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joão gabriel rosa de almeida


o morfético promotor de oblivion

e os habitantes da cidade madrasta

 

 

Só o presente existe no tempo e reúne, absorve o passado e o futuro, mas só o passado e o futuro insistem no tempo e dividem ao infinito cada presente. Não três dimensões sucessivas, mas duas leituras simultâneas do tempo.
 

Gilles Deleuze, A lógica do sentido

 


Um pequeno grupo de moradores da pacata cidade de Areias, no Vale do Paraíba, cultiva recordações pouco amistosas do insigne escritor José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), que viveu no município entre 1907 e 1911, na condição de promotor público. Destoante da lembrança da maioria dos brasileiros, que rememoram este célebre autor como o fecundo escritor infantil, o “criador do Jeca Tatu” ou o perseverante “arauto da campanha pelo Petróleo” no Brasil da década de 1930, os habitantes locais não evocam o mito nacional Lobato, mas o promotor caçoísta nomeado por influência do avô, o Visconde de Tremembé. Eles partilham de uma memória densa elaborada em função de uma leitura distinta da coletânea Cidades Mortas (1919). O município havia servido de cenário na verve de Lobato para a criação das fantasiosas e soturnas cidades de Itaoca, Itapuca e Oblivion, nas quais transcorrem os contos do livro. Areias ainda inspirou a Tia Nastácia, a cozinheira negra do insólito Sítio do Pica-pau Amarelo, que num dos episódios da saga, chegou a preparar bolinhos para saciar o apetite de um monstro mitológico em seu labirinto. Há outros “personagens-habitantes” obscurecidos na obra lobatiana: o licencioso Comendador Clarineta; o impertinente vendedor de grumixamas; o Major Isaac, que acreditavam caçar almas; o andante Pedro Inchado, entre outros.
 

Cidades Mortas retrata a estagnação sócio-econômica da região cafeeira do Vale do Paraíba, quando da expansão do cultivo do produto, em fins do século XIX, para as terras férteis do Oeste Paulista. As reflexões e denúncias do escritor foram julgadas pelos areienses como insultos à cidade natal e sua população. Em contrapartida, os relatos memoriais expressam uma carga emocional muito forte, revidando o epíteto de “cidade morta”, inventado pelo escritor para seus debiques ao município. Decretando o município mortiço, Lobato condenava seus moradores ao estigma de mortos-vivos que perambulariam por ruas fantasmagóricas.
 

Na subjetividade mnemônica, alguns de nossos depoentes acreditavam que Areias seria uma “péssima mãe”, mas uma “boa madrasta”, censurando supostos privilégios concedidos aos forasteiros por esta, enquanto seus filhos areienses seriam deixados à míngua. Para muitos deles, foram os auspícios da “madrasta” que facultaram a sinecura da promotoria a Monteiro Lobato.
 

Na verdade, o jovem bacharel desejava se casar com Purezinha, a filha do Dr. Quirino, seu antigo professor, com quem jogava entediantes partidas de xadrez somente para esperar o bolinho com café que a tímida pretendente vinha servir. Todavia, era necessária uma promotoria definitiva. Lobato acionaria o prestígio do avô, o Visconde de Tremembé, a fim de ser nomeado para uma comarca próspera. Frustara-se, a influência do cafeicultor conseguiu apenas Areias, localidade de que nunca ouvira falar e que a ele parecia não existir.
 

A “cavação da promotoria”, como Lobato definiu, deveu-se às relações de sua família com o Secretário de Justiça e Segurança Pública do Estado, Washington Luiz. O assédio a cargos públicos era uma prática recorrente entre os bacharéis das famílias oligárquicas empobrecidas durante a República Velha.
 

A decadência urbana da comarca assombrou Lobato: (...) Areias é uma calamidade. Só nela existem três coisas que deixam saudades a quem sai: O Dr. Hermógenes [juiz], a cadeira de balanço dos Müller e o banheiro do Sr. Carvalho [único que possuía chuveiro]. A nossa vida aqui é curiosa; temos duas caras; uma para os areanos, outra para nós mesmos. Para aqueles, vivemos a gabar-lhes a cidade, o povo, a vida social, etc; entre nós, quando ninguém nos ouve, rompemos os diques do desabafo e damos para o diabo Areias, areanos e o mais. (Cartas de Amor)
 

