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roberto alvim


diário de guerra
 

 

Eu ainda estou de pé, colossal e ridículo...

Assim, sempre existirão homens de pé no meio da sua época.

Mas por que eu, por que justamente eu?

Não existe explicação.

O que é que nós sabemos?

Cada novo dia pode trazer o paraíso. cada noite, o inferno.

 

Ernst Toller, dramaturgo alemão

 

 

O único autor brasileiro que foi capaz de criar uma realidade autônoma no palco, que funciona segundo suas próprias leis e que permite a discussão de grandes temas através de narrativas que mantêm um interesse permanente, foi Nelson Rodrigues. Sua influência mais destacada: os gregos trágicos. Guarnieri e Vianinha nunca se propuseram a isso, seguiram outras veredas: criando a partir de bases ideológicas nítidas, construíram peças nas quais a realidade brasileira estava espelhada em cena, em especial a vida dos desamparados diante da lógica selvagem das sociedades industrializadas. Influência: o neo-realismo italiano (cinema). Essas duas vertentes são teatro vivo (os gregos e Brecht - e o realismo social norte-americano - na origem). Existem outros autores brasileiros, claro, responsáveis por pequenas contribuições; mas visões de mundo, grande arte, na linha de Harold Pinter ou Arthur Miller, disso não há muito mais. Nelson, Guarnieri e Vianinha, no entanto, exercem pouca – pouquíssima – influência sobre os novos autores brasileiros. O pai principal aqui nos trópicos é Beckett, jamais desobedecido pela inteligentsia nativa. A questão é o perigo da influência debilitante exercida pela obra do nosso caro niilista: quando o indivíduo se dedica a realizar inventários da vida humana onde a idéia de civilização é vista como bobo passatempo antes da morte chegar, cedo ou tarde o beco sem saída se apresenta e aí, ou matamos esse pai e abandonamos a doença da desconstrução, ou matamos a nós mesmos como criadores.

É difícil escrever hoje: a justiça, a grande narrativa da moral, da ética, temas incontornáveis a qualquer teatro saudável e inserido socialmente, não exercem mais sedução sobre nossos autores. Brecht foi esquecido junto com o comunismo e os gregos são incompreensíveis para o imbecil coletivo. Sem um quadro de valores próprio, diferente (oposto, mesmo) do senso comum, os autores contemporâneos se resumem a expor sintomas do nosso grande vazio, da nossa grande falta de interesse pela construção da sociedade.  

As personagens de ficção nos mostram como nós agimos, mas não podem viver nossas vidas em nosso lugar.

Edward Bond, dramaturgo inglês

 

 

Só que arte não é terreno baldio. Arte potencializa o indivíduo, problematiza a realidade, liberta, dá poder. Traz de volta às mãos das pessoas o arbítrio sobre suas vidas. É sempre ofensiva, claro. Tem que ser.

A esquerda tomou o poder por estas plagas em 2001, o que minou o desejo de um teatro político na nova geração de dramaturgos. O mesmo se deu na França nos anos 80 e o teatro por lá caminhou por investigações de linguagem autônomas, por um abstracionismo teatral no qual o assunto da cena é apenas a própria cena. Se quiser saber onde isso vai dar, tente observar os quadradinhos coloridos dos nossos pintores concretos: chato, chato, chato... Compare com a arte renascentista e só resta sentar na calçada e chorar (no teatro se dá o mesmo: já tivemos Shakespeare, como viemos parar aqui, onde nos perdemos?). A melhor coisa no MAC de Niterói é o prédio do Niemeyer, que é arquitetura moderna – não contemporânea... O fato é: não dá pra escrever (ou criar qualquer obra de arte) sem que o autor se baseie em um sistema de valores definido, em uma posição política clara, embasada. É preciso assumir a responsabilidade de ter valores, é preciso urgentemente dizer não à ditadura do relativismo pós-moderno, o grande castrador de qualquer um que se aventure a opinar e pensar por conta própria. Caso contrário, tudo o que fazemos coloca-se na esfera dos sintomas patológicos.

O teatro constitui um modo complexo de intervir na realidade com a intenção de chegar a verdades que a sociedade oculta ou nega. Quando a sociedade não pode reconhecer sua injustiça, ela não pode resolver seus problemas.

Edward Bond, dramaturgo inglês

 

 

*

 

Dois filmes recentes: Os Sonhadores e Os Educadores. O primeiro, uma babaquice cheia de golpes baixos emocionais que redunda num otimismo pessimista. O segundo, uma obra séria, passível de ser assistida por adultos alfabetizados, que redunda num pessimismo otimista (única postura aceitável hoje). O primeiro fez um sucesso incrível aqui no Rio, entre a rapaziada-antenada-malandragem-zona-sul. O segundo nos apresenta uma tentativa de postura e proposição. Foi menos visto, menos comentado, mas está aí pra quem se interessar. Ok, ok, nem tudo está perdido: chega de sonhos, vamos à educação – nossa e dos outros.

 

O lobo foi à galinha

E disse: precisamos nos conhecer bem,

Conhecer bem, apreciar bem.

A galinha apreciou,

A galinha foi com o lobo.

Por isso há tantas penas no campo.

Bertolt Brecht, dramaturgo alemão

 

 

Roberto Alvim, 30 anos, é dramaturgo, diretor, ator e professor de História do Teatro na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras). Autor de 11 peças, seus últimos trabalhos no Rio foram: PELECARNESANGUEOSSOS, Todas as Paisagens Possíveis, Qualquer Espécie de Salvação, Às Vezes É Preciso Usar Um Punhal Para Atravessar O Caminho, Vagina Dentata e Mundo Pânico. Atualmente exerce a função de Diretor Artístico do Teatro Ziembinski.

 


 

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