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andré dias


as mil e uma noites polifônicas 

 

 

Primeiras palavras

 

Trazia do imaginário infantil as lembranças mais ternas e antigas d'As mil e uma noites. Sobretudo do universo da televisão, com sua variedade enorme de desenhos animados e filmes que, hoje compreendo, se apropriavam da fantástica tradição das narrativas dos povos islâmicos, porém conferindo a estas um caráter prosaico e ocidentalizado. Permanecem vivas ainda na memória deste tempo as coleções de livros de fábulas infantis – como eram classificadas pelas livrarias ou pelos vendedores que faziam o comércio direto de porta em porta – que traziam desde as histórias de João e Maria, passando pelo terrível e atrapalhado Capitão Gancho até chegarem nas aventuras de Simbad, o Marujo ou nas inesperadas tramas de Ali Baba e os 40 Ladrões. Diversas vezes estive cercado de perigosos guerreiros com seus turbantes e adagas, belas odaliscas, princesas jamais imaginadas, sultões impiedosos e valentes aventureiros que ao final sempre venciam a luta contra o “mal” e ainda arrebatavam o coração da indefesa “mocinha”.


No carnaval, pelas ruas da cidade parecia que minha imaginação infantil tomava corpo e forma quando do alto dos meus sete, oito anos me deparava com quase todas as personagens das minhas aventuras da Arábia em pleno centro do Rio de Janeiro, agora misturadas a índios com enormes cocares, intrépidos soldados romanos, assustadores bate-bolas, dançarinas havaianas, Conga, a mulher gorila, que nos aterrorizava no circo, e, ali livre desfilava em um bloco carnavalesco abraçada apaixonadamente ao Homem-Aranha, sendo observada à distância pela figura do triste pirata.


Quase trinta anos se passaram desde os tempos de menino até que viesse a ter um novo encontro com o mundo de Sahrazad, só que desta vez não mais mediado pela indústria cultural representada pela televisão ou pelas “livres” adaptações literárias de algumas narrativas que fazem parte d'As mil e uma noites. No presente, tive acesso aos contos que compõem a narrativa através da tradução para o português realizada principalmente por Alberto Diniz, que partiu do trabalho efetuado pelo francês Jean Antoine Galland, que no século XVIII traduziu a obra para a língua francesa, a partir dos manuscritos árabes do século XIV. Vale lembrar que a tradução de Galland, mesmo sendo, por exemplo, excessivamente moralista para os padrões sociais atuais, talvez ainda seja a mais difundida no mundo ocidental, conquistando a simpatia e apreço de intelectuais eminentes como o escritor argentino Jorge Luis Borges que considerava “el epíteto milyunanochesco nada tiene que ver com lãs eruditas obsceniedades de Burton o de Mardrus, y todo com lãs joyas y lãs magias de Antoine Galland.” A afirmação do grande mestre, por um lado, revela de maneira direta sua preferência pela tradução de Galland, mas, por outro, deixa entrever sua posição excessivamente conservadora em relação às traduções efetuadas pelo capitão Burton e por Mardrus, que são reconhecidamente mais livres e apuradas do ponto de vista lingüístico, como bem destacou o próprio Borges.


O ano de 2005 marcou uma nova etapa na trajetória d'As mil e uma noites em terras brasileiras. Pela primeira vez chegava ao mercado editorial nacional uma tradução dos contos feita diretamente do árabe para nossa língua tendo como responsável pelo empreendimento o professor Mamede Mustafá Jarouche, da Universidade de São Paulo. Do total de cinco volumes previstos para o projeto original, o público leitor, até o momento, pode contar com dois ricamente acabados, com um texto cuidadoso, uma encadernação primorosa e uma concepção gráfica saborosa. Para minha alegria e satisfação, tive oportunidade de também ler os volumes desta edição que, sem dúvida alguma, ampliaram as possibilidades de compreensão da grandeza da obra e me aproximaram de uma forma mais efetiva desta cultura rica e diversa.


