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set-out 2006


 

O maior herói nacional da segunda metade dos anos 80 foi Ayrton Senna. As manhãs de domingo eram emolduradas com esses Grandes Prêmios de Fórmula 1 e os brasileiros, esses do povo, habitando as profundezas dos sertões ou a superfície urbano-periférica, faziam coro com aqueles a quem realmente o mundo dos carros de luxo e dos motores potentes e das marcas globais pertence. Éramos a nação Senna numa bólide a 300 Km/h. Até o muro da Tamborello, em Imola.

A morte do herói, essa morte que o Nouveau Roman tentou anunciar e que os pós-modernos alardeiam, tentando “fragmentá-lo”, foi sentida ao vivo por um Brasil perplexo. O 1º de maio de 1994 não foi o Dia do Trabalhador. Foi o dia da morte do herói. O que se viu foi uma demonstração de solidão e abandono em todos os corações brasileiros. O hino da vitória calou e nunca mais o ouviríamos com a mesma emoção. Erguido o muro, nunca mais seria preenchida.

O piloto Senna é, aqui, a necessidade da nação de construir ídolos e neles se apegar. O que aconteceu, entretanto, quatro dias depois daquele adeus foi menos sentido nacionalmente e poucos se tocaram com o desaparecimento do nosso outro herói. Mario Quintana, o veloz piloto fechava o seu baú de cata-ventos, viajava sob a onda melancólica da pós-morte daquele. Poucos o leram nesse país de não-leitura, no qual os heróis literários são seqüestrados por um sistema educacional anti-heróico.

Quintana foi obnubilado pelas lacunas da vida real, pela emoção imagética e sonora da máquina de sonhos, a televisão. Nós que o líamos, os privilegiados do sistema, éramos embalados pelo tiro-certo-veloz de seus poemas tão líricos quanto bravos, de tez macia e de ossos inquebráveis, de olhos meigos e de calcanhares que, além de asas, vestiam o velho garrão de touro. Os heróis óptico-ilusórios passarão. Nesse número da Confraria habitarão os passarinhos bebericando em um bar de saudade, trazidos por Moacyr Scliar.

Enveredamos, no momento em que a Confraria do Vento também se torna uma editora de papel, pelos descaminhos e desquestões da escrita, virtual ou real, e atravessamos a terra rumo à estação Austrália. Seguimos o nosso rumo erguendo velas ou pedalando, voando rasteiro ou nos perdendo no infinito em expansão. Se para Fukuyama acabou a história e esperamos o pós-humano, para nós sempre haverá histórias e tudo que for pós será também humano. Não esqueçamos, todavia que a única força regente é a força gravitacional, essa que diz: todos os corpos tendem a ficar unidos, embora separados. Unamo-nos... mas sem gravidade.


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