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charles kiefer


duas notas sobre os blogs
 

I

Todo produto cultural – ainda o mais alienado e superficial – oculta na sombra da aparência a massa sólida e substanciosa que o projeta. A um olhar rápido e que não penetra a matéria observada, os blogs não passam de “trenzinhos-elétricos de diversão do ego”, onde adolescentes desorientados estariam fazendo mera catarse, como têm dito aqueles que condenam, geralmente sequer sem conhecer, essa nova forma de expressão.

Num certo aspecto, a acusação é verdadeira. Nesses novos espaços de comunicação, o ego passeia – como passeou, solene, na tragédia áurea, na lírica clássica e no drama burguês – porque o texto real ou virtual é a casa do ego, onde o ser lança os seus fundamentos. E no labirinto do ego devorador é de pouca ou de nenhuma importância a diferença entre a dor de Homero e a angústia de uma estagiária de comunicação.

É bom que o ego passeie pelos blogs, e que se expanda, e que se desnude, especialmente nessa fase fundadora, de pura ex-pressão, quando o que é quer vir para fora, embora saia apertado, e abaixo de vaias. De tanto se mostrar, a expressão, no choque permanente contra o leito do rio da experiência, arredondará as suas formas, polirá as suas arestas, e se transformará em arte. (O que chamamos de Homero é a lenta sedimentação de um processo popular polifônico, que a tardia gramática helenista transformou em modelo de “bem-escrever”). E então, o olhar apressado há de deter-se sobre o novo objeto e será capaz de ad-mirá-lo.

Em sua protoforma, os blogs “parecem” ser a escória de uma civilização voyeurista, o destilado mais recente da tecnificação absoluta. No entanto, como à natureza apavora o absoluto e as afirmações categóricas, ela própria se encarregará de se vingar, transformando, ainda uma vez, o periférico e marginal em central e integrado, de tal forma que os blogs poderão vir a ser a mais autêntica forma de expressão artística do século XXI.

II

Mais que a emergência de uma nova forma artística – nova em seu suporte material (não mais o velino, o papiro, o papel de pano ou de celulose, mas o plasma de elétrons) e nova também em seu modo de expressão, em sua linguagem, em seus temas – o blog é a objetivação de uma nova subjetividade. Assim como o diário primitivo era produto da necessidade de instauração da individualidade que as forças produtivas da industrialização geravam (para desenvolver-se, o capitalismo necessitou de uma bem-constituída noção de individualidade), o blog, no estágio avançado do capitalismo contemporâneo (em que toda a manifestação cultural transforma-se em mercadoria) é também produto de uma nova necessidade: a da diluição e destruição da noção de identidade nacional e, no limite, da noção de identidade pessoal. Não por acaso, ao mesmo tempo em que se multiplicam vertiginosamente a criação e o consumo da nova forma artística, destroem-se impiedosamente os fundamentos do Estado-Nação – a moeda nacional, o direito de autodeterminação – sob o rolo compressor da globalização. Sob os escombros da velha ordem jurídica internacional, inicia-se a partenogênese da identidade planetária. O blog é o sintoma, a aparência, a mimetização deste processo. O ego do diário era um ego pudico e recatado, que se escondia nas páginas de um caderno, acessível somente ao autor, quando não chaveado ou escondido em porões e sótãos; o ego do blog é um ego promíscuo e voyeurista. O primeiro assinava o próprio nome; o segundo esconde-se – em geral – sob pseudônimo.

Há ainda, nesse novo ego, um certo acanhamento, uma saudade de sua antiga ética, mas não por muito tempo. O admirável ou detestável mundo novo está, enfim, nascendo. Ou já nasceu. Intuído por Shakespeare, que viveu no princípio da emergência das novas forças sociais que originariam a burguesia industrial, o brave new world realiza-se agora, sob os nossos teclados (como um desesperado partisan, produzo esta reflexão à mão, a provar, nem que seja para mim mesmo, que as antigas formas estéticas não desaparecem, mas que convivem com as novas, complementam-se, transformam-se). A literatura criou, nos últimos séculos, poderosas imagens mito-poéticas – o amor romântico, a paisagem, o auto-retrato (a deuses e heróis mitológicos, símbolos da aristocracia, a burguesia preferiu pintar-se a si mesma), o detetive, o viajante espacial, o flâneur, o boêmio revolucionário. E a literatura vai criar, com maior rapidez, novas imagens, cujas configurações não podemos ainda descrever, mas que já podemos pressentir. Se olharmos para os blogs sem preconceito, sem rigidez e sem pressa, poderemos distinguir neles formas larvares, embrionárias, de uma nova subjetividade. A Idade Média produziu toneladas de romances de cavalaria, mas um único Dom Quixote. Milhares de páginas de folhetins foram escritas no Brasil do século XIX, mas um só Dom Casmurro. O próximo Dom nascerá nas infinitas páginas dos blogs, chats e sites e redimirá aqueles que hoje perdem tempo examinando os jardins que se bifurcam na Infovia.

 

 

 

Charles Kiefer é natural de Três de Maio (RS). Estreou na ficção em 1982 com Caminhando na Chuva. Em 1985 ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, pelo livro O pêndulo do relógio. Em 1993, com o livro de contos Um outro olhar e com Antologia Pessoal o escritor recebeu novamente dois prêmios Jabuti. Recebeu também o Prêmio Guararapes, da União Brasileira de Escritores, pelo O pêndulo do relógio, o Prêmio Afonso Arinos 1993, por Um outro olhar, e o Prêmio Altamente Recomendável para Adolescentes 1986, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para o livro Você viu meu pai por aí?. Edita a revista de contos Bestiário www.bestiario.com.br

 


 

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