O desenvolvimento das idéias presentes neste ensaio primou pela construção de um olhar diferente, que evitou o exagero do exotismo e zelou pela busca de significações que revelassem a atualidade das narrativas d'As mil e uma noites. Em função do exposto até aqui, a partir dos próximos parágrafos apresento os resultados das inquietações geradas ao longo do novo processo de leitura instaurado no presente, que já nasce fadado a se transformar em passado, o que confere um caráter marcadamente provisório a este trabalho.
 

 

As mil e umas noites polifônicas

 

Sem me render à cilada de tentar estabelecer um conceito fechado, mas procurando divisar alguns princípios norteadores deste artigo gostaria de destacar que aquilo a que chamamos de Literatura é mais um discurso sobre o real e como tal, ela não se restringe somente ao texto escrito. Nesta acepção, o texto escrito é apenas mais um suporte da Literatura, uma vez que a linguagem escrita é, tão somente, a representação gráfica empobrecida da linguagem oral. No caso específico das narrativas que formam As mil e uma noites, não podemos perder de vista que todos os contos ali encontrados vêm da tradição oral de narrar e só muito tempo depois é que são compilados e reunidos em forma de manuscritos. Ditas estas palavras, resta também a clareza de que para compreender qualquer discurso é preciso conhecer as situações que envolvem sua enunciação, ter em conta quem fala, saber para quem se fala e de que local cada sujeito do discurso está falando.


Os contos que constituem As mil e uma noites possuem um caráter inegavelmente polifônico – esclareço que tomo o vocábulo polifônico no sentido bakhtiniano, que expressa o discurso de múltiplas vozes – desta maneira, identifico pelo menos três vozes principais que assumem o papel de narradores da obra e para favorecer um melhor entendimento sobre as teias urdidas que se juntam para amplificar os sentidos deste discurso passo a relacioná-las a seguir.


A primeira destas vozes surgiu do cruzamento da tradição oral com a prática da representação da escrita e estaria localizada no século XIV, mais especificamente nos manuscritos árabes daquilo que viria a ser denominado como As mil e uma noites. Mas não podemos esquecer que antes de adquirir a forma dos manuscritos esta voz discursiva já se manifestava através da imagem de um narrador oral que narrava para manter viva a cultura islâmica, reafirmando a função pedagógica e moralizante deste discurso que é dirigido, inicialmente, à sociedade medieval do Oriente Médio, refletindo as preocupações e os interesses das classes dominantes presentes no mundo islâmico naquele momento, ou seja: “suas histórias são plenas de decoro, com significados agudos para os homens distintos; por meio delas, aprende-se a arte de bem falar e o que sucedeu aos reis desde o início dos tempos” (ANÔNIMO, 2005, p.39). Desta maneira, consideramos as narrativas d'As mil e uma noites, antes de tudo, didáticas, pois têm a função de normatizar os comportamentos da sociedade islâmica, se constituindo assim numa espécie de “manual” prático para o bem viver ou em um inventário das normas sociais impostas naquele período.


Diferente do discurso literário emergido do período pós-Iluminista, que inaugurou a prática da crítica à cultura, a sociedade e aos padrões comportamentais daquele momento histórico, As mil e uma noites funciona como um discurso de consolidação de preceitos sociais da cultura islâmica. Por isso, as questões encontradas em suas histórias são as fundamentais para a sociedade islâmica naquele momento, como por exemplo, a traição feminina: “Pois é, não é mesmo possível confiar nas mulheres! [...] Mesmo eu sendo rei e governante da terra de Samarcanda, [...] minha mulher me trai! [...] desembainhou a espada, golpeou os dois – o cozinheiro e a mulher...” (ANÔNIMO, 2005, p.40) –, a necessidade de se buscar uma vida reta e justa: “não oprima ninguém, caso contrário o destino oprimirá você. O destino num dia está a seu favor e noutro está contra, e o que o mundo lhe dá amanhã terá de ser pago.” (Idem, p.223) –, a disputa pelo poder: “[...] pensa que nós dividimos o vizirato, mas eu só o coloquei comigo para que você [...] não se sentisse diminuído. [...] Seu irmão se calou e cada um foi para um lado, o mais velho cheio de ódio contra o mais novo, e este encolerizado contra aquele.” (Idem, p.214) – e as paixões arrebatadoras que, inapelavelmente, tomam os sujeitos: “Voltei para casa embriagado de amores por ela, a tal ponto que não consegui comer nem beber, nem conciliar o sono, pelo período de uma semana.” (Idem, p.292).