As narrativas memoriais dos areienses assumem uma feitura mítica. O mito, conforme concebeu Roland Barthes, em Mitologias, é uma fala, tal como uma frase ou súmula narrativa, sendo uma criação discursiva localizada no mundo do discurso, da ideologia e do poder. Os mitos têm a função principal de transformar uma intenção histórica em natural, uma contingência ocasional e fortuita em discurso com foros de eternidade, portanto, o mito possui um caráter essencialmente conservador. Ele elimina a qualidade histórica das coisas, que perdem a lembrança da produção de sua raiz nos acontecimentos vividos para se transformar em fala e discurso. Logo, o mito é uma fala que despolitiza, isto é, naturaliza os fatos, não os explica, deforma-os, conforme as necessidades daqueles que se sentem impelidos a produzi-los.
 

Os relatos dos areienses elaboraram um mito a respeito da estadia de Monteiro Lobato no município, em nada favorável ao escritor, que sugerimos denominar de “promotor de Oblivion”. Despreocupados com a historicidade do livro Cidades Mortas, os areienses naturalizaram as denúncias da decadência urbana na obra em vilanias a Areias: As pessoas mais antigas não gostam dele porque Lobato criticava muito a cidade (...) A cidade não merecia de maneira alguma, afinal, ele foi bem acolhido aqui. Agora, o que ele ficou fazendo aqui eu não sei. Eu acho que ele deveria ser uma pessoa doente, porque morou aqui, começou a carreira aqui, fez a vida aqui e saiu falando mal de Areias. Eu não entendo! (moradora Justina Elme, setembro de 2000)
 

O escritor é rememorado num homem de feições horrendas, neurastênico, solitário, caçoísta, injusto, excêntrico, preconceituoso, orgulhoso, insano e até mesmo morfético. Conta-se que Lobato, quando deixou a comarca para herdar uma fazenda nos recessos da Mantiqueira, por ocasião do passamento de seu avô, não poupou Areias de seus debiques: (...) Vovó contava que vinha gente lá do Tabuão pra cidade, de vestidinho de chita, com babadinho assim no meio da canela e com lacinho de fita e duas rodinhas de ruge... nem era ruge, às vezes, era papel vermelho. Vai ver que ele achou isso interessante. Sei que quando foi embora daqui, então, vestiu as filhas de caipira, igualzinho à gente do Tabuão, caçoando da cidade. Ele era crítico mesmo! Por causa disso, o povo ficou com raiva dele. (moradora M.P., 82 anos, janeiro de 2003)
 

No outono de 2001, todavia, a prefeitura municipal de Areias ergueu nos jardins da antiga cadeia estátuas de Monteiro Lobato, do Jeca Tatu e das mágicas personagens do Sítio do Pica-pau. Transcorridos dois anos, inaugurou-se uma biblioteca pública batizada com o nome do autor. Houve um esforço do governo local para festejar Lobato na categoria de escritor consagrado que produziu alguns textos literários inspirados na localidade. A celebração expressa-se nos nexos da memória oficial que enfatiza as qualidades literárias do literato em detrimento dos sentimentos dos moradores: Não concordo com a construção daquelas estátuas na cidade porque, primeiro, Monteiro Lobato foi, simplesmente, um passageiro promotor público, que nada fazia para honrar o cargo, e aqui vivia esperando o dia de amanhã para se libertar do pesadelo que era Areias para ele; outra, Areias não é o “Sítio do Pica-pau” para ficar expondo seus personagens e, por último, essas estátuas espalhadas na frente da Câmara parecem estar representando um presépio gigante, apagando a beleza do prédio. (Erika Evangelista, agosto de 2001)
 

A estatuária, embora tenha modificado a configuração espacial à qual a comunidade deveria adaptar-se ou submeter-se, não representou o esquecimento dos antigos arranjos materiais e da memória constituída pelo silêncio dos objetos exteriores que a cercavam. A imagem dos tempos de outrora continuava a subsistir. Os costumes locais resistem às forças tendentes a transformá-los. Assim, se muitos dos areienses parecem adaptar-se à saudação ao ex-promotor, sua desafeição não diminuiu e nem suas recordações se transformaram. Continuavam desejando relegar Monteiro Lobato ao oblivion.

 

 

 

João Gabriel Rosa de Almeida é mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em sua tese, discute questões de memória, projeção e narrativa. Para isso utiliza a figura de Monteiro Lobato, sobre a qual realizou, dentro desses temas, uma inédita pesquisa, já em vias de ser publicada.
 


 

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