante do que já é, daí por diante. Luzes e vozes desconhecidas, que depois de encerradas as fases convidativas passam à fase impositiva.

– Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem
que conheço de outros carnavais
Eu fui à Lapa e perdi a viagem
que aquela tal malandragem não existe mais

(Homenagem ao Malandro, composição de 1978 do compositor Chico Buarque.)

Mas ainda assim, antes, dos pulsos da revolta, com a alegria daqueles tempos passa-se agora por cima das portas fechadas da oficialidade turística, garantidas infelizmente como pontos de visitação cultural na cidade do Rio de Janeiro, apenas a quem esteja podendo adquirir cultura; casas usadas como palco dos sambas e bambas mais tradicionais, dizem, ao menos é o que se espalha prodigamente por aí e quase no mundo inteiro – poucos ganhando muito e se gabando por distribuírem cultura e estilo a quem quiser chegar pra ver de perto, o máximo do carioca sambista, das casas da Lapa. Mas, viventes alegres do bairro, que se sintam de fora sendo ou estando de dentro, vão já fazer então de suas alegrias a oficialidade até então afirmada muitas vezes, mas só nesses ambientes fechados: passem por cima, tomem parte, invadam, não peçam licença, adentrem evoluindo, pra deitar e rolar, a noite inteira; e a fazer um samba, bem solto, ideal, confraternizando com quem estiver por ali de visita, contemporizando, festejando a liberdade e tentando sempre, senão se recuperar da inveja e de alguns arroubos irreversíveis e oficiais, chegar junto, pelo menos recomeçando daí (Algo de estranho acontece: dirijo-me a alguém ou a alguns que talvez nem me leiam. Talvez seja isso um pulso de revolta, incontrolável.); enfim, o que à primeira vista pode parecer estranho, mas não é, participar de si mesmos – se ali alertam os condutores da cena e do suspeitíssimo espelho social apresentarem uma cultura, mas só incinerada para ocasiões especiais: a cultura do samba, a cultura da gente tradicional da Lapa e do seu jeito de ser vivendo social e culturalmente os dias e as noites daquele lugar – mas certamente trocando a atualização pelo memorial, riscado, instantâneo, na duração de algumas horas. Após a ocupação da Lapa pelas novíssimas casas, ocupar-se-ão essas casas pela própria Lapa; os invadidos, depois de amassados, dobrados, tornam-se também invasores, com gás e euforia, todo comemorativos. Vale muito lembrar que no bairro da Lapa, em sua vida noturna, atualmente também se encontram outras variadas casas com os mais diversos tipos de ritmos, culturas e estilos a se visitar e distrair, no entanto não cabendo aqui neste trabalho entrarmos nesse mérito, que em última hipótese seriam componentes próprios à evolução do bairro, de sua atualização histórica, ao invés de marcadores da interrupção social e da utilização errada de alguns dos dons e termos culturais um dia ou ainda hoje encontrados na gente do local, como no caso do jeito de ser da boemia malandra e ritmada da Lapa. Antes fossem mesmo esses sambas descompassados e livres, vulgarmente abertos a quem quisesse entrar, a quem quisesse chegar junto – talvez assim chegassem ali a uma maior possibilidade de encontrar ainda hoje, quem saberá amanhã, uma forma mais sincera e natural daquela vida cultural, gratuitamente, honestamente, o espelhamento digno de seus momentos, agruras e alegrias vividos socialmente. E ao final de tudo, de muito fogo nos quadris, depois das beberagens, das folgas e faltas do que pagar: joguem seus chapéus marciais pra cima (não os possuindo, arranquem educadamente o dos outros no salão, inspirados de uma forma ou outra em vocês ou em seus sujeitos culturais anteriores, mais ou menos completos, de certo grupo social tentado ali), podendo ser este o último sinal de uma boa e velha pândega, que o que vem a seguir, uma manhã bêbada na sarjeta de uma das transversais empoeiradas do bairro, ou trabalhando numa loja, ou num depósito, ou ficando em casa, ou indo a outro lugar, trabalhar, suar, raciocinar, parar, encostar, culturalmente falando, e satisfeitos ainda que nessa pior, ou nessa melhor, a vida, sem outro jeito, é social. Amanhã poderá ter mais, desde que sem exploração ou obrigação. Mais precisamente à noite, com muito samba, com muito grito, com muito coração pra se agüentar.


*O “amassando” da expressão – utilizada também ela no título desta parte do trabalho – seria no seguinte sentido: como já falado, o lado materialmente mais fraco fazendo vezes de uma parte, ou de uma ponta, numa mesma folha de papel que fosse forçosamente e sem habilidade dobrada pra dentro, e assim ficasse essa parte fora do campo de visão, do pedaço que sobra como o principal. Ou seja, uma parte que indubitavelmente é de dentro, constituindo o dentro fundamental ao todo, indo amassada, ou mesmo dobrada, ainda mais pra dentro, acabando por ficar pra trás, ou seja, de costas para si, e o que sobra visível modifica-se de sua naturalidade e de seu desenho fundamental, tortuosamente.



ROD BRITTO é jornalista e escritor, autor dos livros Barriga D”Água e Os Infames (junto aos poetas Guila Sarmento e Xisto da Cunha, os outros Infames, que seguem em atividade, propondo leituras e linguagens paralelas à poesia gentil). Participou também dos livros CEPensamento, pela Editora Azougue, e República dos Poetas, uma Antologia do Museu. Atualmente, é um dos organizadores do evento multimídia CEP 20.000.
 


 

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