A segunda voz discursiva ganha consistência através da figura de Sahrazad, que terá um papel fundamental na consolidação do livro d'As mil e uma noites, não só porque o principal núcleo das narrativas se organiza em seu entorno, mas também pelo fato dela representar o ponto de convergência de todas as outras histórias presentes na obra.


Como sabemos, Sahrazad, contrariando as deliberações e preocupações de seu pai, o vizir, decide se lançar na tarefa de casar com o rei Sahriyar, aquele que “tomou a resolução de não se manter casado senão uma única noite: ao amanhecer, mataria a mulher a fim de manter-se a salvo de sua perversidade e perfídia” (ANÔNIMO, 2005, p.49). É importante perceber que nossa narradora ao fazer sua escolha por aquilo que seria supostamente seu próprio fim, o casamento com o rei, o faz não a partir de um voluntarismo tolo, vazio e sem sentido, pelo contrário, sua atitude é fruto da ação de alguém que tem a visão clara de sua condição e capacidade de interferência no mundo no qual se está inserido.


Sahrazad era instruída e consciente, pois, “conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido” (ANÔNIMO, 2005, p.49). Note que ela é apresentada como alguém que não tinha apenas amontoado um número sem par de conhecimentos, como um depósito que fechado não possui serventia alguma. Sua sabedoria residia no fato de que toda sua instrução fora construída a partir do entendimento, ou seja, não era algo falso ou aparente, mas sim, consistente, amplo e ambicioso – uma vez que sua ação refletia a tentativa de concretizar um ato de desagravo contra a violência que se estabeleceu sobre seu povo, ao mesmo tempo, que tinha como objetivo fundamental a salvação da sua gente.


O discurso do rei Sahriyar é o discurso do poder, afinal de contas ele é o monarca supremo, o escolhido e ungindo para agir com magnificência ou cólera, prudência e destemor. Uma única palavra sua tudo pode mudar, vidas são poupadas, terras conquistadas, cidades libertadas ou escravizadas, sua voz alcança da criança ao homem, passando pela mulher, pelos anciões, pelos loucos e pelos sãos. Acima de sua palavra apenas a daquele que governa do alto céu, a saber, o próprio Deus que concedeu ao rei tamanho poder para fazer ou desfazer conforme seu julgamento e coração: “[...] o rei Sahriyar estabeleceu proibições, distribuiu ordens, fez concessões, deu presentes e dádivas. [...] Depois, determinou ao seu vizir-mor [...] a seguinte ordem: “pegue minha mulher e mate-a”” (ANÔNIMO, 2005, p.48).


Um fato aparentemente simples mudaria o curso da história. Todo sua grandeza e poder vão sucumbir paulatinamente diante da beleza e inteligência de Sahrazad que, após casar-se com o monarca, sem burlar o seu poder, ao contrário, sempre cumprindo com todas as cerimônias necessárias, muito respeitosamente vai conseguindo conquistar os seus favores: “[...] Dinarzad disse: “minha irmãzinha [...] conte-me uma de suas belas historinhas” [...] Sahrazad disse ao rei: “com sua permissão eu contarei”. Ele respondeu: “Permissão concedida” (Idem, p.56). Essa permissão marca uma reviravolta na trajetória do rei e de todos seus súditos, pois ela será a senha de acesso para a construção de um jogo de desejo, sedução, convencimento e salvação estabelecido entre Sahriyar e sua jovem esposa.


