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vitor paiva


três contos-poemas

 

 

 

Alguém carregando um vaso com flores

 

Antes de abrirmos os olhos, pela manhã, um alguém invade nossos quartos e deposita sobre nossas palmas um objeto, para nós o carregarmos durante todo o dia que virá. Esse é o nosso único ofício: diariamente levar, por todo aquele futuro sol a sol, uma máquina de escrever, um guarda-chuva, um piano, uma imagem de Nossa Senhora, uma faca, um corte de pano, um bloco de concreto, uma peça de açougue, um cadáver, uma bandeira, um computador, uma sanfona, um revólver, uma enciclopédia, um televisor, uma luneta, uma lâmpada ou um anzol. Feito um estandarte. Sempre diferente e sem explicação. E não há um só ser humano que se encontre livre de tal função; da manhã ao bocejar da lua, transportar um trombone, um vaso de flores, uma cadeira de balanço ou uma pá.


Os mais dedicados ao estudo de tal fenômeno garantem que é possível – em um raríssimo esplendor reservado somente àqueles que muito pouco dormem à noite – enxergar o objeto carregado. Debaixo de certo horóscopo de acontecimentos em sonho, e se, nesse exato tiro, uma lágrima descer apressada para servir de prisma, se torna praticável então enxergar também o entregador, com o objeto ainda em mãos, até que nosso corpo receba o pacote e finalmente encarne para o ofício em tropeços e delírios.

 

 

Um certo agosto em pleno fevereiro

Foi ouvindo conversas alheias que conheci a lenda do homem que vivia em agosto, enquanto o resto do mundo já contava fevereiro. Em uma fila ou em uma mesa ao lado, diziam que nem ele percebeu quando perdeu o compasso, mas de repente se viu em um ritmo contrário, uma quiáltera atravessada, e já era agosto pra ele, enquanto os outros liam fevereiro. O vértice da narração foi alcançado no momento em que, por uma óbvia dedução de possibilidades, algum terceiro cogitou, na época, a idéia do mundo sim estar fora de tempo, e o sujeito correto. Era uma discussão sem tema nem conteúdo, mas a celeuma estava disseminada. Tudo era contado com euforia e muitos gestos. Por um parágrafo se pesquisou quando poderia ter sido o momento em nossa história que teríamos perdido um punhado de meses, mas a busca pareceu absurda demais, e resolveram então voltar a enquadrar o homem, que em nenhum momento propôs discussão alguma.


A decisão final foi esquecê-lo – quem sabe algum avô ou outro parente em preto e branco possa se lembrar; talvez um jornal amarelado ainda contenha uma pequenina nota a respeito – e nunca mais tocou-se no assunto. O trato tornou-o fábula para poucos mas, se tiver sido fato como eu acho, é possível que ainda hoje exista alguém em agosto enquanto pulamos o carnaval, e talvez então as coisas comecem a fazer sentido.

 

 

Para combater a dureza das fotografias

Contam de um menino que, em seu quarto, brincava de salvar da agonia estática as fotografias. Pelo abraço que nunca se tocava, as palmas que não desatavam, pelo sorriso perpétuo e o ritual era sempre o mesmo: primeiro o menino, com a fotografia em mãos, rodava e rodava até o meio de revolto oceano em um bote. Depois, instalava-se imóvel diante da figura, com os olhos vidrados no papel, em uma concentração kamikaze – com tanta força que às vezes parecia que a fotografia pegaria fogo – até conseguir enxergar na própria foto o próximo frame do movimento, quando finalmente o salto atingia o chão, os olhos se abriam e o gole no copo esquentava dentro da barriga. Então, o menino dava um pequeno sorriso, com uma graça só possível na infância, perdia o interesse pela brincadeira e procurava outra graça pra brincar. Pelo menos, é o que dizem.



VITOR PAIVA é escritor, músico, compositor e jornalista. Publicou e ainda publica crônicas em revistas e jornais como o Caderno B do Jornal do Brasil, Outracoisa, Revista da MTV, OPasquim21, Bundas etc... É baixista da banda Os Outros, e publicou seu primeiro livro, Tudo que não é Cavalo, em 2004. Desde 2002 escreve e apresenta um quadro sobre música no programa de tv Comentário Geral, na TVE. Os três contos-poemas publicados aqui fazem parte de seu livro inédito, Boca Aberta, que será lançado em julho pela editora Confraria do Vento.
 


 

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