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adolfo montejo navas


ruído de fundo IV

 



O ruído de um diário é como o da poesia, não confia nunca na confissão e sim no enigma do escrito. Esse é o seu maior sentido. Um enigma vivo como o tempo, que obriga os seus signos escorregadios, mutantes, a escrever na água, fugindo de qualquer centro fixo, longe de qualquer possibilidade de retrato.



JULHO

22. Dorme com uma verdade a menos, mas acorda com uma incógnita a mais.

23. O tempo curvado até o espaço, gravitando!

24. E a ressaca da realidade, dura eternamente?

25. O tempo é tempo a princípio, depois se faz distância, espaço, território.

26. Um espelho sempre espera.

27. Essa obscura tentação de deixar passar o ano em branco.

28. Sobreviver a si mesmo...

29. Ah, a melancolia do que não existe, do que nunca aparece.

30. Aproveita as insônias para nascer.

31. A mitologia dos não acontecimentos.


AGOSTO

1. Quando se perde tempo se ganha espaço?

2. Dias côncavos e dias convexos.

3. Heraclitiana: ninguém vive duas vezes a mesma coisa com o mesmo nome.

4. Deveríamos responder pelos céus contemplados.

5. O vento sempre traz lembranças.

6. Chega um momento em que a solidão é um personagem.

7. Um relógio de areia em posição horizontal lembra a eternidade ou a memória?

8. De vez em quando faz uma quermesse dos sentimentos apagados.

9. Marcas produzidas antes de pisar.

10. Há uma vida que é criação e outra que é conservação. E não se pode viver sem nenhuma delas.

11. Quer chegar ao final contando as palavras que faltam.

12. Gostava de lembrar que ainda não era ninguém.

13. Condenado ao pior: a repetir todos os instantes, a viver de novo o mesmo.

14. O amor há anos que passou, mas seu cheiro ainda permanece.

15. Exercício: procurar algo que não tenha nada de história, que não tenha sido contaminado.

16. Tem feito do costume um infinito.

17. Vive infinitos prorrogáveis.

18. Dedicou toda uma vida a recuperar a inocência que dava por perdida.

19. 18:40 p.m.: começa a melancolia das duas luzes.

20. Agora a memória dá um golpe baixo: começa a lembrar todas as coisas que não aconteceram.

21. Quem ama vive duas vezes.

22. Um relógio que só conta os segundos é o mais próximo à natureza do tempo.

23. A casa estava cheia de relógios para ganhar tempo ao tempo.

24. Cada dia como o primeiro dia do mundo.

25. E se morrêssemos primeiro e depois nascêssemos?

26. Fazer coincidir as frestas com as cicatrizes, as rugas com as fendas.

27. O tempo remata a todos os que não ressuscitam.

28. Notícia: o inefável acaba de se suicidar de novo.

29. Uma cura de palavras: durante dias, responder a tudo com gestos, signos, caretas, posturas.

30. Trocar idéias velhas por flores.

31. Pode-se viver a fogo lento.


SETEMBRO

1. A fábula da experiência é que ela corre sempre menos que nós.

2. O dia nasce branco, mas quando chega a noite está tudo carregado de palavras.

3. Objetos para medir: uma bússola com as horas e um relógio com os pontos cardeais.

4. Cada cinco ou dez anos trocar de religião para não aprisionar a alma.

5. Vem conseguindo suprimir os minutos de sua vida!

6. Chegar à noite como se chega a um porto.

7. A eternidade perdida, naufragada no tempo.

8. O esquecimento, esse desvão.

9. Cada pessoa tem a sua própria coda.

10. As pedras sabem acompanhar nosso sentimento do tempo.

11. Cada temporal como um pequeno ensaio do fim do mundo.

12. Todo cartão de visita é um epitáfio, como diria Ramón (Gómez de la Serna) ainda que ao contrário.

13. O tempo que falta à velocidade é o mesmo que sobra à lentidão?

14. Cada hora sonha com seu próprio infinito.

15. Perder tempo faz parte de um método de trabalho.

16. O infinito que há na água correndo.

17. Nada tão forte como o tiquetaque do obscuro.

 

&
 



ADOLFO MONTEJO NAVAS é poeta, crítico de arte, tradutor e curador independente. Nascido em Madri, em 1954, mora no Brasil há 14 anos. Publicou 49 silêncios (2004), Inscripciones (1999), Pedras pensadas (2002), Na linha do horizonte/Conjuros (2003), Da Hipocondria (2005), entre outros. Realiza periodicamente mostras de poemas-objeto e poemas visuais.

 


 

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