Em um primeiro plano Sahrazad narra suas histórias para não morrer vitimada pela sentença imposta pelo monarca. Em um segundo momento suas histórias vão funcionar como uma metáfora da força da jovem que enfrenta e vence o discurso do poder através do poder do discurso. Esta afirmação não se sustenta apenas como um simples jogo de palavras, mas vai expressar também a árdua tarefa da narradora que, através de suas histórias, vai ganhando tempo, admiração e respeito que se converterão em vida. Ela de fato conhecia o sentido da expressão viver um dia após o outro. Além disso, esta voz narrativa apresenta-se de forma bastante distinta quando comparada com a voz narrativa pertencente à tradição oral de narrar que expressava uma preocupação iminente em apresentar os principais temas e questões dos povos islâmicos de então. Sahrazad não, sua preocupação era em construir um discurso capaz de gerar segurança, vida e liberdade: “então eu contarei a vocês histórias que serão o motivo de minha salvação e da liberdade de toda esta nação, pois farão o rei abandonar o costume de matar suas mulheres” (ANÔNIMO, 2005, p.56).


Uma leitura apressada ou superficial d'As mil e uma noites poderia nos conduzir a um equívoco de princípio, sobretudo quando nos detemos a analisar o papel da voz narrativa de Sahrazad. Poderíamos supor equivocadamente que nossa narradora seria uma espécie de protótipo de heroína ou revolucionária romântica que se lança na empresa de mudar as estruturas sócio-culturais de seu tempo. Todavia, quando averiguamos detidamente seu papel na narrativa compreendemos que ela não tem nenhum arroubo revolucionário, o mais adequado seria atribuir uma índole reformista pelo fato de em momento nenhum pretender instaurar uma nova ordem, ao contrário o que faz é buscar reformar o sistema no qual vive sem comprometer suas estruturas mais profundas.


A terceira voz narrativa presente n'As mil e uma noites vai chamar a atenção para o fato de que esta é também uma obra de educação do rei e do leitor. Além dos aspectos didáticos e moralizantes da sociedade islâmica explicitados, há este outro lado de nosso objeto de análise que considero importante explorar, não mais sob a ótica de um leitor do século XVIII ou tampouco como se fôssemos ouvintes do século X ou XIII, até porque o máximo que conseguiríamos seria uma simulação destes leitores e ouvintes, através de um exercício de descolamento histórico, na tentativa de compreender seu tempo e espaço que, seguramente, não são os nossos. Nosso tempo é hoje, 2007, século XXI e este é o olhar que, inevitavelmente, preside esta leitura.


Antes de seguir com a investigação é preciso deixar claro o que é ou quem são estes narradores que representam o que aqui chamo de terceira voz discursiva. Em primeiro lugar, na ordem de subordinação da obra, essa terceira voz será, antes de tudo, uma apropriação da narradora Sahrazad que ao contar suas histórias ao rei para se manter viva, dá voz a várias personagens presentes no mundo islâmico que ali ganharam uma certa autonomia narrativa, para que assim contem novamente suas histórias, como é o caso, por exemplo, do jovem carregador, da jovem chicoteada, que assim como suas outras irmãs e os dervixes relatavam suas trajetórias para o califa, a fim de que este se compadecesse e agisse com liberalidade para com eles.


A jovem chicoteada, por exemplo, conta suas venturas e desgraças ao califa, através dos relatos presentes na sexagésima sétima noite. Ela explica como que, com sua narrativa, consegue se livrar da sentença de morte imposta pelo marido: “Qual é seu desejo antes da morte, minha senhora? São os seus últimos instantes neste mundo. Respondi: saiam de cima de mim para que eu lhe conte uma história” (ANÔNIMO, 2005, p.201). Após ouvir todas as histórias, na integra, o califa fica assombra com tudo que lhe fora relatado e resolve resgatar a sorte daquelas pessoas, passando a conferir a cada uma delas vantagens, bens e direitos. Desta forma, “todos ficaram maravilhados com a generosidade do califa, com suas deliberações e tolerâncias; compreenderam o aspecto oculto dos casos em que estiveram envolvidos [...]” (Idem, p.205).


