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rodrigo teixeira de siqueira


a sagrada manifestação das forças


 


I

O pássaro começa a viajar
de sua leveza
ser maior que a permissão dos ares.

Um homem
permanecido muito tempo
diante da porta de casa
travou seu nome naquela permissão de cima

e o pássaro atravessou seu peito
como uma flecha de sentido
e pedra
pelos olhos.
 


II

A mensagem distante da madrugada
foi sendo o homem consciente do silêncio.

Havia uma voz
exclusiva para os surdos nesta campanha

porque era uma voz de olhar,
de pisar com tanta delicadeza por cima das flores
que até lhe arrancassem um agradecimento
maduro e limpo.

Havia uma voz
que, de longe, reconhecia o sagrado
na penitência vazia das coisas humanas.

A formiga entendia essa voz
no seu trabalho.
 


III

Diante da enorme necessidade de entendimento;
da distância sempre permanecida
no próximo de tudo;
do segredo da composição do homem
incrivelmente pela Terra,

aquela mola se alterou para menor;
houve um formato de luz mais esquisito
nas estrelas;
um senhor ausente de cultura
amolou sua faca na porta de casa
e matou um bicho sertanejo.

Diante do sagrado, também,
aquela nuvem se pariu de ovelhas.
 


IV

Vossa compreensão:
um mero arremesso de egoísmo.

Teus olhos me disseram
da tua capacidade de águas
e de árvores.

Me disseram do vácuo
não do espaço,

mas da tua liberdade flutuante
de ser gente
multiplicada em mil pedaços de ouro
e diamante
e terra
e corpo.
 


V

Salvo as capas secas
de besouro,
o resto todo se transforma em armadura.

O rosto em que partiram
mil serpentes
é agora a representação do medo
e da negada aparição do nulo.

A fábrica de cochos
e venenos
ressurgiu da pedra enternecida
numa copa despojada.

Meu nome se refez
do antigo,
meu limbo se refez
do antigo,

o antigo se refez
do nada.
 


VI


Escuta agora
essa pedra.

Ela diz que foste a poesia
consonante em tudo
dentro dos teus rins saniosos
de solidão e ciência.

Escuta.

Presta bastante atenção
que o que ela diz é interessante
e um bocado original.

Olha só.
Realmente alguma coisa
está dizendo
o silêncio
de dentro daquela pedra

e não tem lógica.

Repara bem,
(tu, que és só explicação e fato):

Só tem voz ali dentro.
 


VII

Tua cabeça
modelada em mil aparições
se esqueceu dentro dos livros
e sistemas.

Esqueceste
lentamente
o ritmo animal
de que andava
e rastejava;

o ritmo animal
em que sangrava
tua pupila
trêmula
de azul
divino.

Cada fio de cabelo teu
é uma conta
que entregaste aos homens
de conceitos;

cada milagre
que divinas em segredo
deste aos homens
de conceitos
por que façam algum
padrão de explicação
sem goles de mistério;

cada partícula de nada
preenchida
em teus silêncios

tu esvaziaste.
 


VIII

Os poemas
às vezes
são tristes
de luz.
 

 

RODRIGO TEIXEIRA DE SIQUEIRA é aluno de graduação no curso de Português-Literaturas da Faculdade de Letras da UFRJ. Desenvolve pesquisa no projeto Poética e Filosofia – Uma reunião originária, sob orientação do professor Antonio Jardim. Seus poemas foram selecionados para serem publicados na Confraria através do concurso de poesia Corpo, Mundo, Terra, realizado durante o III Encontro Nacional de Poesia e Pensamento, organizado pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Poética da UFRJ.
 


 

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