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marcelo ariel


no deserto com Paul Bowles

 

 
Para Ademir Demarchi,

José Aparecido & Nicodemos Sena.
 

 

1.

O dia apaga teu rosto:

A dark form impenetrable silent...
P. B. in The fast twlight

A noite
caindo como um suiçida,
refaz o movimento
de uma pérola descolando;
Nuvens brancas
no céu
apagam teu rosto sem dono,
sombrio, tentando
insinuar que a melancolia
dos horizontes
abraça as árvores,
que todo esse ouro violento
é neutralizado
por um poderoso vazio sempre
nos chamando.
Podemos vê-lo na luz
que sai do nosso olhar
tocando de leve
o alto do Morro
e depois se fechando
sobre o rosto;
Luz se erguendo
como uma torre
sobre os escombros
de outra:
Escuridão de um
silêncio incompleto
em sua amplidão
de deserto flutuando no ar
entre rosas de água...
A umidade das pétalas
é como a pupila
tocada por essa luz,
que lembra
um diamante na piscina,
pedaços pequenos dela
se quebrando
até formarem um átomo
que fica cada vez menor
até o núcleo do invisível-indivisível,
que o aniquila...
Por enquanto vemos somente o que vemos,
a silhueta impenetrável desse silêncio
num crepúsculo
se quebrando como uma carícia
do fim
sempre chegando,
do dia jamais
terminando
até que a diferença
entre o visível e seu contrário
anulamos
quando finalmente
vamos...
 


2.

 

para onde vão os mortos?

 

"The white Light of
our flimsy prision..."
P.B.

 

O espaço interior,
como casas de cristal
onde "quase-vivemos".
Nossos tentáculos de cristal, tão frágeis,
que nos esquecemos
do que eles nos trazem?
Da delicada transparência da luz e sua prisão
onde "nos sentamos por dentro"
para escutar
o som áspero dos galhos secos do tempo...
Ali, nenhum inseto nos perturba
"como um pensamento",
nenhum vento...
Nada saberemos
sobre esse lugar?
Onde jamais estivemos...
 


3.

Honestamente o que foi dito está acima do visto pelos olhos, acima das árvores, que aparentemente são os anos e as estações, acima do teu rosto indiferente, acima do rugido desse vento obstruído pela floresta, acima do que nela está ouvindo o chiado fino das coisas que jamais foram reais, do que está escutando nosso esqueleto, "nossa carcaça psíquica", acima deste objetos inanimados, acima das nuvens, acima destes signos que se movem como um lençol na superfície de um sono, acima da nossa respiração inquieta e do abraço maravilhoso desse repouso do Nunca mais, das ruas que estão em toda parte e são a mesma, acima de tudo o que pôde ser assassinado e principalmente acima desse Ser que pensou reinar sobre as árvores como se ouvisse úteros que num paradoxo concebem a si mesmos, como se ouvisse do fundo da mente e de sua "dupla exposição", o sussurro mecânico e sem razão do próprio coração...
 


4.

Se a febre retornar
poderei ver a manhã
dos Santos
caminhando dentro da fome?
Ser o ar na voracidade das últimas florestas?
Sorver o vinho do silêncio e seus meses e anos dentro do vento?
E na febre sentir a lenta explosão
do corpo
no deserto de dentro...
 

 

MARCELO ARIEL é escritor, performer e proprietário do sebo itinerante O Invisível, em Cubatão, onde vive. Mantém o blog Teatrofantasma e uma coluna na revista eletrônica Critério. Tem poemas publicados nas revistas Babel, Cult e no Jornal O Rascunho, de Curitiba. No deserto com paul Bowles faz parte do livro inédito Scherzo-rajada, que deverá ser publicado neste ano.


 

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