Outro ciclo de histórias exemplares tem início na centésima segunda noite, em que nossa narradora ao contar a história do corcunda do rei da China apresenta a trajetória do alfaiate que causara, em primeira instância, a morte do corcunda e tenta se livrar, junto com sua mulher, de tal responsabilidade transportando e abandonando o corpo da vítima na casa do médico judeu. Este por sua vez pensa ter matado o pobre coitado ao esbarrar no corpo deixado na escada que rola até o chão já sem vida, tentando se eximir da responsabilidade lança o corpo na casa do despenseiro do sultão da China, que ao chegar acaba supondo ser aquele o verdadeiro “rato” que pilhava suas coisas e acerta-o em cheio imaginando que havia matado o “gatuno”. Ao compreender o que supostamente havia feito o despenseiro entra em pânico e tenta se livrar do corpo deixando-o encostado em um poste em um beco escuro. Um cristão proeminente corretor do sultão e proprietário de uma loja, que passava bêbado pelo local, confunde aquele corpo inerte com um possível ladrão e como já havia sofrido, naquela mesma noite, a ação de salteadores, se antecipa e desfere um golpe no pescoço do corcunda que caí, pois já estava morto.


O corretor entra em desespero por supor ter matado um mulçumano e resolve seguir para a casa do administrador geral para assim confessar seu crime. A partir daí, ocorre uma sucessão de reviravoltas até que o administrador tome conhecimento, através das palavras do próprio alfaiate, que fora ele o causador da morte do desafortunado corcunda. Para que a justiça fosse feita o alfaiate deveria ser enforcado como determinara o administrador geral, porém pouco antes da sentença ser executada o sultão da China ordena que todos sejam remetidos à sua presença para que se efetuem os devidos esclarecimentos. Esclarecida a questão o sultão estende a sentença aos outros personagens, que juntamente com o primeiro condenado só teriam uma chance de salvar suas vidas, contando histórias mais assombrosas do que aquela passada com o corcunda.


Após escutar as histórias dos três primeiros condenados, o sultão não se convence que elas eram mais insólitas do que aquela que gerara toda a situação, concluindo assim que deveria matar os quatro homens, não antes sem possibilitar ao alfaiate que fizesse sua tentativa: “Vamos, conte-me uma história insólita e espantosa, que seja de fato mais assombrosa [...] e mais emocionante. Caso contrário irei executá-los todos.” (ANÔNIMO, 2005, p.311). Percebendo ser aquela a derradeira chance “o alfaiate respondeu: “sim”, e começou a contar” (Idem, p.311).


A narrativa ordenada pelo sultão da China se estende da 139ª noite até a 170ª, encerrando o primeiro volume da tradução do professor Jarouche. Considero relevante destacar que será através da boca de Sahrazd – que narra as histórias da tradição oral de seu povo para o rei, seu marido –, que vai “falar” o alfaiate, relatando os acontecimentos assombrosos ocorridos com o barbeiro de Bagdá que possibilitaram o retorno à vida do corcunda e a reabilitação de todas as personagens que assim se livraram da morte.


Os dois exemplos de situações em que a terceira voz discursiva se manifesta servem para ilustrar satisfatoriamente a questão das narrativas que educam o rei e também o leitor. Ao apresentar seus relatos Sahrazad dá voz a diversos outros narradores que contam histórias inicialmente para também salvar suas vidas, mas não exclusivamente para isso. Tudo que se conta vem revestido de significações que apontam – em um primeiro momento – para o preceito de que os requisitos indispensáveis a qualquer monarca são o temor a Deus, a firmeza e a justiça. Cada uma destas características precisa ser utilizada para promover o bem estar de todos os setores de sua nação, caso contrário, o monarca que não obedecer a estes princípios cairá em desgraça, não sendo merecedor de ocupar o trono.


Mais do que prolongar seu tempo de vida ou entreter o rei, o que Sahrazad faz ao lançar mão destas outras vozes discursivas é educá-lo para a compreensão de que suas ações efetuadas, até aquele momento, eram indignas de um verdadeiro soberano: “Foi-se a minha cólera, e é com prazer que, a partir de hoje, retiro a cruel lei a mim próprio imposta. Tendes a minha proteção, e sereis considerada libertadora de todas as jovens que ainda seriam imoladas ao meu rancor” (ANÔNIMO, s.d., p.1515). Já o leitor é instruído pelas vozes manifestadas através de Sharazad, a reconhecer a centralidade do ato de narrar que, ao mesmo tempo, salva e nos possibilita construir novas realidades.

 

considerações finais ou da importância da arte de narrar


Muitas são as maneiras e as razões de se narrar. Nos relatos d'As mil e uma noites, por exemplo, nos deparamos com um discurso que é construído a partir de uma matriz oral que vai se organizar em forma de um espiral que gira em torno de um eixo central representado pela cultura islâmica, e dele extrai preciosas histórias que ilustram as belezas, o encantamento, a magia, as crenças, os costumes, valores e, sobretudo, uma visão bastante ampla de como estes povos compreendem a existência e o mundo que os envolve. Em função disto, acabamos por encontrar uma diversidade enriquecedora de vozes que narram, formando assim um amálgama que dá a sustentação fundamental na construção de uma cultura que durante muito tempo ficou desconhecida ou foi encarada de maneira exótica, sobretudo, por setores da cultura ocidental.


Infelizmente, ainda hoje, o mundo islâmico é encarado não apenas com exotismo, mas é visto também por segmentos ocidentais hegemônicos como uma cultura de terroristas. Sem ingenuidade percebemos os aspectos ideológicos e econômicos que estão no âmago desta visão, pois, como sabemos, os territórios árabes sofrem um forte assédio e a cobiça, por exemplo, em função de ali estarem concentradas as maiores reservas de petróleo do planeta. Hoje, parece ser urgente narrar, principalmente, ao mundo ocidental uma história dos povos islâmicos que ressalte as qualidades de uma nação que não é feita apenas de homens-bomba, que apesar de tantos conflitos deseja a paz, a harmonia e uma convivência pacífica entre as nações. Por isso, procurei evitar, ao longo deste ensaio, uma leitura anacrônica d'As mil e uma noites a fim de superar as dificuldades de compreender este retrato da sociedade islâmica como o outro, portador de alteridade, o que não a torna nem melhor, nem pior, apenas diferente de qualquer outra.


A voz narrativa que se constituiu a partir do encontro da cultura oral com a prática da representação da escrita narrava, como vimos, para manter acesa a chama da milenar tradição islâmica. Sahrazad, por sua vez, contava suas histórias para não morrer e ainda salvar outras mulheres. Já as personagens que ganharam voz e forma a partir da fala da intrépida jovem fazem seus relatos para, além de se manterem vivas, educarem o rei, os ouvintes e leitores da obra. Há também os que narram para se livrar das histórias que habitam seu mundo interior, como fantasmas que arrastam pesadas correntes nos calabouços da memória. Outros narram para descobrir a si mesmos e a própria vida. Há também aqueles que contam para ocultar, disfarçar e dissimular a imagem daquilo que pensam ser. Alguns narram por temer o poder desvelador do silêncio que, às vezes, comunica tanto ou mais que um extenso discurso.


Quanto a mim, diria que narro para resistir, insistir e reafirmar que, ao contrário do que muitos acreditam, o cinismo não é a última palavra. Embora perceba que a lógica do cinismo tem sido a tônica dominante em nosso tempo, narro para ousar afirmar que é possível operar fora deste modelo, construindo um outro mundo possível através da junção da reflexão, do discurso e da ação que passam assim a formar a tríade na qual se sustenta a minha noção de mudança, meu desejo de transformação e minha profissão de fé na vida e no ser humano.
 

 

 

ANDRÉ DIAS é professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal Fluminense e doutorando em Literatura Comparada pela mesma instituição.

 


 

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